Trump chega hoje à Casa Branca sem buscar consenso sobre estilo e projetos

Trump chega hoje à Casa Branca sem buscar consenso sobre estilo e projetos

Divisão. Presidente eleito dos EUA toma posse enfrentando recorde negativo de aprovação, protestos e acusações de ilegitimidade; apesar de animosidade durante campanha, Hillary e Bill Clinton devem comparecer à cerimônia que encerra transição tumultuada

Redação Internacional

20 Janeiro 2017 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Donald Trump chega à Casa Branca hoje como o mais impopular presidente eleito da história recente dos EUA e diante de um país fraturado. Enquanto centenas de milhares de seus seguidores estarão em Washington para celebrar sua posse, outros tomarão as ruas para protestar contra um governo que consideram uma ameaça a conquistas recentes e aos próprios princípios que sustentam a democracia americana.

**EDS:  REFILE OF TRUMP INAUGURATION 54 SENT JAN.19, 2017 TO PROVIDE BLACK-AND-WHITE TONING**  President-elect Donald Trump and his wife, Melania, descend the steps of the Lincoln Memorial to a welcome concert on the day before his inauguration in Washington, Jan. 19, 2017. (Doug Mills/The New York Times)

Trump e Melania no Memorial Lincoln. Foto: Doug Mills/The New York Times

Presidentes eleitos costumam usar o período anterior à posse para tentar curar as feridas abertas no combate eleitoral, com discursos e posições conciliatórias. Fiel a seu estilo, Trump ignorou a tradição e usou o Twitter e entrevistas para atacar adversários, demonizar a imprensa, intimidar empresas americanas e estrangeiras, criticar os serviços de inteligência dos EUA e menosprezar personalidades de Hollywood. Também alarmou aliados e insistiu nos elogios ao presidente russo, Vladimir Putin.

Muitos dos seguidores de Hillary Clinton veem Trump como um presidente ilegítimo, em razão da suspeita de interferência da Rússia nas eleições e do fato de ele ter perdido o voto popular por uma diferença de 2,9 milhões de votos – 48% dos eleitores optaram pela democrata, 2 pontos porcentuais a mais que os 46% que escolheram Trump. Ainda assim, ele saiu vitorioso no colégio eleitoral.

Derrotada em uma eleição em que era considerada a favorita, Hillary estará na posse de Trump hoje ao lado de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton. Também está prevista a presença de George W. Bush, atacado com frequência pelo presidente eleito durante a campanha. A participação de adversários e ex-ocupantes da Casa Branca nas cerimônias de posse é uma tradição americana, vista como um gesto de respeito à instituição da presidência e ao ritual de transição pacífica do poder.

O presidente eleito terá a chance de fazer gestos conciliatórios em seu discurso de posse, que deverá ser acompanhado pela TV por 40 milhões de pessoas. “Trump não teve uma transição tranquila. Seus tuítes, as histórias sobre a Rússia, o conflito de interesses com seus negócios, tudo isso prejudicou sua aprovação. Ele precisa de um discurso positivo para aumentar seu capital político, que será necessário para implementar sua agenda ambiciosa”, disse o cientista político Aaron Kall, professor da Universidade de Michigan e autor de livro sobre os discursos inaugurais de presidentes americanos nas últimas quatro décadas.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias indicam que Trump assume a Casa Branca com aprovação de 40% da população, metade da registrada por Barack Obama oito anos atrás. Levantamento divulgado pelo Washington Post/ABC News na terça-feira mostrou que 53% dos entrevistados têm uma visão negativa de Trump, enquanto 61% disseram não ter confiança em sua capacidade de tomar decisões corretas para o futuro do país.

Entre 700 mil e 900 mil pessoas são esperadas para a posse. Outras milhares estarão nas ruas de Washington para protestar contra a retórica e as propostas de Trump. “Nosso objetivo é atrapalhar a posse. Isso não pode ser uma festa”, afirmou Liz Buttler, uma ativista ambiental que participou de protestos contra Bush em 2001 e 2004. Liz teme que Trump adote um estilo autoritário, com ameaças à liberdade de expressão e aumento do espaço para a corrupção.

“Trump foi escolhido pelo povo e é o nosso presidente”, disse Patricia Martinelli, eleitora de Trump que viajou de Las Vegas a Washington para assistir à posse. “Muita gente não gostou da vitória de Obama, mas não houve protestos.”
O ambiente dos EUA na véspera da posse do primeiro presidente negro do país era de otimismo e celebração, o que se refletiu no público recorde de 1,8 milhão de espectadores em seu juramento em Washington.

O maior ato de rejeição a Trump acontecerá amanhã, quando 200 mil mulheres são esperadas na capital americana para uma marcha em defesa de seus direitos, entre os quais o acesso ao aborto legal. Durante a campanha, Trump usou uma retórica considerada ofensiva por parte do eleitorado feminino e prometeu indicar juízes conservadores para a Suprema Corte, que sejam contrários à prática do aborto.

Trump será o homem mais rico, mais velho e com menos experiência na vida pública a tomar posse como presidente dos Estados Unidos. Também será o primeiro com o nome Donald e o único com um currículo de três casamentos.
Contrariando todas as projeções, ele derrotou 16 adversários do Partido Republicano e venceu a eleição com um discurso nacionalista e populista, embalado por ataques ao livre-comércio e a promessa de recuperar empregos industriais destruídos pela globalização. A partir de hoje, ele terá o desafio de transformar em realidade o slogan que marcou sua campanha: Make America Great Again, um chamado a fazer os EUA grandes de novo.