Trump é acusado de submissão a Moscou

Posições pró-Rússia afastam republicano de política externa tradicional dos EUA

Redação Internacional

02 Agosto 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

O republicano Donald Trump nunca escondeu sua admiração por Vladimir Putin. Nos últimos dias, porém, o candidato à presidência dos EUA foi além e passou a defender posições mais alinhadas aos interesses de Moscou do que aos de Washington. Na mais recente delas, o bilionário disse que poderá reconhecer a anexação da Crimeia pela Rússia, caso seja eleito, e suspender sanções impostas ao país pelo governo de Barack Obama.

Antes disso, o candidato já havia colocado em dúvida o compromisso dos EUA de defenderem seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de um eventual ataque da Rússia. De acordo com ele, isso só ocorrerá se os países estiverem em dia com suas contribuições junto à aliança atlântica.

O candidato republicano Donald Trump. Foto: REUTERS/Carlo Allegri

Durante a convenção do Partido Republicano, na semana retrasada, assessores de Trump atuaram para retirar da plataforma da legenda a previsão de entrega de armas à Ucrânia para o país se defender da Rússia e de grupos rebeldes patrocinados por Moscou.

David Rothkopf, editor-chefe da revista Foreign Policy, disse ao Estado que as posições de Trump representam um “distanciamento gigantesco” em relação a visões historicamente defendidas por líderes de ambos os partidos. “Essa é a posição mais favorável à Rússia por parte de autoridades americanas na história moderna dos EUA.”

O chefe da campanha de Trump, Paul Manafort, foi consultor de Viktor Yanukovich, o ex-presidente da Ucrânia deposto por um levante popular em fevereiro de 2014, depois de ter aprovado acordos que estreitavam os laços do país com Moscou em detrimento de aliados europeus.

Logo depois de sua queda, tropas russas invadiram a Ucrânia e, em menos de um mês, anexaram a Crimeia. A Organização das Nações Unidas (ONU) considerou o ato uma violação da soberania e da integridade territorial da Ucrânia e os EUA e a União Europeia impuseram sanções contra a Rússia.

Em entrevista à rede ABC, no domingo, Trump usou o mesmo argumento adotado por Putin para justificar a anexação da Crimeia: o de que a população local queria estar sob comando da Rússia. O candidato também afirmou que Putin não invadiria a Ucrânia.

“Só para você entender, ele não vai entrar na Ucrânia.” Quando o entrevistador lembrou que tropas russas já estão no país, Trump respondeu: “Bem, ele (Putin) está lá de certa maneira, mas eu não estou lá ainda”.

Ajuda russa. Na semana passada, dirigentes do Partido Democrata responsabilizaram a Rússia pelo ciberataque que levou ao vazamento de quase 20 mil e-mails de seu comitê de campanha. Algumas das mensagens mostravam que integrantes do comitê atuaram em favor da candidatura de Hillary Clinton em detrimento da de Bernie Sanders. Divulgadas pelo site WikiLeaks na véspera da abertura da convenção da legenda, as mensagens abalaram a imagem de unidade que os democratas pretendiam projetar.

Assessores de Hillary afirmaram que o objetivo do vazamento era beneficiar Trump, em razão de suas posições simpáticas a Moscou. Uma empresa contratada pelo Partido Democrata concluiu que os ataques partiram de dois grupos de hackers associados ao serviço de inteligência russo.

Há uma semana, o FBI anunciou que investigará o assunto. Em outra ação sem precedentes na política americana, Trump pediu à Rússia que espione sua adversária e divulgue e-mails do período em que ela foi secretária de Estado.

Os democratas criticaram a ação. O ex-secretário de Defesa e diretor da CIA, Leon Panetta, disse que as declarações eram inadmissíveis. “Nenhum candidato que está concorrendo para ser presidente do EUA deveria pedir a um país estrangeiro, especialmente a Rússia, que se envolva em invasão digital ou esforços de inteligência para tentar determinar o que o candidato democrata está ou não fazendo”, disse.

Donald Trump Jr., filho mais velho do candidato republicano, disse em 2008 que o dinheiro russo estava “jorrando” nos negócios da família. “A Rússia representa uma parcela desproporcional em muitos de nossos ativos”, declarou ele durante uma conferência em Nova York.

Em 2013, Trump fechou um contrato de US$ 14 milhões para realizar o concurso de Miss Universo em Moscou. Apesar de não ter participado do evento, o presidente russo parece não ter ignorado a presença do magnata americano.

“Putin até me mandou um presente, um belo presente, com uma bela nota e eu falei com todas as pessoas ligadas a ele”, afirmou o bilionário americano em entrevista no ano seguinte.

Negócios. Quando voltou da Rússia, em 2013, depois do concurso de Miss Universo, Trump disse à publicação Real Estate Weekly que o evento tinha contado com a presença de “quase todos os oligarcas” – expressão normalmente usada para se referir a empresários próximos do Kremlin. “O mercado russo é atraente para mim”, declarou o bilionário.