1 ano depois do “Yes, we can” de Angela Merkel em coletiva de imprensa

Fátima Lacerda

31 Agosto 2016 | 11h39

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Os berlinenses gozam de uma fama que chega até o finalzinho da República, bem abaixo da linha do Rio Mainz e até mesmo num terreno bem estranho chamado Baviera. “Berliner Schnauze” (o focinho berlinense) descreve a característica dos berlinenses (dos nascidos e imigrados) em reclamar de tudo: do frio, do calor excessivo, do atraso dos trens da ferrovia, disso e daquilo e daquilo outro também).

No dia 31 de agosto de 2015, no inicio da tarde, a temperatura em Berlim acima dos 30 gruas. Logo nesse dia, a chanceler marcou uma coletiva que, na realidade, era para ter sido antes do inicio das ferias parlamentares, mas foi adiada. Mas como a dinâmica da politica e, com todo o trocadilho e ironia, parecido com uma roleta russa, a coletiva que entraria para a história, estava predestinada para acontecer naquela tarde de um calor senegalês na capital.

Ela, a coletiva, tambem marcaria uma total mudança de paradigma no discurso merkeliano. Ela, a chanceler nascida no ocidente, crescida e socializada na parte oriental da Alemanha dividida, mais precisamente na cidade de Templin em Brandemburgo, cidade vizinha de Berlim. Antes daquele encontro com a menina da Palestina num programa de TV e antes da frase memorável, ela era denominada pela imprensa amarela de “Fria como gelo’” “Merkel, eiskalt‘” em alemão) e que percebia a politica como uma atividade diária de “empresariado de crises’”, sejam elas iminente a falência da Grécia, a mala sem alça do Horst Seehofer, o Ministro-Presidente do Estado Livre da Baviera. A sabotagem semanal que Seehofer faz contra Merkel não chega ao extremo da facada mortal nas costas que atual o presidente interino e chefe do PMDB deu na presidente afastada, mas há sim, paralelos. A diferença entre os dois casos de “manutenção do poder”, com ou sem muitos equívocos percepções errôneas, é que Merkel tem ao seu redor aliados muito competentes e que são totalmente fiel a ela, imbuídos na missão número 1: mantê-la no poder. Sem barracos. Sem escândalos. Do tipo como prescreve um ditado em alemão: “Entre eles (Merkel e assessores), não passa nem uma folha de papel”. E ai de quem ousar sair fora da linha! Merkel pode perdoar, mas esquecer. Nunca!

Ao contrário da presidente afastada que se “bronzeou” no poder eenquanto era dona da faixa presidencial, não pensou e muito menos agiu estrategicamente, para a equipe de Merkel, mantê-la no poder é uma tarefa constante: uma permanente Força Tarefa.

Mudança de paradigma

Naquela coletiva, com um terno em cor de laranja, Merkel chegava com a habitual postura de quem e a manda-chuva do país e, como sempre, excelentemente bem preparada para conversar com a imprensa mundial que ali aguardava.

A crise da Grécia e os pacotes financeiros amarrados para possibilitar o país se manter na zona do Euro tinham exigido que os parlamentares interrompessem suas férias para votar no parlamento. Na época o Varoufakis, Ministro das Finanças da Grécia, um metido a Robin Hood, mas com triple com vista para a Acropolos era a principal inspiração de programas de sátira politica.

Não passaram 3 semanas, a “crise dos refugiados” estourou. Digo, o resultado de décadas de vista grossa da própria Merkel e de seu partido, o CDU, de que a Alemanha, há décadas, é um país de imigração, juntamente com a política de vista-grossa da UE, mesmo depois de vários dramáticos casos de refugiados em Lampedusa, ligar que se tornou o símbolo do fracasso de uma politica de imigração digna.

Yes, we can (Wir schaffen das!)

Essa foi a palavra-chave que os refugiados presos na Hungria e impedidos de deixar o país, precisavam ouvir. Merkel liberou a entrada de refugiados que vinham da Hungria, passando pela Áustria. O conteúdo da coletiva de imprensa chegou no Afeganistão e refugiados, com o aval de responsa, começaram a sua odisseia pelo continente, alguns deles, com o retrato da chanceler no pescoço para ratificar a legitimidade.

Na sequência …

O eco resultante das matérias depois da coletiva colocou o país num clima de euforia de solidariedade. Carros iam buscas os refugiados e levá-los aos abrigos. Sven, um motorista de ônibus da região de Franken, sul do país, ganhou fama mundial por raspar todo o seu inglês da panela e saudar os refugiados com a frase: “Bem-vindos a Alemanha. Eu estou muito feliz que vocês estão no meu país”. O Blog noticiou – com entrevista exclusiva – na época.

O ato de grande simbologia rendeu a Sven um convite diretamente do presidente com tudo pago para a anual “Festa dos Cidadãos que acontece no mês de setembro” no Palácio da Presidência da República, o Bellevue, em Berlim.

Rara euforia

Os alemães, e ainda muito menos os berlinenses, não tem nada de eufóricos (exceto durante a Copa de 2006, mas o motivo para isso, foi bem outro). Entretanto, a onda de solidariedade surpreendia o país e angariava Fr. Dr. Merkel (assim eu a chamo, para o irritação de meu colega Martin da TV polonesa TVC) percentuais galáticos de popularidade.

O dia depois

Começaram a aparecer os problemas de infraestrutura e de falta de preparacao das cidades e dos bairros. Berlim, como sempre, foi uma cidades tirou a pior nota no quesito de administrar os refugiados que, diariamente, na cidade. Durante muitas semanas, refugiados não tinham como se lavar, ficavam horas na fila da repartiçao responsável pelo registro; a famigerada LaGeSo, repartição para assuntos sociais e de saúde.

Nesse antro de incompetência, o menino Mohamed (4) foi sequestrado dia 01 de outubro, em plena luz do dia, por um doente mental e perverso pedófilo que deu o fim mais terrível possível aquele que, 4 semanas antes, havia fugido da Bósnia com sua família.

O Reveillon em Colônia

A festa de fim de ano na cidade à beira do Rio Reno e ao redor da Basilica de Colónia” teve inúmeros casos de abuso sexual, estupro e assédio sexual. Houve pânico.

Antes mesmo do fim das investigações policiais, os populistas de direita associavam o ocorrido com a “massa de jovens homens com grande potencial de testoterona” que chegaram “sozinhos no país” insinua do “imigração incontrolada”.

Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla), os populistas, xenofóbicos de plantão e que tem entre seus membros um “corredor” que atua fora dos âmbitos constitucionais e que não pensa duas vezes em se organizar em grupos no Facebook para fazer “guarda” em frente à abrigo de refugiados e que colocam em questão direito ao asilo para aqueles perseguidos politicamente, direito esse fincado na Constituição.

A casa começou a cair

O percentual de popularidade da chanceler comecou a cair. A número 1, invicta da lista de políticos mais populares na tabela semanalmente divulgada pela rede pública ZDF em seu programa “Politbarometer” (Barômetro político”) caira para a terceira posição. Membros do partido de Merkel já começavam a caça para o seu sucessor. O vice-chanceler, o social-democrata Sigmar Gabriel, que por ser gordo e mudar sua opinião como muda de camisa está na lista dos políticos mais odiados e zoados do país, já vislumbrava seu sonho de desbancar Merkel. Não demorou muito tempo para que fosse, de novo, constatado, que para a “Chanceler do Mundo”, tendo sido eleita várias vezes “A Mulher mais poderosa do mundo” pela “Time” não há alternativa. Nem ontem. Nem hoje. Simples assim. Pelo contrário. Merkel já entrou para os anais da história da República com a entrevista em 31 de agosto de 2015, como também está prestes a quebrar o recorde antes detido por seu mentor, Helmut Kohl que governou a Alemanha entre 1982 e 1998, quando perdeu eleições para o socialdemlcrata, excêntrico e amigão de Putin, Gerhard Schröder.

Merkel já completou 11 anos no poder e não deixa dúvidas que irá se candidatar para as eleições de setembro de 2017 que constituirão o novo parlamento, a câmara baixa, o Bundestag. Entretanto, para garantir o suporte eleitoral, ela tem uma carta na manga que está sendo delineada por esses dias. Mais detalhes, em breve.

A chegada

1 milhão de refugiados vindos de culturas e religiões diferentes, muitos deles traumatizados não poderiam deixar de mudar a Alemanha e de ser um imenso desafio em todos os setores da sociedade.

As dificuldades de adaptação dos dois lados, são muitas e de âmbito complexo. O perigo da formação de um número ainda maior de sociedades paralelas é iminente , mas também existem chances e essa talvez seja a maior com a qual a Alemanha se viu confrontada no pós-globalizado.

A sociedade hermética terá que abrir caminhos, novas possibilidade e também se rever como tal. Mas, não há motivo para desespero da perda da pátria, discurso usado pelos populistas chorões.

Como declarou a chanceler nesses dias de aniversário de um ano de sua mais polêmica declaração: Eu fiz isso com a “mais profunda convicção”, declara a chanceler, ao mesmo tempo que se exercita em tom auto-crítico: “Nós também da Alemanha ignoramos tempo demais a necessidade de uma solução européia” e acrescenta: “Já em 2004 e 2005 chegaram muitos refugiados. Nós deixamos esse problema na responsabilidade da Espanha e outros estados com suas fronteiras externas”. Mais uma vez se mostrando preparada e, ao contrário da presidenta afastada, percebendo o Zeitgeist político, Merkel ainda ousou: “Na época, nós mesmos nos pronunciamos contra distribuição proporcional dos refugiados”.

Não é preciso ser adepto da política merkeliana, que tirando o aspecto sagrado que ela concede às Relações Transatlânticas, é de cunho cada vez mais pragmático e menos ideológico, para admirar a capacidade analítica brilhante de uma mulher que de uma trajetória absolutamente impressionante. “Armada” de uma teimosia imbatível para se tornar a primeira mulher e a primeira do leste a ser a Chefe do Estado alemão e isso, num partido, o CDU que mostra incontáveis semelhanças respectiva ente com o PMDB e com o partido Verde no Brasil: um intragável, obsoleto e um clube do bolinha morno dos quais membros são, mais ou menos claramente a favor das mulheres “lindas, recatadas e do lar” e que lugar de mulheres fica bem longe de cargos de confiança na política.

O andar da carruagem

Um ano depois da declaração que resultaria muito mais do que uma relevante mudança demográfica no país, Merkel continua imbatível, mesmo sabendo que agora precisa dar espaco a auto-crítica.

Eleições regionais

Em setembro, os alemães serão convocados para eleições regionais, tanto na cidade-estado, Berlim. como também na região de Mecklemburgo na Pomerânia do Norte, lá onde Merkel não “só” tem sua casa de veraneio, mas também a sua zona eleitoral. Não “somente” isso será motivo para um olhar especial para as eleições na região no leste do pais, mas porque seu resultado pode uma mudança de peso político na câmara alta, o Bundesrat, principalmente no que concerne ao partido populista Alternativa para a Alemanha.

Em entrevista concedia ao jornal Süddeutsche Zeitung, Merkel tentou tranquilizar: “A Alemanha continuara da mesma forma com suas características intrínsecas, mas desde sua fundação, o Estado Alemão sempre sofreu modificações. Elas são necessárias. Fazem parte da vida”.