Trump tenta tirar campanha da crise e rejeita acusações de assédio sexual

Trump tenta tirar campanha da crise e rejeita acusações de assédio sexual

Republicano chama de ‘ficção’ e ‘mentiras’ os relatos cada vez mais frequentes de mulheres que dizem ter sido agarradas e beijadas por ele contra sua vontade; bilionário ameaça processar ‘New York Times’, que publicou declarações de supostas vítimas

Redação Internacional

14 Outubro 2016 | 05h11

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Donald Trump rechaçou ontem como “ficção” e “mentiras” os relatos de mulheres que dizem ter sido apalpadas, agarradas e beijadas por ele contra sua vontade. O comportamento do candidato em relação ao sexo oposto se transformou no principal tema da disputa eleitoral dos Estados Unidos e mergulhou a campanha do bilionário em uma crise sem precedentes.

O candidato ameaçou processar o jornal The New York Times, que publicou declarações de duas mulheres que sustentam ter sido vítimas de investidas impróprias do bilionário. Ontem, a jornalista da revista People Natasha Stoynoff disse que Trump a empurrou contra uma parede e a beijou contra a sua vontade em dezembro de 2005.

Jessica Leeds, a businesswoman at a paper company who was sitting next to Donald Trump on a flight to New York in the early 1980s, at her home in New York, Oct. 11, 2016. Leeds, who had never met Trump before, said that on the flight he lifted the armrest and began to touch her. (George Etheredge/The New York Times)

Jessica Leeds diz ter sido vítima de Trump. (Foto: (George Etheredge/The New York Times)

A repórter estava trabalhando em um texto sobre o aniversário de um ano do casamento do bilionário com sua terceira mulher, Melania, que estava grávida. Segundo ela, o ataque ocorreu quando Melania deixou a sala para trocar de roupa.

As três mulheres decidiram relatar suas experiências depois de assistir ao debate presidencial de domingo, no qual Trump disse que nunca havia se comportado da maneira que descreve em vídeo divulgado há uma semana. Em diálogo de 2005 com um apresentador de TV, o bilionário se gaba de poder fazer o que quiser com as mulheres por ser famoso.

Jessica Leeds disse ao New York Times que se sentou ao lado de Trump na primeira classe em um voo no início dos anos 80. Cerca de 45 minutos depois da decolagem, ele teria começado a tocá-la, primeiro nos seios e depois sob sua saia. “Ele parecia um polvo”, lembrou Leeds, que afirmou ter corrido para a parte de trás do avião.

Rachel Crooks disse que Trump a beijou sem consentimento, em 2005, quando ambos se encontraram diante do elevador da Trump Tower, em Manhattan. O comportamento é parecido com o descrito pelo bilionário no vídeo. “É como um imã. Eu beijo. Eu nem espero. E quando você é uma estrela, elas deixam. Você pode fazer o que quiser”, afirmou o magnata na gravação.

Ontem, Trump disse que todas as alegações são falsas e fabricadas pela campanha da adversária, Hillary Clinton, com a ajuda da imprensa. Para rejeitar a acusação da jornalista da People, o bilionário insinuou que ela não é atraente o bastante. “Olhem para ela, olhem para suas palavras e me digam o que vocês acham.”

A primeira-dama Michelle Obama fez ontem o mais contundente ataque a Trump desde a divulgação do vídeo em que ele se gaba de poder fazer o que quiser com mulheres. “Isso é cruel, isso é assustador”, afirmou Michelle, mãe de duas filhas adolescentes, em evento da campanha de Hillary.

Com um tom de voz às vezes trêmulo, Michelle rejeitou a justificativa de Trump de que o diálogo era uma “conversa de vestiário” masculino. “Esse era um indivíduo poderoso falando aberta e livremente sobre um comportamento sexual predatório”, afirmou. “Nós temos um candidato a presidente dos Estados Unidos que, ao longo de sua vida e durante essa campanha, disse coisas em relação às mulheres que são tão chocantes, tão humilhantes, que eu simplesmente não vou repetir”, declarou.

Miss. O comportamento do candidato durante os concursos de beleza que promovia também é alvo de acusações. A ex-miss Arizona Tasha Dixon disse que Trump entrava sem ser anunciado nos camarins em que as mulheres se trocavam. “Ele entrava diretamente. Não havia um segundo para colocar um robe ou algum tipo de roupa ou qualquer coisa.  Algumas garotas estavam com os seios de fora. Outras estavam nuas”, disse Tasha à CBS na quarta-feira.

Em entrevista concedida em 2005, Trump se gabou do poder que tinha de entrar nos camarins por ser o organizador dos eventos. “Você sabe que elas estão lá sem roupas. Está todo mundo ok? E você vê essas mulheres incrivelmente bonitas. E eu consigo fazer coisas como essa.”