Vitória de magnata inspira extrema direita europeia

Vitória de magnata inspira extrema direita europeia

Líderes nacionalistas e ultraconservadores analisam caso de Trump para replicar seu sucesso nas eleições de 2017

Redação Internacional

13 de novembro de 2016 | 05h00

Jamil Chade
Correspondente / Genebra

Na cidade francesa de Béziers, o prefeito Robert Ménard propôs uma lei impedindo a abertura de novas lanchonetes de comida árabe ou turca. Em 2015, ele mudou o nome da avenida central da cidade para Helie Denoix de Saint Marc – militar que tentou dar um golpe contra De Gaulle, em 1961, para evitar que Paris aceitasse a independência da Argélia. Ménard, que sempre foi de esquerda, é hoje prefeito pela Frente Nacional (FN), de extrema direita. Suas políticas não têm qualquer impacto real na vida dos cidadãos, mas muitos aplaudem como uma reação na defesa dos “valores locais”.

Nostalgia, medo do terrorismo e da imigração, desemprego e rejeição à elite política. Se esses foram os ingredientes usados por Donald Trump para vencer as eleições nos EUA, partidos de extrema direita passam a estudar com cuidado o que garantiu a vitória de um outsider em Washington para, na Europa, repetir o mesmo fenômeno.

French far-right leader and National Front Party, Marine Le Pen, addresses the media during a news conference, Monday, Dec. 7, 2015, in Lille, northern France. France's far-right National Front ran strongly in a first-round regional vote that was the first election since an attack by Islamic extremists left 130 dead in Paris. The National Front was leading in six of the 13 regions, including two where it was strongly ahead. (AP Photo/Michel Spingler)

Foto: Michel Spingler/AP

Nos partidos, consultores admitiram ao Estado que buscam também atrair europeus que há anos já não votam, desiludidos com a classe dirigente: o que ironicamente já chamam de a “maioria silenciosa”. Taxas de participação nas eleições apontam que uma proporção significativa não vota. A taxa, segundo o Pew Research Center, é maior que os votos recebidos pelo partido vencedor. Na Áustria e na Itália, um terço da população não vota. Na Grécia, 38%. Em Portugal, em 2015, apenas 55% dos eleitores foram às urnas. Na Espanha, 40% não participaram da escolha. Em 2015, apenas 38% dos suíços votaram.

Os motivos para o imobilismo são complexos. A crise de 2008 ainda não cicatrizou e criou uma década perdida para uma geração inteira. A França aprofundou sua desindustrialização, a Itália não cresce há oito anos, a Espanha não consegue formar governo estável e, pela Europa, o estado de bem-estar social foi desmontado. Somado a esse cenário, a chegada de milhões de refugiados e os ataques terroristas – mesmo que não haja ligação entre os dois fenômenos – criaram um clima de mal-estar na Europa.

Em 2017, eleições ocorrerão na Alemanha, na França e na Holanda. Também é possível uma queda do governo italiano. Não é por acaso que esses partidos querem aproveitar a angústia dos eleitores. Seus líderes questionam o establishment e deixaram claro que a mensagem dos EUA é que o povo está cansado de “velhos políticos”.

“Hoje, os EUA. Amanhã, a França”, declarou o fundador da FN, o francês Jean-Marie Le Pen. “Parabéns ao novo presidente dos EUA e ao povo americano, que é livre”, insistiu sua filha e presidente do partido, Marine Le Pen. Além de sair em busca dos silenciosos, sua estratégia foi a de abandonar qualquer sinal de relação com ideias neonazistas e concentrar seu discurso na identidade nacional e recuperação econômica. Para atrair a esquerda, o partido passou a adotar uma posição de defesa do estado do bem-estar social e insiste na volta do franco francês como moeda.

Quem também aposta nesse eleitorado saudosista é o holandês Geert Wilders. “O povo está recuperando seu país”, disse ele após a vitória de Trump. Wilders é um dos favoritos para governar a Holanda no ano que vem. Sua proposta prevê fechar todas as mesquitas do país, as escolas muçulmanas e os centros para refugiados. As fronteiras seriam bloqueadas para todos os imigrantes de países muçulmanos, mulheres seriam proibidas de usar a burca e o Alcorão, banido.

Para Beatrix von Storch, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), o resultado nos EUA é “histórico”. Os alemães de extrema direita estimam que tabus foram quebrados. “Apenas as elites estão surpresas”, disse. Em menos de um ano, os alemães vão às urnas diante de um AfD cada vez mais forte. Angela Merkel deve concorrer a um quarto mandato, mas, pela primeira vez, a extrema direita pode entrar no Parlamento.

A vitória de Trump também obrigou partidos tradicionais a rever sua estratégia, admitir fracassos e reconhecer que o risco de governos populistas. “Todas as possibilidades estão abertas”, admitiu Dominique de Villepin, ex-premiê francês. “A hipocrisia dos partidos tradicionais de que governam para o povo precisa acabar.”

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