Trump provoca indignação ao criticar família de militar muçulmano morto

Redação Internacional

01 Agosto 2016 | 05h00

WASHINGTON – A reação do candidato republicano à presidência americana, Donald Trump, ao discurso durante a convenção democrata na Pensilvânia do pai de um militar muçulmano morto na Guerra do Iraque provocou críticas e indignação dentro e fora de seu partido. O embate entre o candidato e Khirz e Ghazala Khan, os pais do capitão Humayun Khan, tornou-se um inesperado tópico do início da campanha após Trump usar uma retórica agressiva contra a família Khan.

Khirz Khan discursou na quinta-feira, último dia da convenção que definiu Hillary Clinton como a candidata democrata, e lembrou que seu filho, de fé muçulmana, foi morto por um homem-bomba durante a Guerra do Iraque, em 2004. Ele também argumentou contra a proposta de Trump de proibir muçulmanos de entrar nos Estados Unidos para combater o terrorismo, que, em sua visão, é racista e preconceituosa.

Trump respondeu a Khan na noite de sábado em entrevista à rede de TV NBC, quando insinuou que a mãe do capitão morto foi proibida pelo marido de discursar. Ele ainda acusou os “roteiristas de Hillary” de escreverem o discurso. Além disso, relativizou o sacrifício da família muçulmana, que perdeu um filho na guerra, dizendo que ele fez muitos sacrifícios pelo país ao trabalhar e criar empregos.

As declarações do candidato provocaram desconforto dentro do Partido Republicano, críticas de Hillary e a ira da família Khan. Pais de militares mortos em combate são bastante reverenciados nos EUA e é raro eles serem criticados por candidatos presidenciais.

“A mulher dele estava ali de pé e não tinha nada a dizer. Talvez ela tenha sido proibida de dizer algo”, afirmou Trump, ao argumentar que o discurso de Khan era impreciso e partidário, para depois se comparar ao militar morto. “Eu fiz muitos sacrifícios. Eu trabalho muito duro. Criei milhares de empregos e tive muito sucesso.”

A família Khan respondeu ao candidato. “O senhor não sacrificou nada”, disse o pai do capitão morto no Iraque. “Imploro aos americanos patriotas que votariam em Trump: não votem no ódio. Votem na unidade e na bondade deste país.”

Ghazala Khan escreveu ontem um artigo no Washigton Post no qual lembrou ser mãe de um membro da Marinha caído em combate. “Ele é ignorante sobre o Islã e apenas insultou quem professa essa fé”, disse.

Hillary Clinton repudiou as declarações de Trump em evento de campanha em Cleveland, Ohio. “O senhor Khan fez o maior sacrifício, não fez?”, questionou. “E o que ouviu de Trump? Apenas insultos e uma incompreensão tremenda do que fez nosso país grande.”

Entre os republicanos, Trump também foi alvo de críticas pelas declarações sobre a família do militar morto. “Só há uma maneira de falar sobre famílias de militares mortos: com honra e respeito. O capitão Khan é um herói”, disse o senador Lindsey Graham.

O líder republicano no Senado Mitch McConnel também repudiou a fala de Trump e reiterou sua oposição à proposta de banir a entrada de muçulmanos nos EUA. O ex-pré-candidato à presidência John Kasich foi outro republicano que condenou as declarações do magnata.

Ontem, Trump divulgou nota na qual afirmou que o capitão Khan era um herói e sua proposta é combater o terrorismo. Ele voltou, no entanto, a criticar o pai do militar, que teria dito coisas “imprecisas” sobre ele. / WASHINGTON POST, NYT e EFE