Trump força recuo republicano em novo Congresso e amplia crise interna

Trump força recuo republicano em novo Congresso e amplia crise interna

Presidente eleito critica plano para neutralizar o Escritório de Ética Parlamentar do Congresso e diz que políticos têm coisas mais importantes para aprovar, como a reforma da saúde; equipe de transição sonda ativos disponíveis para construir muro

Redação Internacional

03 Janeiro 2017 | 19h46

WASHINGTON – No dia da posse do novo Legislativo americano, o presidente eleito Donald Trump entrou em choque com a base do próprio partido e forçou os deputados republicanos a um recuo. Os parlamentares desistiram nesta terça-feira, 3, de um plano para reduzir os poderes de um órgão de ética da Câmara, após pressão do magnata. O futuro líder da Casa Branca demonstrou irritação com as “prioridades erradas” adotadas pelo Congresso.

FILE-- President-elect Donald Trump speaks at the Mar-a-Lago resort in Palm Beach, Fla., Dec. 28, 2016. Trump criticized House Republicans on Jan. 3 for their surprise move to gut an independent congressional ethics office on the eve of a new legislative session, saying they should focus instead on domestic policy priorities such as health care and a tax overhaul. (Kevin Hagen/The New York Times)

Foto: Kevin Hagen/The New York Times

Em um dia normalmente reservado para pompas e cerimônias no Capitólio, os deputados republicanos se viram sob ataque não só dos democratas, mas do seu novo presidente, após se reunirem secretamente na noite anterior com um plano para neutralizar o Escritório de Ética Parlamentar (OCE, na sigla em inglês) do Congresso.

“Com todo o trabalho que tem o Congresso, eles realmente têm de fazer do enfraquecimento do Escritório de Ética, por mais injusto que seja, seu ato número um e prioridade? Concentrem-se na reforma tributária, na saúde e em tantas outras coisas de maior importância!”, escreveu Trump.

O magnata finalizou seus tuítes com as sigla “DTS”, abreviatura de “Drain the Swamp” (“Drenar o pântano”), seu slogan de campanha contra a corrupção, em referência ao mundo da política na capital.

Líderes republicanos correram para conter o dano após Trump criticar duramente, pelo Twitter, o movimento. Algumas horas depois, os parlamentares convocaram uma reunião de emergência na Câmara e, em seguida, deputados votaram para desfazer as mudanças.

O episódio foi um poderoso sinal da influência que Trump poderá exercer sobre seu partido em Washington, que estará totalmente sob controle republicano pela primeira vez em uma década.

A emenda, proposta pelo legislador Bob Goodlatte e adotada pelos republicanos na reunião da segunda-feira, colocava o OCE, agora independente, sob a jurisdição da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Desse modo, o papel de vigilância ética e investigação ficaria sob poder dos próprios legisladores, por meio da Comissão, acusada no passado de ignorar alegações críveis de atos ilícitos contra congressistas.

Em comunicado, a ex-presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, denunciou que a votação a favor de debilitar o poder do OCE indicava que “a ética era a primeira vítima do novo Congresso republicano”.

Líderes republicanos pretendem utilizar as maiorias na Câmara e no Senado para fazer avançar rapidamente uma ambiciosa agenda conservadora, ao mesmo tempo que Trump se prepara para assumir, no dia 20. Os recentes sinais de discórdia entre eles ameaçam desacelerar a marcha em Washington.

Republicanos estão sob intensa pressão para se unificar em seus objetivos comuns na era Trump, após serem criticados por anos por suas lutas internas no Congresso e nas campanhas eleitorais.

Muro. Em outro sinal de que o republicano está determinado a reverter as políticas do presidente Barack Obama, a agência Reuters revelou ontem que a equipe de transição de Trump fez um amplo pedido de documentos e análises ao Departamento de Segurança Interna sobre todos os ativos disponíveis para a construção de muros e barreiras de fronteira.

A equipe também perguntou, no mês passado, sobre a capacidade do departamento de expandir um plano de detenção de imigrantes e sobre um programa de vigilância aérea que foi reduzido sob o governo de Obama, mas permanece popular entre os que defendem mais controle sobre a imigração. / W. POST, NYT, AP, EFE e REUTERS

 

PARA ENTENDER. O Escritório de Ética Parlamentar (OCE) estabeleceu-se como uma entidade bipartidária independente no Congresso em 2008, sob a liderança da então presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, após vários escândalos de corrupção. Ele é composto por quatro republicanos e quatro democratas não eleitos para o Congresso e desvinculados do governo. Segundo a reforma bloqueada por pressão de Donald Trump, o OCE ficaria subordinado à Comissão de Ética da Câmara e seus documentos não poderiam mais ser tornados públicos. Apesar de ter poderes limitados, o escritório independente é considerado um canal de prestação de contas.

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