54 anos depois: o que sobrou do “Muro da Vergonha?

Fátima Lacerda

12 de agosto de 2015 | 19h55

StiftungBerlinerMauer.jpg©Stiftung Berliner Mauer

Uma das maiores expectativas de quem vem à capital é: “Onde encontrar o Muro?” ou “O que sobrou dele”?

Como já mencionei inúmeras vezes anteriormente, Berlim se desvencilhou de forma afoita do concreto que simbolizava a “parede protetora antifascista”, assim a denominação dada pelo governo da RDA. Berlim, símbolo mor da Guerra Fria, havia sido especialmente dilacerada durante os 28 anos de existência do “Muro da Vergonha”. Entendível que, depois de tanto tempo, querer se livrar do concreto o mais rápido possível. Entretanto, da perspectiva de hoje, a cidade percebe essa pressa como um erro.

Perto do aniversário de 54 anos do início da construção do Muro de Berlim, a Fundação Muro de Berlim (Stiftung Berliner Mauer), incumbida em manter viva a memória histórica e que não mede esforços em iluminar aspectos e detalhes em torno do problema mais complexo da Alemanha pós-guerra, apresentou um estudo que ilumina de forma relevante o processo de idealização do Muro que, durante 28 anos, dividiria Berlim.

A recompensa de um trabalho de manter viva a história, se ratifica no recorde com 1.055.000 de visitantes em 2014.

Estudo divulga novas revelações

Uma pesquisa, contendo dois documentos até agora desconhecidos, prova que o “projeto de fechar as fronteiras” foi mencionado por Walter Ulbricht, então líder da RDA, em carta ao comando soviético. Numa gravação de áudio no Ministério das Relações Exteriores em Moscou, o General Čujkov e seus consultores políticos declararam a necessidade de fechar o “buraco” e os setores de fronteira abertos. Entretanto, o pedido foi ignorado durante muito tempo. “Somente duas semanas depois da morte de Stalin, o conselho ministerial da UDSSR sacramentou o insistente pedido.

Na pesquisa divulgada pelo Prof. Dr. Manfred Wilke e Dr. Gerhard Wettig, consta: “A construção do Muro de Berlim tinha o objetivo de assegurar a existência da RDA” e cortar pela raiz “possíveis tendências de reunificação das duas Alemanhas”.

Ainda segundo o estudo, recém-divulgado e disponibilizado à opinião pública no site da Fundação Muro de Berlim, o chefe do Kreml, Chruschtschow, assinou o documento pressionado pelo governo da RDA, que devido ao êxodo diário de berlinenses que trabalhavam no lado ocidental e continuavam tirando proveito do custo de vida barato do lado oriental, sabotavam assim, a ideia do “Socialismo real”. Essa assinatura tirou do pedestal a “nobreza” do sistema e o fez capitular. Como exaltar a legitimação de um sistema que precisa trancar os habitantes de um país para dizimar o êxodo?

Construção do Muro, que foi perfeicionado em 4 gerações. Antes que o planejamento da quinta geração deixasse a mesa dos engenheiros, a voz do povo, a Revolução Pacífica, derrubou o Muro em 1989.

https://www.youtube.com/watch?v=KG9tA-jJmsw&feature=related

Visitar o Muro como espaço físico

Para quem visitar a capital e quer ver reminiscências do muro como espaço físico e concreto, deve visitar:

Bernauer Str. – o lugar que no sábado de 13 de agosto de 1961, iniciou a construção do Muro. Na parte norte de Berlim e de fácil acesso pelo S-Bahn (o trem que vai por cima da superfície) com a estação homônima, está a “Capela da Reconciliação”, construída em lugar de extrema simbologia. Já a “Igreja da Reconciliação” que estava localizada na chamada “Faixa da Morte”, se tornou um calo no pé do governo da RDA e foi implodida em 1985, somente 4 anos antes da queda do Muro.

http://www.berlin-mauer.de/videos/sprengung-der-versoehnungskirche-695/

Para se preparar, no site da Fundação está disponível uma viagem virtual em alemão e inglês com vários elementos que completam os postos relacionados com o Muro, como o prédio no bairro de Marienfelde, que serviu de abrigo para os fugitivos que chegavam em massa em Berlim.

Tour virtual

http://berliner-mauer.mobi/fenster-des-gedenkens.html?&number=1&map=164&tour=1&L=1&cHash=f61e767cf1c46d96ce75bcdea10e9664

Infos sobre a Fundação estão disponíveis também em espanhol:

http://www.berliner-mauer-gedenkstaette.de/en/download/spanish.pdf

Ao longo de toda a quinta-feira (13), Berlim estará relembrando das vítimas do regime criminoso da RDA, incluindo a tradicional missa ecumênica na “Capela da Reconciliação” com a presença do prefeito e socialdemocrata, Michael Müller.

Já ao longo de segunda-feira (10) pude constatar um avalanche de grupos de turistas em companhia de guias, amontoados nos pontos principais da demarcação, entre eles, o ponto de controle mais famoso: o Checkpoint Charlie, onde canhões russos e americanos ficavam frente à frente todos os dias.

Des-cobrir os rastros do muro na Berlim de hoje, não é fácil. Além dos pontos turísticos com soldados fantasiados de uniformes, soldados esses que na época da queda do muro, nem eram nascidos, não são os rastros que valem a pena.

Há pouco tempo, percebi um casal de brasileiros tentando fazer fotos perto de uma parte restante do Muro. Certa hora, a esposa perguntou: “Esse muro que começa aqui vai parar aonde?”.

Antes de vir para Berlim, prepare-se. Escolha o foco da sua visita e, se tratando do Muro, existem muitas alternativas para fazê-lo.

Para quem domina o alemão, vale a pena conferir o aplicativo “Muro de Berlim” (Berliner Mauer), que contém a demarcação da linha do muro, vídeos da cidade cercada e tours que dispensam os guias agregando o atrativo de flexibilidade de dia e hora.

https://itunes.apple.com/de/app/die-berliner-mauer/id453037843?mt=8

O outro lado da moeda é que o aniversário da queda do Muro, comemorado anualmente em 09 de novembro, está muito mais acoplado a algo positivo e tem efeito turístico ainda mais magnético. Entretanto, a opinião de políticos e professores é unânime: é preciso esclarecer para as gerações mais jovens o que aconteceu, como esse complexo fenômeno político se cravou na identidade do país e especialmente na percepção dos berlineses que são testemunhas de época. Existem alunos do ginásio que nem sabem que Berlim foi uma cidade dividida. Outros tantos, acreditam que o Muro cercava a parte oriental da cidade para impedir aos habitantes do leste de fugirem para a parte ocidental. Entretanto, de fato, o Muro cercava a parte ocidental de Berlim, transformando-a numa ilha: inquieta, rebelde, em convulsão e em estado de intrínseca emergência, como mostra de maneira detalhada e através de um material de incomparável relevância histórica e meticulosamente editado, o documentário “B- Movie – Lust and Sound” exibido na mostra paralela “Panorama”, na edição deste ano da Berlinale.

https://www.youtube.com/watch?v=tj3qj6

Na parte ocidental, o Muro, ao longo dos anos se tornara uma atração turística. Também pra mim, como mostra a foto de recém-chegada, desembarcando de um avião da Pan Am, na quarta-feira, 12 de agosto de 1988.

BerlinerMauer.jpg