Alemanha e o fracasso com os desafios da digitalização

Fátima Lacerda

24 Abril 2018 | 08h58

Em termos de tecnologia digital, a Indonésia e a Índia estão mais avançadas do que a Alemanha. Em Lisboa, que durante anos foi chacota por deter o título de “A Casa Pobre da Europa”, em cada estação de metrô, logo ao pisar na plataforma você é lembrado que ali tem Wi-Fi grátis com o sinal que, ao vislumbrá-lo, enche a nossa alma de alívio, especialmente quando você tem um celular alemão e nenhuma conta pré ou pós paga na capital lisboeta. O sinal funciona sem cair o tempo todo. Dentro do trem do metrô há falhas, mas enquanto se encontra numa estação de metrô, você está conectado.

Em Barcelona também há Hots-Spots, mas bem mais falhos do que a capital lisboeta, mas ainda ganha de galope da Alemanha.

Em Berlim, no metrô você tem Wi-Fi grátis. Por volta do centro de comércio Potsdamer Platz, também. Mas nas casas e nos apartamentos, dependendo do lugar onde se mora a precariedade dos cabos existentes, das instalações, até mesmo em bairros de classe média e classe média alta, é impressionante.

Internet=Terra Desconhecida

Certa vez, em coletiva com Barack Obama sobre o escândalo envolvendo a agência NSA e seus meticulosos protocolos sobre as conversas de celular da chanceler, a reação de Merkel foi a mais inocente e a mais inadmissível que se possa imaginar de uma chefe de governo da maior economia da Europa: “Internet pra gente, ainda é terra desconhecida“. Imediatamente no Twitter, surgia a #Hashtag Neuland (Terra Desconhecida) e a Alemanha se rolava no chão. Porém o que parecia jocoso era uma tragédia anunciada. Na briga pela tecnologia digital, a Alemanha ficou para trás. 

Tres Dias sem internet e telefone

O bairro em que moro, é somente 10 minutos de bicicleta até o centro turístico e de comércio de Potsdamer Platz. Um lugar privilegiado que tem 3 áreas verdes para escolher onde correr, fazer Walking ou simplesmente passear. O lugar tem nas redondezas 3 diferentes estações de metrô. Mesmo assim, uma reforma no apartamento do térreo, na mesma coluna da minha, fez com que 6 apartamentos ficassem 3 dias sem Internet e sem telefone fixo. A pilastra vizinha, de vizinho de porta num andar de dois apartamentos, continua surfando no lado ensolarado da vida.

Quando cheguei em casa, descobri que os apartamentos da minha pilastra, todos, estavam sem internet e telefone porque operários envolvidos na reforma do apartamento do térreo, ao arrancar todo o piso, arrancaram também o cabo que conectava a caixa localizada no porão aos apartamentos dos andares de cima.

Contactando a empresa Kabel Deutschland, recentemente comprada pela Vodafone, eles confirmaram que não havia nenhum sinal vindo do meu modem, apesar da conexão do computador pro Modem estar intacta. O problema, se constataria bem depois, vem “de fora”. “O Computador está conectado com o Modem, mas não com a rua”. Me senti num cenário muitas vezes desenhado nos sketches do “Parafernalha”, onde a usuária ligar para saber porque não está conseguindo acessar o sistema e a operadora do outro lado da linha quer empurrar pela garganta abaixo um novo pacote com “direito a suporte técnico personalizado”. Antes mesmo que a cliente possa se expressar, a atendente já agradece pela escolha e desliga. Na Alemanha não é diferente. O sistema de prestação de serviços ficou estagnado em tempos muito remotos. “Seu modem não tem sinal”. “Quero marcar um horário em que o técnico poderá vir consertar”. “A Sra. irá receber uma mensagem viva SMS como serão os próximos procedimentos”. “Procedimentos, que procedimentos? Eu estou sem internet e telefone, a única coisa a fazer é consertar”. Sem pestanejar, a gajo mandou: “Haverá uma observaço do sistema durante 8 horas. Somente depois disso, os técnicos irão lhe enviar uma sugestão de horário com o técnico”. Mesmo não acreditando na desculpa das “oito horas observatórias”, nas primeiras horas do dia seguinte eu liguei informando que as oito horas já haviam passado e exigindo um horário. “Liga para esse número aqui que a Sra. terá uma horário ainda hoje”. Liguei para a firma terceirizada da Vodafone e que manda os técnicos para as ruas. “Posso lhe oferecer um horário amanhã” (a hora do telefonema era pelas 08 da matina). “Não. A Vodafone me assegurou um apontamento para hoje e para hoje e hoje que tem que ser”. Ele ficou pensativo no telefone, balbuciando algo e falou: “Então ele vai entre as 14 e as 17 horas”. Combinado.

No início da tarde (16), alguém me ligou do número dessa empresa. Eu estava na cozinha e não ouvi. Liguei de volta: “Alguém da sua firma ligou agorinha pra mim desse número. Do que se trata?”. “Não sei”. “Como não? O telefonema foi não tem 5 minutos! Continua valendo o horário firmado?”. “Sim”. “Caso seja alguma coisa a pessoa irá ligar novamente”. Suspense. Vários cenários passaram pela minha mente. Será que o técnico vem? Será que mudou o horário ou será que ele ligou para desmarcar para outro dia?

No horário marcado, porém, chegou um cara que nutre totalmente o esterótipo do que em Berlim a gente chama de Computer Freak. Magrelho, de óculos de CDF, cabelo preso num rabo de cavalo tão fino que se passar num ralo ele fica preso ali e um cavanhaque de cabrito. O levei até o porão onde ficam os “distribuidores”. “Eu já até encontrei o erro” disse ele rapidamente demais em tom de voz cool. Logo no celular seu “chefe” ligou e ele começou a falar que tem uma impressora que imprime 1000 folhas sem problemas e que quer vender. Sai do porão devido a poeira insuportável que circula por ali. A conversa sobre a impressora continuava enquanto eu esperava na parte de cima da escada já na fronteira com o jardim do edifício. Depois de uma hora e meia e com o síndico p. da vida por ter que vir até o edifício duas vezes para abrir as portas do porão, o Computer Freak descobriu de onde vem o defeito: do apartamento do térreo que está sendo reformado. Nesse processo, os cabos telefônicos foram para o beleléu. Mas quando o especialista descobriu o defeito, os empreiteiros já haviam ido embora, a tal Feierabend (período depois do serviço) é sagrada na Alemanha. Na administradora do prédio, uma hora antes do horário de fechamento, eles disseram estarem “impedidos” de andar dois quarteirões para entregar a chave para o síndico que já estava vermelho de raiva por ter passado de sua hora de final de expediente e ainda ter que estar ali para fechar os porões, mas antes aguardava o desfecho dessa lista de incompetências e desencontros por falta de comunicação. Os responsáveis da administradora ficaram devendo e mais uma noite inteira estaria à nossa frente. Sem internet e sem telefone fixo.

Enquanto isso, os outros vizinhos, também sem internet e telefone fixo esperam a solução cair do céu. De manhã cedo, bati na porta da minha vizinha francesa, Alice. “O teu internet funciona?” perguntei. “Pois é , eu tentei e vi que não funcionou…”disse ela com voz de alineada enquanto ratificava com gestos dos dedos como quem está escrevendo no teclado. “Então pega o telefone e liga para administradora para fazer pressão para eles consertarem!”. Ela pegou uma carta da administradora, onde constava um telefone e disse: “Vou ligar” e saiu esbaforida para o trabalho. Foram precisos mais dois telefonemas para uma múmia que trabalha na administradora para que ela agilizasse que o chefe dos empreiteiros fosse ao apartamento para repor o cabo. “É uma emergência!”, dizia eu já com os nervos em fragalhos. “Nós iremos nos comunicar”, sem concretizar o que queria dizer com isso. Meia hora depois do telefonema acalorado, olhei para o modem e todas as luizinhas estavam verdinhas, como deve ser. Uff! Esse cenário se deu no centro de Berlim. Sem mencionar o cenário que rege nas cidades do interior do país, esquecidas pelos políticos e fora de qualquer tipo de conexão com o infinito mundo digital. Segundo a Telekom, a área em que moro, repito, centro de Berlim, não oferece melhores pacotes de Internet incluindo a velocidade. Juntando aos cabos caquéticos nas “salas de distribuição” o cenário continuará sendo da época da pedra lascada.