A Berlinale e as águas de março fechando o inverno

Fátima Lacerda

25 de fevereiro de 2018 | 11h00

Não me lembro quando foi a última vez que o festival aconteceu na rebarba de fevereiro e com o mês 03 batendo na porta. A sexagésima oitava edição teve dias de sol, dia claro até o final da tarde. Os pássaros, que já não imigram para o hemisfério sul e a cantoria dos pássaros davam uma estranha sensação de primavera, quando o relógio biológico e a memória emocional da Berlinale são bem outras.

Essa percepção vem do fato da Alemanha ser um país de rituais e com as quatro estações bem definidas.

No primeiro dia do festival eu sentia como se fosse o início de uma Copa do Mundo, quando você morre de ansiedade para o pontapé inicial. Durante o festival, que irá entrar na história como um dos mais insignificantes, especialmente em termos do júri internacional, eu sentia como se tivesse a bordo de quem trem com muito atraso. Entre outros tantos motivos, o final da Berlinale número sessenta e oito já foi tarde. Coerente com os 10 dias de duração, a cerimônia de entrega dos prêmios foi morna. A escolha dos filmes, mais do que questionáveis.

Ao ser perguntado pela apresentadora Anke Engelke se as escolhas do júri internacional causariam supresas, ó diretor e presidente do júri Tom Tykwer respondeu: “As nossas escolhas não são “somente” pelos filmes como obras cinematográficas, para sobre aquilo que eles podem vir a ser”. Esse comentário se refere ao filme “Las herederas” do diretor Marcelo Martinessi, uma produção Paraguai-Brasil-Alemanha-Noruéga-França. Também a premiação das mulheres diretoras é um sinal no Zeitgeist do #MeToo mas também um sinal político enviado de Berlim.

Na categoria “Grande Prêmio do Jury”, a vencedora foi a diretora polonesa Ma?gorzata Szumowska com o filme “Twarz”, que ratifica que a maior imagem do Cristo Redentor não está no Rio de Janeiro, mas em ?wiebodzin, parte ocidental da Polônia. “Eu sou muito feliz em ser uma diretora mulher!” exclamou com o braco levantado exibindo o Urso ao terminar seu discurso. Nele, ela mencionou a situação política em seu país, mas também “no restante do mundo ocidental”.

Elena Okopnaya levou o prêmio de “Contribuição Artística” pela atuação no filme “Dovlatov”, de seu marido, Alexei German Jr. “Quando eu estudava na Escola de Artes e tinha 19 anos um professor me disse que a minha chance de crescer seria mínima. Quando eu encontrei o meu marido, ele acreditou em mim e no meu potencial” . Adina Pintilie levou o Urso de Ouro pelo filme “Touch Me Not”.

O prêmio super merecido foi o Urso de Prata como melhor atriz para a Ana Brun em “Las herederas” e o Prêmio Alfred Bauer para “Novas perspectivas cinematográficas”. Em seu discurso, o diretor Marcelo Matinessi, declarou: “A Ana (Brun) já falou quase tudo. Não há muito mais o que falar, a não ser muito obrigada a Berlinale por convidar o nosso filme que viemos de uma sociedade muito conservadora. Se estamos abrindo perspectivas, mentes e portas no Paraguai, esse filme fará muito. Eu gostaria também de agradecer esse elenco sensacional de mulheres que habitou as personagens desse filme”.

 

 

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