Trump pede ‘ajuda’ da Rússia para encontrar e-mails deletados de Hillary

Em resposta, a campanha democrata disse que esta é a primeira vez que um candidato à presidência dos EUA pede a uma potência estrangeira que espione seu adversário político

Redação Internacional

27 Julho 2016 | 18h39

Cláudia Trevisan
Enviada Especial / Filadélfia, EUA

O republicano Donald Trump disse nesta quarta-feira, 27,  esperar que a Rússia invada o servidor privado de internet de sua adversária, Hillary Clinton, para obter 30 mil mensagens do período em que ela era secretária de Estado. Em resposta, a campanha democrata disse que esta é a primeira vez que um candidato à presidência dos EUA pede a uma potência estrangeira que espione seu adversário político.

Na segunda-feira, o FBI abriu uma investigação sobre o ciberataque contra o comitê nacional da campanha democrata, que levou à divulgação de quase 20 mil e-mails trocados por dirigentes do partido. As mensagens mostraram que alguns deles discutiram maneiras de prejudicar o senador Bernie Sanders na disputa pela candidatura da legenda à Casa Branca.

Provável candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump (AP PHOTO/SETH PERLMAN)

Divulgados pelo Wikileaks na véspera da abertura da convenção democrata, as mensagens enfureceram os seguidores do opositor de Hillary e ameaçaram a imagem de unidade que os democratas esperavam demonstrar no encontro que oficializou a candidatura da ex-secretária de Estado. A convenção de quatro dias foi aberta na segunda-feira.

Empresa contratada pelo comitê democrata para investigar a invasão de seu servidor concluiu no mês passado que os ciberataques foram realizados por dois grupos de hackers ligados a serviços de inteligência da Rússia.

“Essa é a primeira vez que um candidato a presidente encorajou de maneira ativa uma potência externa a conduzir espionagem conta seu oponente político”, disse o principal assessor de política externa de Hillary, Jake Sullivan. “Isso deixou de ser uma questão de curiosidade, uma questão política, para se tornar uma grande questão de segurança nacional.”

Em entrevista coletiva concedida na Flórida, Trump fez um apelo direto a Moscou: “Rússia, se você estiver ouvindo, eu espero que você seja capaz de encontrar os 30 mil e-mails que desapareceram”. A afirmação é uma referência a mensagens que foram deletadas do servidor privado de internet que Hillary usou durante sua gestão no Departamento de Estado, sob o argumento de que eram de natureza pessoal e não tinham relação com sua função.

Trump disse que não exigiria que o presidente russo, Vladimir Putin, deixasse de supostamente interferir nas eleições dos EUA. “Eu não vou dizer a Putin o que ele tem de fazer”, afirmou. Em seguida, disse que seu eventual governo teria um melhor relacionamento com Moscou do que sua adversária. “O presidente Trump seria muito melhor para as relações entre EUA e Rússia”, declarou. “Eu não acho que ele respeite (Hillary) Clinton”, ressaltou, em referência a Putin.

Os democratas acusam a Rússia de interferir na campanha dos EUA para beneficiar Trump. Segundo eles, o candidato republicano tem posições simpáticas a Moscou, evidenciadas em elogios a Putin e na declaração de um governo Trump só defenderia aliados europeus de eventuais agressões russas se os países estivessem em dia com suas contribuições junto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Além disso, o dirigente da campanha de Trump, Paul Manafort, foi consultor do ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych, que vive exilado na Rússia desde que foi derrubado por uma rebelião popular em 2014. Reportagem publicada pelo Washington Post na semana passada afirma que auxiliares de Trump atuaram para evitar que a plataforma do Partido Republicano incluísse a entrega de armas à Ucrânia para que o país se defenda contra a Rússia e grupos rebeldes apoiados por Moscou, contrariando posição da ala tradicional da legenda.

O porta-voz da campanha de Hillary, Brian Fallon, ressaltou que as declarações de Trump devem preocupar os dois partidos que disputam a presidência. “Nós temos de nos unir e dizer que não pode haver nenhuma interferência externa em nossas eleições”, afirmou. “Esse é o mais recente exemplo de que Donald Trump é descuidado, perigoso e inepto para ser presidente.”