Europa e Otan reagem a ataques de Trump

Líderes europeus temem abalo nas relações, mas mostram firmeza depois de magnata elogiar Brexit e prever novas deserções de bloco

Redação Internacional

16 Janeiro 2017 | 13h26

Jamil Chade
Correspondente/Genebra

(Atualizada às 19h55) A União Europeia (UE) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) rebateram nesta segunda-feira, 16, as duras críticas do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que qualificou a aliança atlântica de obsoleta e previu saída de novos países do bloco após o Brexit.

Líderes europeus temem um abalo em sua aliança estratégica com os EUA e criticaram Trump por seus comentários sobre a UE e suas ameaças a empresas alemãs.

Trump acena a simpatizantes na Trump Tower, em Nova York. (Foto: AFP / Bryan R. Smith)

Trump acena a simpatizantes na Trump Tower, em Nova York. (Foto: AFP / Bryan R. Smith)

Na França, o presidente François Hollande afirmou que a Europa “não precisava de conselhos externos”. “A melhor resposta à entrevista do presidente americano é a unidade dos europeus”, disse o chanceler francês, Jean-Marc Ayrault.

“As declarações do presidente eleito Trump, que considera a Otan obsoleta, foram recebidas com preocupação”, acrescentou o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier.

Em entrevistas publicadas no domingo na revista britânica Time e no jornal alemão Bild, Trump disse que a Otan era obsoleta e a saída do Reino Unido da UE era “um grande negócio”. Ele insinuou que outros países também devem sair do bloco, criticou Angela Merkel por aceitar refugiados e indicou que pretende fechar um acordo com a Rússia sobre a situação na Ucrânia.

Trump também indicou que pode adotar maiores restrições para europeus que queiram viajar aos EUA e prometeu um acordo comercial com o Reino Unido, algo inviável, segundo os europeus, enquanto Londres ainda permanecer no bloco.

Trump também ameaçou impor uma tarifa de 35% sobre montadoras alemãs, como a BMW, se as empresas não passassem a produzir seus veículos nos EUA. O ministro alemão da Economia, Sigmar Gabriel, rebateu: “A maior fábrica da BMW está nos EUA”. Para o ministro, basta que “as empresas americanas construam carros melhores” para que sejam também comprados na Europa.

A BMW investiu em uma fábrica no México para poder exportar a preços mais baixos para os EUA. A produção começará em 2019 e, num comunicado, a empresa garantiu ontem que não mudará seus planos. Movimentos similares já tinham sido feitos por Volkswagen e Daimler AG.

 

Em novembro, Merkel havia convidado o americano a montar uma agenda bilateral com base em “democracia, liberdade e estado de direito”. Ontem, deixou claro que não vai se intimidar. “Nós, europeus, temos nosso destino em nossas mãos. Ele (Trump) apresentou suas posições e as minhas são conhecidas”, disse.

Em entrevista à CNN, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, considerou os comentários de Trump “inadequados”.

Cúpula. As declarações do americano dominaram a agenda da reunião de ministros das Relações Exteriores da UE, em Bruxelas hoje. Diplomatas revelaram ao Estado que o clima era de “estupefação”. “As declarações foram recebidas por um sentimento de alerta”, disse Steinmeier, chefe da diplomacia alemã e provável próximo presidente do país.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, no entanto, recebeu bem as declarações de Trump. “A Otan é realmente obsoleta”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

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