26 anos depois: Alemanha ainda permanece dividida e o “Planeta Angela Merkel”

Fátima Lacerda

03 de outubro de 2016 | 14h33

Sachsens Ministerpräsident Stanislaw Tillich (CDU, l-r) steht am 03.10.2016 in seiner Eigenschaft als Bundesratspräsident auf dem Neumarkt in Dresden (Sachsen) neben Bundeskanzlerin Angela Merkel (CDU), Bundespräsident Joachim Gauck, Bundestagspräsident Norbert Lammert (CDU) und Andreas Voßkuhle, Präsident des Bundesverfassungsgerichts. Der Besuch der Verfassungsorgane in der sächsischen Landeshauptstadt bildet zugleich den Abschluss der Feierlichkeiten zum Tag der Deutschen Einheit. Foto: Sebastian Kahnert/dpa +++(c) dpa - Bildfunk+++©DPA

Em recente debate na corrida pelo cargo de prefeito da capital carioca, o candidato do PMDB foi perguntado por Marcelo Freixo (PSOL) sobre suas medidas para a saúde pública. A resposta pareceu a Freixo tão fantasiosa, que na tréplica, ele mandou: “Acabamos de ouvir história do “Planeta Pedro Paulo“. Exatamente esse sentimento, de história da carochinha, do mundo fantasioso que me acometeu quando acompanhei a declaração de Angela Merkel para a imprensa nesta segunda-feira (03) de feriado, quando se completam 26 anos da Unificação dos 2 Estados Alemães.

Em meu Walking matinal, passei pelo Rio Spree, o rio que atravessa o centro de Berlim e, para meu regojizo, constatei um verdadeiro engarrafamento aquático com barcas lotadas para turistas e berlinenses querendo usufruir o máximo do, provavelmente, último dia do sol do final do verão que já se estendeu por muito mais tempo do que o normal para essa região. Em Berlim, o dia foi, inusitadamente, apolítico. Curtiu-se o feriadão de segunda-feira, mesmo porque, a maioria eram de outras cidades alemães.

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O tiro no pé

Todos os anos, o governo alemão escolhe uma cidade entre as 16 regiões administrativas (Länder, em alemão) para o ato solene de comemoração. Neste ano, a cidade escolhida foi Dresden, no leste do país e berço do movimento PEGIDA, formado por autodenominados defensores da Europa contra o islamismo. Em nenhum lugar da Alemanha, o ódio e a convulsão social política é tao grande como na região da Saxônia, da qual Dresden é a capital. O movimento PEGIDA, que tem a fachada de “cidadãos preocupados”, mas que, de fato, são racistas, homofóbicos, muitos deles com ficha na política, se alastrou para outros cantos do país, mas em nenhum deles é tão forte como em Dresden.

Uma pergunta que não quer calar

Por que cargas d’água o governo de Merkel escolheu o lugar que é a maior prova de que a unificação dos dois estados, mesmo depois de 26 anos, está longe de ser concluída. Em nenhum lugar a política se mostra mais incompetente e isenta de vontade em combater a ideologia marrom que vai muito mais do que “somente” as passeatas de segundas-feiras, mas provas concretas como, por exemplo, no ataque que durou 2 dias na cidade de Heidenau, em agosto de 2015. Lá, os justiceiros, radicais de direita, fizeram a polícia capitular. Ao vivo e em cores, humilharam o Estado de Direto e violaram o artigo número 1 da Constituição, o bem maior do Estado Alemão: “A dignidade do ser humano é inviolável“.

Seguindo fiel à sua vista grossa no que acontece no país, Merkel decidiu mostrar para o mundo as imagens da Ópera de Dresden (Semper Oper) e da Igreja Frauenkirche (nome em homenagem a todas as mulheres santas) que foi quase totalmente destruída na II Guerra Mundial em fevereiro de 1945 por bombardeios da Royal Air Force britânica.

Die Frau von Sachsens Ministerpräsident, Veronika Tillich (l-r), Stanislaw Tillich (l-r), Bundeskanzlerin Angela Merkel (beide CDU), Bundespräsident Joachim Gauck und seine Lebensgefährtin Daniela Schadt, Bundestagspräsident Norbert Lammert (CDU), seine Frau Gertrud und der Präsident des Bundesverfassungsgerichts, Andreas Voßkuhle applaudieren am 03.10.2016 nach dem Festakt zu den Feierlichkeiten zum Tag der Deutschen Einheit in der Semperoper in Dresden (Sachsen). Zum Höhepunkt und Abschluss der Feierlichkeiten zum Tag der Deutschen Einheit werden an diesem Montag die höchsten Repräsentanten des Staates in Dresden erwartet. Foto: Jan Woitas/dpa +++(c) dpa - Bildfunk+++©DPA

A guerra continua

A cidade de Dresden teve que ter um esquema de segurança absurdo para receber os políticos de alto escalão, entre eles, o Presidente da República, Joachim Gauck, sua companheira Daniela Schadt e Norbert Lammert, atual presidente da câmara baixa do parlamento e também forte candidato a sucessão de Gauck (76)  que por motivos de idade deixa o cargo em fevereiro de 2017. Também entre o alto escalão estava Andreas Voßkuhle, o presidente da Corte Federal de Justiça, localizada na cidade de Karlsruhe (sul do pais).

Ao sair do carro preto em frente ao Museu dos Transportes que fica no centro da cidade velha(Altstadt, em alemão) , Merkel, com seu sorriso congelado de sempre, foi cumprimentar o Ministro Presidente e seu colega de partido, Stanislaw Tillich. Enquanto isso, protestantes, especialmente do movimento PEGIDA, assim divulgam em unanimidade as agências de notícias, ouvia-se: “Sai daqui!” “Merkel tem que sair” “Merkel tem que renunciar”.

Pegida Mitbegründer Lutz Bachmann (M) steht am 03.10.2016 vor der Frauenkirche in Dresden (Sachsen). Die Feierlichkeiten zum Tag der Deutschen Einheit finden in der Landeshauptstadt von Sachsen statt. Foto: Arno Burgi/pa +++(c) dpa - Bildfunk+++©DPA

O fundador do movimento PEGIDA, Lutz Bachman, que tem vasta ficha policial, também marcou presença. O irônico é que, há poucas semanas, para o ódio de seus “companheiros de luta” que o caguetaram num Posting via Facebook, Bachmann decidiu imigrar para a ilha de Tenerifa, na Espanha e com isso, ganhar o adjetivo de imigrante. Vale lembrar que capixaba, Rosalinda Mildne, mais desorientada, equivocada e mais sem freio do que a Janaína Pascoal, aderiu ao movimento por achar que a “Alemanha está ameaçada”. Tanto equívoco não cabe numa só criatura.

Depois de se eternizar do “Livro de Ouro da cidade, Merkel seguiu para a Ópera e lá, falou brevemente aos jornalistas. Fiel ao seu discurso de um mundo cor de rosa, que parecia que tinha “colado” do discurso do Presidente da República, esse sempre sereno em tom, sublinhando seu background de pastor evangélico luterano na RDA, que há exatos 26 anos atrás, deixava de existir no mapa geográfico. Com uma postura de quem está com a corda no pescoço e como prescreve um ditado popular, “fazendo cara boa para o jogo sujo”, ela mandou: “Estamos aqui em Dresden para comemorar os 26 anos da Unificação alemã e, pra mim, pessoalmente e para a maioria dos alemães esse é um dia de alegria e agradecimento, mas também um dia em que, 26 anos depois, nós vemos que tem trabalho e problemas que esperam por nós. O meu desejo pessoal é que nós os resolvamos esses problemas, numa postura de respeito e de aceitação de visões políticas antagônicas. Que essas sejam boas soluções e eu desejo que as pessoas continuem em diálogo, até mesmo aqueles que não procuram esse diálogo. Eu vou me esforçar com tudo para isso”, declarou Merkel enquanto delicada a cabeça para o lado direito. A declaração de Merkel foi típica de um discurso de quem está fazendo a lista de presentes para o São Nicolaus, que, no dia 06 de Dezembro, coloca presentes nas portas das casas , mas somente naquelas onde moram pessoas do bem, que não fizeram maldades nem falcatruas e que foram comportadas, é isso que se ensina para as crianças.

O discurso de uma chanceler, coroada pela “Time” como a mulher mais poderosa do mundo e a política que da as coordenadas na política europeia deveria ter um cunho totalmente diferente. Escolher Dresden, em plena Saxônia, o solo mais convulsante e que se mostra mais racista radical é masoquismo, mas pelo menos o discurso deveria mostrar pulso de combater esses criminosos e um discurso que expressasse clara e determinada vontade política para que a Alemanha continue um país sublinhado pela diversidade e para que ninguém tenha medo de ataques racistas seja em que cidade for, porém a Alemanha está cada vez mais longe dessa visão, e a capital da Saxônia é a maior prova disso.

O que Merkel fez foi fazer uma lista de desejos pessoais para um mundo sem maldades onde todos são felizes pra sempre. Talvez a chanceler esteja cansada, depois de 11 anos no cargo e cega para o país dividido que a Alemanha se mostra, 26 anos depois.

Segundo analistas políticos que tentam explicar o fenômeno do partido que se denomina “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), o “escorregado humanista de Merkel”, especialmente depois do “confronto” com a refugiada da Palestina num programa de TV, fez a chanceler “deixar vago o centro”, que ela tao religiosamente prezava e guardava como seu. O fim da postura conservadora de Merkel preenchendo o centro, deixou um buraco, preenchido a todo o vapor pelos populistas de direita, como os da AfD que querem vender seu peixe como sendo um partido “da sociedade civil”. As últimas eleições regionais de Berlim como cidade-estado mostrou que os votos da AfD vem do centro da sociedade, ou seja, lá de onde Merkel deixou o vazio ideológico. E como se isso não bastasse, tem os superpreocupados que já tinham lá atrás ideologias sórdidas e se sentem ignorados pela chanceler ou seja, ela da mais atenção para os refugiados do que para os alemães do leste que acusa regiões totalmente abandonas, onde não há nem mais vagas para jardim de infância ou escola primária por que não há mais crianças para ocupá-las. Só essa percepção mostra que a Alemanha está longe da unifica e é bem pouco provável que a “Chanceler do Mundo” consiga finalizá-lo, não com um final feliz, no qual talvez somente Merkel acredite, mas com um país menos acometido pelo ódio do desconhecido e pela inveja material, mas com mais disposição para o diáçãologo, mesmo frente à grandes antagonismos sociais e ideológicos. À Merkel falta a crônica habilidade de agregar e um mínimo percentual em inteligência emocional, atributo hoje indispensável no mundo corportativo, para o que é uma tarefa de Hércules: unir o país que ela governa. 

Concernente à forma, o Google já fez sua parte e na Alemanha aparece hoje com as cores da bandeira e um g todo animado dançando em vermelho, preto e dourado. Para preencher a Unificação com conteúdo ainda terá que correr muita água abaixo do Rio Spree. Com ou sem Merkel.