4 vezes Merkel e a crônica falta de opção

Fátima Lacerda

01 de agosto de 2015 | 19h07

image-878796-galleryV9-oryk.jpg©Reuters

Todas as boas coisas são 3,” diz um ditado popular nas terras daqui. De acordo com fontes da revista Der Spiegel, Angela Merkel vai pagar pra ver e irá se candidatar em 2017 para o quarto mandato. Assim, ela irá se igualar aquele que a inseriu no circo político. Entre 1991 e 1994, Merkel era a mulher cota do leste, usada como álibi,  nomeada para o ministério de Mulheres e Jovens no gabinete de Helmut Kohl. De 1994-1998, ela ocupou a pasta do Meio Ambiente e foi figura-chave na estratégia para lidar com o lixo atômico e sobre a construção de usinas para depósito permanente.

Com a quarta candidatura, Merkel alcança o que, a priori, ninguém esperava: ela se iguala a Helmut Kohl, que por teimosia e ajudado pelo momento histórico da unificação das duas Alemanhas (1990) colou na cadeira de chanceler durante 16 anos (1982-1998).

Merkel não dorme em serviço

De acordo com o portal, já teria havido um “encontro estratégico” com Peter Tauber, Secretário-Geral do partido, para alinhavar quem será responsável pela campanha que inicia em um ano e meio. Ao contrário das campanhas do partido socialdemocrata nas duas últimas eleições federais que contratavam agências de publicidade de grande renome para a organização da campanha, Merkel segue coerente com a sua dialética do menos é mais. Mais do que isso. Quer a campanha coordenada por uma equipe pequena, composta de pessoas de sua absoluta confiança. Delegar tarefas e com isso, responsabilidades, não faz o estilo da chanceler. A equipe será da Fundação Konrad Adenauer Stiftung que por nenhum acaso, está presente no Brasil desde 1969. Seu escritório principal é em Botafogo,  RJ e a filial em Fortaleza, CE.

Em conversa também de teor estratégico com seu atual parceiro no governo, Horst Seehofer, do partido bávaro União Social Cristã (CSU), de como se posicionar durante a campanha eleitoral, Seehofer sugeriu que a chanceler entre na campanha explicitamente com o objetivo de angariar a maioria absoluta e colheu ceticismo da chanceler. Entretanto, a porta para “possíveis coalizões” precisa continuar aberta, diz o ceticismo merkeliano. Porém uma pesquisa atual  feita pelo Instituto Emnid afirma que, se os alemães fossem agora às urnas, a União, composta pelo CDU de Merkel e pelo partido bávaro, o CSU, Merkel obteria a maioria absoluta. “A maioria absoluta seria o ganho da chanceler”, afirma o professor de ciências políticas, Jürgen Falter, que foi meu professor nos primeiros semestres da faculdade de Ciências Políticias na Universidade Livre de Berlim e que tende a ver tudo mais bonitinho do que realmente é além de ser incontestavelmente fã da chanceler, é aconselhável uma boa dose de ceticismo frente ao resultado da pesquisa que foi divulgada no final de julho e garante que “o empresariado da crise da Grécia” rendeu pontos para a chanceler.

O buraco do verão

Assim é apelidado pela mídia a fase de recesso parlamentar que inclui, claro, o período de férias da chanceler. Exatamente no primeiro fim de semana de férias vazou a notícia sobre a quarta candidatura. Com um timing perfeito e que não é nenhum acaso Merkel, de férias, se livra de questionamentos aporrinhantes da mídia. Quando ela retornar a Berlim, a pauta já será “neve do dia anterior” ou “café frio” e não mais ocupará as manchetes.

Enquanto algumas más línguas especulam que Merkel intenciona governar até 2022, outros esboçam cenário ousado: Merkel sairia vencedora das eleições em 2017 e no segundo tempo do mandato (2019), passaria o bastão para a ambiciosa Ursula von der Leyen, a qual Merkel já colocou à prova nas pastas Família, Trabalho e agora (segundo analistas, para aumentar seu grau de conhecimento em âmbito internacional) na pasta do Exército.

De um jeito ou de outro, a divulgação de querer se candidatar pela quarta vez tem o intuito de marcar  território para que ninguém do seu partido cogite lançar uma candidatura. Além disso, Merkel não faz o tipo de que sairia do cargo, derrotada nas eleições. Ela mesma vai determinar a hora de sair, para sair de cabeça erguida. O plano não é dos piores, mesmo porque a Alemanha está desprovida de alternativas para quaisquer candidatos que pudessem topar uma campanha eleitoral contra Merkel. Apesar de ser odiada pelos gregos e por alguns países da zona do euro, Merkel continua tendo o respaldo da maioria dos alemães, que pensam: Ruim com ela, pior sem ela. Além disso; correr risco não faz parte da cultura alemã.

O outro lado da moeda

A divulgação chega na hora em que a mídia especulava de forma incessante sobre a possível candidatura do atual Vice-Chanceler, o socialdemocrata Sigmar Gabriel. Porém, a sua viagem blitz ao Irã somente alguns dias depois do fechamento do acordo nuclear, sua política do “Hoje isso, amanhã aquilo” não o faz confiável para a esmagadora maioria dos alemães. Porém, seu problema de credibilidade não para por aí. O percentual de simpatia para o partido socialdemocrata (SPD) diminuiu consideravelmente, já que muitos membros e ex-simpatizantes com o partido, o percebem como um “ajudante de formação de maioria” e “lacaio de Merkel”. Fato é que do arqui-inimigo de Merkel enquanto ocupava a bancada da oposição, Gabriel virou o aliado número 1 da chanceler e, ao contrário de um tiro no pé no início do governo, ele não ousa mais discordar de sua chefe. O resultado é um SPD sem perfil e um Gabriel sofrendo memes nas redes sociais como “pau mandado” da chanceler.

Paradoxo

Apesar de várias medidas vindas da cartilha social-democrata terem sido fixadas no contrato da coalizão com o partido de Merkel e, na sequência, terem sido implementadas (a mais importante delas é a lei do salário mínimo de 8,50 euros) é a chanceler que continua angariando todos os pontos de simpatia do eleitor alemão. Nem mesmo os analistas políticos tem uma explicação plausível para o “efeito Merkel”.

Também os Verdes terão grande dificuldade em encontrar um perfil convincente para ultrapassar a marca dos 5% dos votos as próximas eleições. Depois que Merkel “se apossou” de temas como energias renováveis e da chamada “virada energética” que replaneja as diferentes fontes de energia sob o quesito sustentabilidade e se tornou “a chanceler verde”, o partido Verde ficou sem seus temas pilastra, temas que  formaram sua identidade.

Política da vista grossa

Com mais 4 anos de Merkel, a Alemanha continuará no hibernar político protagonizado por uma chanceler que se recusa a tomar posição em termas de extrema relevância, como por exemplo, a avalanche de refugiados, até agora 400.000,  que chegaram na Alemanha, o resultante clima de ódio e de ataques semanais a abrigos de refugiados e requerentes de asilo político como também no âmbito da violação da liberdade de imprensa, fato que mostrou uma péssima política, depois do tiro no pé do Ministério Público que abriu um processo contra o portal Netzpolitik. Nesse meio tempo, e devido à solidariedade em massa de meios de comunicação poderosos incluindo TV’s abertas e portais online, o promotor Range,  puxou o freio de mão de uma dinâmica insana e alegou “esperar com o andamento do processo até obter a avaliação dos expertos, se a divulgação dos documentos realmente compromete a seguranca da Alemanha”. Sobre a auto-demolição e o mico queserá histórico, Merkel não fez nenhum pronunciamento, se mantendo coerente com seu estilo de governo ,que é de deixar a tempestade (ou a pauta) passar e fingir que nada aconteceu.

O jogo político diário continuará sendo dominado pelo pragmatismo de uma Doutora em ciências naturais e que prefere ver o diabo ao delegar responsabilidades fora de uma equipe pequena, exclusiva e composta de membros fiel até os dentes, mesmo porque, ninguém quer cair na desgraça merkeliana.Todos sabem: Merkel perdoa, mas não esquece uma traição.

No Twitter, o #hashtag #Merkel chove com comentários sarcásticos. O usuário Lars Pellinat, escreve: Germany after the 2017 election: Merkel Forever!

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O portal Contra-Magazin exibe uma foto de Merkel como “Sua Majestade, a Imperatriz Angela M. da Alemanha

A semelhança entre Kohl e Merkel vai bem mais além dos sentidos infinitos anos dos dois no cargo de chanceler. Igualmente como seu padrinho político, a chanceler sem alardes e barracos, ou seja, comendo quieta, neutraliza seus adversários os levando, na melhor das hipóteses, para o ostracismo político ou para uma saída de fininho para o setor da economia, deixando o caminho livre de “empecilhos”. O cenário que se mostra na Alemanha com a falta de alternativa para Merkel é provavelmente um resultado dessa estratégia.

Links relacionados:

http://www.kas.de/brasilien/pt/about/


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