70 anos depois do “Tratado de Potsdam”, a “Casa Europa” treme na base

Fátima Lacerda

23 Setembro 2015 | 11h55

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“Quem de vocês ai da mesa ainda nutre a esperança que a Europa vai se recuperar dessa crise?”, assim o início da moderação no Colóquio que reuniu analistas políticos, secretários da OTAN e jornalistas, em sua maioria, europeus depois do discurso de abertura, via conferência de vídio, do ex-Ministro e um brilhante da diplomacia mundial, Hans-Dietrich Genscher, aquele que teceu acordos-chaves no contexto da queda do Muro de Berlim. Sau aparição mais importante foi na varanda da embaixada de Praga, em  setembro 1989, quando anunciou que os alemães orientais, por semanas lá acampados no jardim, teriam a permissão para viajar para o ocidente. Era o fim do Muro da Vergonha.

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Eu participei do evento como a única jornalista da América Latina. O interesse pela atual crise política e econômica no Brasil era percebido no ar, apesar do Colóquio ter o foco na crise da UE. A minha participação se fez necessária, operativamente, o que ratifica que o pós-globalizado está ai. O tempo em que a Europa era “só Europa” já foi. Discursar sobre o velho continente não é mais possível sem considerar os EUA e sem considerar os países Brics.

A maioria dos presentes levantou a mão em atitude otimista sobre o destino da Europa. Entãretanto, durante as longas horas de debate e palestra ficou claro que o drama dos refugiados mostrou claramente que a UE no é esse denominador comum de valores, como não cansa de pregar Angela Merkel. A postura da Inglaterra, da Polônia e principalmente a da Hungria desmoronam, sem perdão, a liturgia merkeliana.

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Parceria sórdida

Na manhã desta quarta-feira (23) horário local, o premiê húngaro Viktor Orbán, aceitou o convite do partido da Baviera, o CSU. No âmbito de consultações internas do partido, algo de praxe para concretizar o posicionamento em temas mais urgentes, o Ministro Presidente Horst Seehofer convidou populista húngaro. Como já mencionado em artigos anteriores, Seehofer é o “Rei da Baviera”, o chefe do partido e a “Voz Bávara” em Berlim e que não perde uma ocasião para não deixar a “sua terrinha” cair no ostracismo político midiático. Isso implica em medidas aventureiras e surreais como o projeto de introduzir, nas autoestradas do país, uma taxa para automóveis com placas do exterior e outras que ele consegue, sempre, ter sacramentadas nos contratos de coligação mesmo que o projeto resulte em uma batalha jurídica por todas as instâncias europeiais. Para botar lenha na fogueira, Orbán acusou Merkel de “imperalismo moral”.

O governo atual é composto da coligação entre o CDU, partido de Merkel, os social-democratas, SPD e o partido da Bavária, que é um “primo político” do partido de Merkel e com ele forma a “União”.

A política de Yes,we can, que rendeu a chanceler elogios pelo mundo e a capa da revista “Der Spiegel” com foto em alusão à Madre Theresa de Calcutá, não tem o apoio do “Rei da Baviera”. Como se não bastassem críticas ao posicionamento da chanceler em permitir a imigração dos refugiados. Aproveitando o populismo sórdido do premiê húngaro, que não pestaneja em aprovar o uso de gás de efeito moral em cima de quem fugiu de guerra e perseguição política, Seehofer quer se manter no holofote.

O foco midiático

Ao invés de expressar diretamente à chanceler sobre a sua insatisfação com a política de imigração, Seehofer faz isso através da mídia e através de fotos que „falam mais do que livros“, como diz um ditado popular. Mais do que um sinal pra Berlim, Seehofer manda um recado para os eleitores do seu partido de direita.

A propósito mídia

O colóquio decidiu homenagear a revista Charlie Hebdo. Seu redator-chefe esteve no palco do Palácio Sanssouci na cidade de Potsdam, vizinha de Berlim. O aparato de segurança incluía a polícia federal em massa, além de policiais à paisana e escondidos atrás de árvores no terraço de vista deslumbrante no palácio e de testes orientados na dramaticidade do massacre de Paris.

A presença do Ministro das Relações Exteriores, do embaixador francês na Alemanha ratificam a importância do evento e do prêmio. Gérard Biard fez o protocolo como manda o figurino, mas quase não falou com a imprensa.

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Depois de um discurso brilhante do Ministro Frank-Walter Steinmeier, onde ele, antes mesmo da visita de John Kerry em Berlim, que aconteceria dias depois, já sinalizara o retomar de esforços diplomáticos quanto a guerra civil na Síria, Biard subiu ao palco, disse boa noite em alemão, acrescentando „Essa é a única palavra que eu sei da língua de vocês“, disse, causando surpresa e um pouco de constrangimento fez o seu longo discurso em francês, que foi quitado pela plateia composta de políticos e jornalistas com um „hmmmmmm“.

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A tradução oferecida era somente em inglês e alemão. Quem não entende francês, ficou a ver navios. Também no âmbito linguístico, a Europa continua devendo: os franceses continuam achando que todo o mundo tem que falar a língua da „La Grand Nation“. O prêmio M100 em Berlim, para „Charlie“ é uma gota no oceano e o tom enfático e de teimosia de Biard, não consegue minimizar essa impressão.

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Charlie morreu. Viva Charlie!

Quem passou no número 10 da Rue Nicolas Appert, vê o prédio da antiga redação, vazio, abandonado. O movimento no final do dia, fica por conta do Teatro Bastille, um teatro de comédia. O que restou de „Charlie“ está exilado na redação do Liberation. Luz (Renald Luzier) um dos mais talentosos cartonistas da revista, jogou a toalha em maio último, alegando não ter conseguido recompor sua vida, depois do massacre que aterrizou Paris, em janeiro último.

As paralelidades entre „Charlie“ e a UE se fizeram visíveis no Colóquio. As diferenças de opinião entre jornalistas da Ucrânia e da Hungria, diferenças entre a percepção do secretário da OTAN e da correspondente do The Guardian, também. Meu colega Luis Doncel, correspondente do El País, vê Angela Merkel no meio de uma tempestade, enquanto eu a vejo no momento mais inabalável dos seus 10 anos de gestão como chanceler. Sebastian Huld, correspondente berlinense da agência AFP vislumbra “um abismo” ao constatar que, para os próximos anos não há alternativa para Merkel.

Foi Christopher Walker, nova-iorquino e diretor executivo do Fórum Internacional de Estudos sobre Democracia que deu à mesa, não somente como moderador de um dos tópicos, mas especialmente como analista político fez uma análise comedida e racional da situação da Europa, um efeito mais do que sintomático. O castelo que idealizado pelo Rei Frederico II para ser sua residência de veraneio e por isso ganhou o apelido de “Sanssouci” (Sem preocupações) não fez ao nome, devido à maior crise de identidade e de valores que a UE já viveu.