A cólera de Le Pen por Merkel expressada no último debate pela presidência da França

Fátima Lacerda

04 Maio 2017 | 10h52

© Carlos Latuff

Não foi a primeira vez, mas decerto a mais intensa que a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, destilou seu ódio pela chanceler alemã no debate da noite de quarta-feira (03). Merkel significa para a candidata autodenominada “candidata do povo”, todo o aparato de UE e toda a soberania política e economia de Berlim.

No último debate antes do segundo turno das eleições presidenciais francesas no próximo dia 08, na hora do bloco “Europa”, Le Pen não economizou em doses cavalares de veneno e cólera acusando seu adversário, o candidato centrista e fundador do movimento “Em Marcha”, Emmanuel Macron, de ser “submeter”, ser capaxo de Angela Merkel”. Entre todos os itens de seu “Projeto”, esse parece ser o tópico mais importante.

O debate foi violento e confuso. Ao contrário dos anteriores, que incluiam  11 candidatos, teve mediação péssima repercussão sendo “conduzido” pela jornalista Nathalie Saint-Cricq (da emissora France 2) e por Christophe Jakubyszyn (da TF1) de formato absolutamente infeliz que permitia aos candidatos falarem ao mesmo tempo e ignorarem os apelos desesperados de Nathalie como na hora que mostrou capitular frente à tal verbal luta de boxe: “Arrêtez tous les deux!” (Parem todos os dois!), como um professor afastando dois alunos brigando no pátio da escola. Devido ao confronto verbal, a atenção e paciência do telespectador foi desafiada durante todo o embate, não “somente” no âmbito auditivo, mas especialmente no âmbito programático dos candidatos a apresentarem seus “projetos”.Na linguagem dos discursos, na França, fala-se de Mon Projet (meu projeto) e não como em outros países, “meu programa de governo”.

Europa

Ao chegar ao bloco “Europa” o debate teve no seu ápice. Impossível não constatar a cólera que Marine Le Pen cultiva pelo modelo da “Casa Europa”, de valores comuns, paz e prosperidade econômica para os países membros, assim a versão oficial. Que esse modelo, especialmente no âmbito de “Valores Comuns” vive seu momento mais dramático desde 2004, ano em que Polônia e Hungria aderiram à União, é inquestionável.

O premiê húngaro, Viktor Orban, criador do partido Fidesz, há tempos, vem desafiando a UE. O motivo atual é seu objetivo em fechar a Faculdade Central European University (CEU). Nem uma petição assinada por 400.000 pessoas e apelos de professores atuantes no estrangeiro e até cientistas condecorados com o Prêmio Nobel, fez com que Orban voltasse atrás. Nas últimas semanas, viu-se estudantes universitários na ruas de Budapeste, exigindo diversidade no ensino.

Em recente estada em Varsóvia e ter tido conversas com estudantes da universidade da capital, donas e casa, chefes de microempresas, aposentados e jovens, deu para ver o abismo em que o irmão sobrevivente do desastre de avião de Smolensk em 2010, Jaros?aw Aleksander Kaczy?ski teima em “concretizar” (segundo ele, a visão do seu irmão gêmeo).

A Polônia sofre de isolação internacional, um clima de depressão no país e o sentimento de ter estado num jogo ganho e, por uma desatenção, ter sofrido um gol no último minuto. A única voz que “conecta” a Polônia com a UE é Donald Tusk, ex-premiê, hoje presidente do Conselho da UE e a âncora capaz de proteger os poloneses do total ostracismo.

Especialmente os jovens quando falam do atual (des)governo da Polônia veem seu futuro roubado. “Estávamos indo tão bem!”, disse uma jovem com voz embargada e recheada de frustração que viajava no mesmo vagão que eu no caminho de volta para Berlim. Ela, formada em jornalismo, está impedida de trabalhar na área, onde emissoras e jornais contabilizam despedidas em massa para quem não é de acordo com o atual governo, que tem Beata Maria Szyd?o, como marionete e “laranja” de Kaczy?ski.

“Vamos falar de terrorismo…Islã, Islã, Islã…” O expectador diz: “Bom, entao eu vou ali fazer um xixi…”

A cólera de Le Pen

É indiscutível a soberania da Alemanha, a maior economia da Europa e a segunda maior do mundo no andar da carruagem da UE, porém usar isso de instrumento é gerar polêmica sem um olhar diferenciador do que significa para casa país ser membro da UE. Aquela que se declara “Candidata do Povo” e promete, sendo eleita, não tomar nenhuma medida sem o seu suporte, não “somente” apela para as forças reacionárias, essa muito tempo caladas devido à ditadura do politicamente correto dos partidos do centro e que deixaram esses eleitores para trás (na Alemanha vemos fenômeno similar) e agora voltam com todo o vapor em opiniões e atitudes xenofóbicas, homofóbicas e embarcam na onda de Marine em sua, matematicamente, alinhavada na tese da “diabolização da globalização” e o associa com “iminente ameaça de perda de identidade”. Por isso a promessa de encaminhar um referendo para a saída da Franca da UE, o FREXIT. A saída da zona do euro, Le Pen relativizou depois do primeiro turno.

No bloco “Europa”, em seu momento mais irado, Le Pen pronunciou em número inflacionário “Allemagne, Allemagne”, (Alemanha, Alemanha) sem que o telespectador pudesse realmente ouvir do que se tratava, já que os dois candidatos falavam ao mesmo tempo. O que se conseguiu entender do candidato centrista Macron, é que ele percebe de importância-chave a dobradinha Alemanha-França no solo conturbado da UE. Não é a toa que isso soa como bem-vinda melodia no ouvido de políticos alemães de alto-escalão, exceto o partido esquerdista Die Linke, que favorizava o candidato da esquerda, Jean-Luc Melenchón, um tipo de primo de segundo grau do Lula, no que diz respeito ao seu potencial de fazer polêmica e deixar o dito pelo não dito. O candidato derrotado no primeiro turno, mas que até lá havia se tornado queridinho da mídia europeia, se negou a expressar apoio explícito a Macron, como mostra em vídeo disponível no YouTube, onde ele depois de uma semana ter  quebrado seu silêncio, afirma que seus eleitores são inteligentes o suficiente para saber o que fazer. “Eu não sou Guru!”, afirmou com voz de quem está por cima da carne seca com um considerável número de eleitores que formam um percentual decisivo para evitar Le Pen: o percentual dos ainda indecisos. Nas redes sociais, os que votaram em Melenchon no primeiro turno, aquele candidato que pleiteava “nova negociação das fronteiras européias” fazem campanha para o voto nulo.

Tentando também “pescar” votos na alameda dos republicanos, Le Pen não pestanejou em plagiar passagens completas de discurso recente do candidato republicano e derrotado no primeiro turno, François Fillon .

Le Pen está também de olho nos votos dos eleitores de Mélenchon e não deixou dúvidas disso em sua retórica, matematicamente preparada, usada no debate decisivo de quarta-feira (03). Apesar de sua estratégia de “soberania” no momento mais desapropriado possível, Melenchon ratificou no video, a importância de “um governo estável”, dando a pista para que seus eleitores votem em Macron.

Ao contrário de Le Pen, Macron exaltou a importância da França num contexto europeu que ele diz querer “proteger”, fez a candidata em seu habitual estilo rude, acionar o contra-ataque. Segundo ela, para quem quer vender “Europa” como solo de imigração em massa de muçulmanos e arriscar o perigo acoplado a isso e  deixar o país vulnerável, “sujeito a ataques e à ganância dos bancos”, não poderia deixar barato com Macron, num momento de desvantagem perante à Le Pen, conceder facilmente munição.

© Jean Larive

A partir do próximo domingo , a França será governada por uma mulher. Ou serei eu, ou será Madame Merkel” martelou Le Pen e arredondou instigando a possível fraqueza do seu adversário político, alegando: “O Sr. não irá conseguir fazer nada sem o consentimento da Madame Merkel, a chanceler alemã“, garante aquela que o acusa o candidato centrista Emmanuel Macron representar a “Mundialização selvagem”, expressão que Le Pen nunca se deu ao trabalho de explicar, já que o instigar do medo é mais precioso cabo eleitoral.

Feministas francesas contra Le Pen

Em comunicado veiculado no portal “Direito das Mulheres contra a Extrema Direita”, protagonistas e ativistas expressam seu repúdio pela política de Le Pen. Entre as assinaturas no comunicado estão a de Suzy Rojtman, porta-voz do “Coletivo Nacional pelo Direito das Mulheres“; Sabine Salmon, Presidente da Organização “Femmes Solidaires” e Claire Serre-Combe, porta-voz da organização “D’Osez le féminisme” (Atreva-se ao feminismo!)

De acordo com enquete da emissora BFM, 63% dos franceses viram Macron como o mais convincente, contra 34% que se declararam convencidos com o desempenho da candidata da extrema-direita.

Em análise na manhã de quinta-feira (04) veiculada no portal do jornal “Liberation”, Nadine Morano, membro do partido republicano no Parlamento Europeu se declarou “frustrada” devido à falta de consistência nas declarações da Dama-de-Ferro do Front National, a quem ela assegura “não ter porte nem capacidade para exercer o cargo de presidente da França”.