Voto latino deve decidir a eleição em Nevada

Voto latino deve decidir a eleição em Nevada

Hispânicos, porém, lamentam pouco avanço em tema migratório no governo de Obama

Redação Internacional

23 de outubro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan,
Enviada Especial / Las Vegas, EUA

LAS VEGAS, EUA – José Manuel Escobedo passou seu aniversário de 18 anos em uma plantação de abacates da Califórnia fugindo da “miga”, a polícia migratória dos EUA que é o terror dos mexicanos que cruzam a fronteira de maneira ilegal. Cidadão americano há 15 anos, Escobedo disse que se sente pisoteado pela retórica xenófoba que impulsiona a candidatura do republicano Donald Trump à Casa Branca.

Dentro de 16 dias, ele dará seu voto a Hillary Clinton, mas sua escolha está longe de ser entusiasmada. “Muitos latinos estão votando um pouco tristes nessa eleição”, afirmou Escobedo, que lamenta a falta de avanços na reforma migratória nos oito anos da presidência de Barack Obama.

José Manuel Escobedo, que chegou como clandestino, vive em Las Vegas e se diz eleitor de Hillary Clinton (FOTO: Cláudia Trevisan/Estadão)

José Manuel Escobedo, que chegou como clandestino, vive em Las Vegas e se diz eleitor de Hillary Clinton (FOTO: Cláudia Trevisan/Estadão)

Também há o gosto amargo do recorde de deportações registrado no atual governo, que adotou uma linha dura em relação a ilegais em uma tentativa fracassada de convencer os republicanos a apoiar a proposta que abria caminho para que 11 milhões de pessoas que vivem de maneira irregular nos EUA saíssem das sombras. “Estamos esperando há oito anos e essa é a última oportunidade que daremos aos democratas”, afirmou Escobedo, que tem um negócio de distribuição de tortilhas em Las Vegas, onde vive há 33 anos.
Os hispânicos representam 28% da população de Nevada, o quinto maior porcentual entre os Estados americanos, e serão cruciais para a definição da eleição presidencial do dia 8.

Alguns dos compatriotas de Escobedo já desembarcaram do barco de Hillary e estão decididos a tentar algo novo e radical com Trump, que lançou sua candidatura há 16 meses com a promessa de construir um muro na fronteira com o México e deportar os milhões de ilegais que vivem nos EUA.

“Estou cansado de ver os democratas prometerem coisas que não cumprem. O Trump fala de maneira aberta”, disse o mecânico Mario Garcia, de 55 anos. “Ele tem experiência econômica e quer ajudar muita gente”, concordou sua mulher Ana Garcia, de 58 anos.

Nascidos no México, ambos chegaram aos EUA quando eram adolescentes e dizem não ver a retórica de Trump como um ataque aos imigrantes. “Não é justo que alguém que esteja aqui há três dias tenha os mesmos direitos de quem chegou há 15 anos”, disse Ana, que é cidadã americana. “Nós trabalhamos duro para construir nossas vidas aqui e nunca pedimos dinheiro ao governo”, afirmou.

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Sua posição ecoa o discurso Trump, para quem os EUA devem gastar recursos com seus cidadãos, não com imigrantes que vivem no país de maneira irregular.

O porcentual de latinos no eleitorado de Nevada cresceu de maneira constante nas últimas três disputas presidenciais: era de 10% em 2004, subiu para 15% quatro anos mais tarde e chegou a 18% em 2012. Mas o índice ainda é inferior à sua participação de 28% no total da população.

O voto nos EUA não é obrigatório e o grau de participação de cada grupo demográfico acaba definindo o resultado das eleições. O desafio dos democratas é convencer os hispânicos a ir às urnas para reduzir o impacto do voto branco, que tende para o Partido Republicano.

“Ainda temos um universo de eleitores divorciado da crescente diversidade de Nevada. Os eleitores são um pouco mais velhos, mais brancos e mais conservadores do que a população do Estado como um todo”, observou David Damore, professor de Ciência Política da Universidade de Nevada em Las Vegas.

Pesquisas recentes dão retratos distintos sobre a preferência dos latinos de Nevada. Levantamento da CNN/ORC divulgado na semana passada dava 33% das intenções de voto desse grupo a Trump, enquanto Hillary recebia 54%. Em 2012, Obama conquistou 70% do voto latino de Nevada. Em outro levantamento, da Latino Decisions, o republicano registrava apenas 17%.

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“Hillary tem de ficar esperta, porque Trump tem lábia”, disse Barbino Sura, que votou em candidatos republicanos nas duas últimas eleições presidenciais. “Temos oito anos de governo democrata e as pessoas não viram nada. Muitos querem experimentar algo novo”, afirmou Sura, que também nasceu no México. “Ainda não sei em quem votarei. Vou decidir no dia da eleição.”

Além da frustração com a gestão Obama, o esforço de mobilização dos democratas sofre com a elevada rejeição de Hillary – 53% do eleitorado a vê de maneira negativa. Mas Trump tem uma imagem ainda pior (61%) e uma retórica que pode funcionar como um catalisador dos latinos. No debate presidencial de quarta-feira, o candidato republicano fez sua primeira incursão no espanhol da campanha e prometeu deportar os “bad hombres” (homens maus) dos EUA. A declaração reforçou a associação que Trump costuma fazer entre imigrantes e criminalidade, que não é sustentada pelas estatísticas. Estudo do Pew Research Group de 2013 mostrou que o índice de criminalidade de imigrantes de primeira geração é menor que o de pessoas que nasceram nos EUA. Os números tendem a convergir a partir da segunda geração.

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