A crise na Grécia e o efeito dominó na política interna alemã

Fátima Lacerda

14 de julho de 2015 | 16h53

MerkelEuropa.jpg©Klaus Stuttmann

A atual percepção midiática do que acontece na Europa só tem lugar para sucessivos capítulos da tragédia grega. Mais uma convenção. Mais um encontro dos líderes da UE com as cenas dos mesmos saindo dos seus carros, se dirigindo ao formigueiro de microfones de mídias sedentas por novas Infos, revelações bombásticas. Mais um #hastag, mais apostas nas redes sociais sobre o cenário #GREXIT (por somente 6 meses ou em definitivo).

O que a mídia ironicamente batizou de “Tragédia Grega“ vem mostrando sucessivos efeitos colaterais na política interna alemã.

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A disputa entre a Grécia e a UE destruiu a ideia inicial da “Casa Europa”, idealizada pelo ex-presidente francês, François Mitterrand e pelo ex-chanceler, Helmut Kohl, que tinham o intuito de fazer de inimigos históricos, aliados, agir de forma preventiva para evitar guerras no velho continente e unir a Europa para futuras gerações. O que a chanceler alemã por sua vez denomina de “Comunidade de valores comuns” se mostrou uma farsa frente à disputa ideológica que vem se delineando desde janeiro último, quando Alexis Tsipras, vencedor das eleições pelo partido SYRIZA, apareceu em frente aos seus eleitores como o Robin Hood europeu, aquele que iria domar a doutrina merkeliana da política de mão de ferro. Desde então, a mídia europeia vem negando dar nomes aos bois em pronunciar a expressão “luta ideológica”. De quebra, a mídia alemã vem descreditando os políticos gregos nos quesitos competência, credibilidade e ética. Imagens dos gregos nas ruas pedindo esmola, em filas frente a bancos fechados, depoimentos de turistas proveniente da Alemanha e que, por medo de represália e maltratos, cancelaram suas viagens à Grécia. Imagens nos mercados de frutas e verduras auto-organizados pelos moradores do vilarejo X e anúncios de falta de médicos e falta de remédios são onipresentes. Só muda o nome do médico e o nome da cidade ou da ilha como um “aviso” dos credores para a “falência iminente” que a Grécia está sujeita se não seguir na linha.

O enfant-terrible e odiado Yanis Varoufakis sumiu do mapa. Entrou Tsakalotos, um outro Ministro Grego das Finanças mais “moderado” e que se mostrou disposto a “negociar com os credores”. Tudo isso aconteceu em velocidade Blitz depois do Referendo. Entretanto, a campanha de difamação da maioria dos canais de comunicação continua irrevogável no semear e atiçar do clima de repúdio aos “gregos ociosos” que “só querem o nosso dinheiro”. Ao contrário dos meios de comunicação de TV aberta com uma “responsabilidade de informar” e financiados com taxa mensal pelos usuários e mestres no uso de eufemismos, o tabloide Bild, que não tem qualquer compromisso com ética e veracidade da notícia, mas sim com a polêmica e o resultante aumento de vendas dos exemplares impressos, há meses vem botando lenha na fogueira, entre outros, com enquetes se o governo alemão “deve liberar” mais um pacote para salvar a economia grega do próximo infarte e protelar o sofrimento. A manchete do início da semana foi, mais uma vez, polêmica: “Merkel salva a Grécia com o nosso dinheiro!

O jornal esquerdista „Freitag“ (Sexta-feira), também não deixa a polêmica de lado ao vincular em sua manchete no portal: „Nós nos envergonhamos por esse jornal. „Esse jornal não notícia. Ele só faz campanha de difamação”.

https://www.freitag.de/autoren/asansoerpress35/wir-schaemen-uns-fuer-diese-zeitung

Tudo mudou

Até agora, a chanceler alemã obteve percentuais de simpatia dos eleitores pela sua “exímia capacidade de empresariar crises com sucesso”, principalmente no âmbito da política europeia. Depois do referendo da Grécia, que disse “Não” a política austera da UE, a supostamente inatingível, Merkel se encontra na fase mais difícil do seu governo. Por um lado, o mantra “Se o Euro fracassar, fracassa também a Europa”, perdeu o sentido. A casa da Grécia caiu. Pior do que isso. Mesmo depois do “Não” à política personificada por Merkel  e seu Ministro e braço direito, Wolfgang Schäuble, a Grécia consegui não “só” permanecer na Zona do Euro, mas conseguiu um acordo. Alexis Tsipras retorna para Atenas como um Robin Hood que venceu a madrasta alemã. “Conseguimos o que era possível”, declarou ele frente aos microfones depois da maratona em Bruxelas.

A chanceler volta pra casa trazendo um grande abacaxi político. Toda essa dramaturgia grega resultou num efeito dominó na política interna. O lugar indiscutível da Alemanha como motor da política de austeridade deu ao país um supremacia e vai totalmente de encontro à ideia de Kohl e Mitterrand e que relembra um o passado mais escuro na história da Alemanha.

O renascer do neonacionalismo alemão

O Departamento de Proteção a Constituição (Verfassungschutz) divulgou no final de junho passado o resultado de uma pesquisa que atesta que em 2014, 1000 crimes motivados por radicalismo, foram computados. “O perigo do radicalismo de direita atualmente na Alemanha é tao perigoso como há muito tempo não se via”, declarou Volker Schaffranke e ainda acrescentou: “Os ataques a abrigos de refugiados aumentaram em 20%” em comparação ao ano anterior.

http://www.wdr2.de/nachrichten/wdrzweinamo136372.html

O Ministro que ocupa a pasta do Interior, Lothar de Maizière, por um lado criticou os ataques aos abrigos de refugiados como “um afronto ao Estado de Direito”. Por outro, sancionou uma lei que, de fato, criminaliza quase todos os refugiados que pleiteiam asilo e conseguem chegar a Alemanha por via terrestre. O Ministro, que por nenhum acaso é político com maior número de chacota nas redes sociais, defende a medida. “Para garantir a concecao de asilo político para aqueles que, de fato necessitam”. A Associação dos Advogados Alemães criticou severamente a medida: “Essa lei indicia e possibilita a prisão imediata de praticamente todo o refugiado que chega a Alemanha por terra”. Com medidas com tal caráter simbólico, o governo Merkel faz um favor e semeia o caminho de ódio por tudo o que não é alemão, de partidos que se movimentam fora das premissas constitucionais e também inciativas de extrema-direita como a “Europeus contra a Islamização da Europa” (PEGIDA, alemão), que aterrorizou o país no final do ano passado com passeatas por todo o país.

Pegando carona na Grécia…

O ódio midiático semeado contra os gregos é um bom motivo para ampliá-lo para tudo o que não é alemão, tudo o que não é “daqui”. “Isso é o Neo Nacionalismo”, atesta o cyber-crítico e colunista do Portal Spiegel Online, Sascha Lobo e apela para a “O ódio dos justos”, alegando que a sociedade precisa se posicionar contra o ódio, mas também contra políticos oportunistas que, com medidas que instigam a falta de tolerância e aceitação na sociedade, querem garantir o angariar de eleitores de segmentos radicais. Seu maior alvo de crítica é o Vice-Chanceler e Ministro da Economia, Sigmar Gabriel. O social-democrata (que causa cambalhotas de Willy Brandt no túmulo) e sua política do zigue-zague é useiro e vezeiro em querer transformar o ódio em capital, em potencial eleitoral para a próxima ida as urnas.

Sascha Lobo também critica a denominação midiática e cheia de eufemismo de “os contra asilo político”. “Em muitas redações, usa-se o adjetivo “Contrários ao pedido de asilo. Essa expressão esconde um eufemismo perigoso, uma bagatelizacao da violência racista. Um cara que, em frente a um asilo de refugiados como na cidade de Freital (Saxônia) grita: “Sieg, Heil” (o termo usado pelos nazistas e que significa “salve a vitória”) ele não é simplesmente “contra o asilo”. É como se alguém afirmasse que o Estado Islâmico não está de acordo com o casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

http://www.spiegel.de/netzwelt/web/deutschlands-neo-nationalismus-lobo-kolumne-a-1042600.html

Águas passadas…

Enquanto no banco da oposição, antes de fazer parte do gabinete Merkel, Sigmar Gabriel era estritamente contra a lei que permite o Armazenamento Preventivo de Dados de Comunicação. Agora, enebriado com a função do segundo cargo mais importante no Executivo e dando continuidade a sua política do zigue-zague, Gabriel, provavelmente o político mais odiado da Alemanha, se mostra a favor de que se armazenem todas as ligações telefônicas e de internet, independente de haver suspeitas. Esse intuito já foi “quebrado” pela Corte Europeia de Justiça em 2014, que alega os métodos de armazenamento como “inadmissível ataque aos direitos fundamentais”. Esse tema polêmico ainda vai gerar muito debate na Câmara Baixa do Parlamento Alemão, em mais bate-boca que desestrutura a essência do que é a política. Enquanto toda essa polêmica vai preenchendo o vazio dos jornais, os alemães não sabem se seus meios de comunicação estão sendo grampeados, mesmo porque, o escândalo envolvendo a espionagem da NSA ao celular da chanceler Merkel, tornou qualquer possibilidade de segurança de dados, uma história da carochinha.

A tragédia grega gerou um efeito dominó, não “somente” para outros países da Zona do Euro, gerou um escorrego ainda mais para a direita do governo alemão e suscitou de forma mais exacerbada um questionamento mais do que apropriado sobre a capacidade de discernimento e potencial de seriedade de membros do gabinete Merkel.

A volta da cúpula de Bruxelas para a Berlim prestes a entrar no recesso parlamentar não trará a Merkel o tao esperado “sossego político” do tipo longe dos olhos longe do coração. A mídia alemã é uníssona na opinião de que em 10 anos de governo, Merkel vive sua mais difícil época de gestão tanto em assuntos concernentes à zona da UE como no âmbito da política interna, que lhe dá o respaldo para todo o resto. Para a sexta-feira (17/07), a chanceler convocou a imprensa para seu tradicional pronunciamento “sobre a situação do governo”. Durante a manha de hoje (14) foi divulgada a notícia de que a “Coletiva da Chanceler sobre o andar do governo” será adiada para “depois do recesso de verão no início do mês 09. Merkel saiu mal. Faltou soberania.

Ao ligar hoje para confirmar o horário no plenário da Câmera Baixa do Parlamento (Reichstag) para ratificação do acordo com a Grécia e a UE, a funcionária do departamento de imprensa, respondeu: “Nós nem sabemos se vai ter”, insinuando que o parlamento em Atenas terá que aprovar as medidas na quarta-feira (15).

Merkel se livrou de ter que prestar contas sobre o acordo fechado em Bruxelas, sobre o acordo nuclear com a República Islâmica do Irã, acordo que é divulgado em notícias das agências como “um empenho coletivo”, mas de fato uma vitória diplomática dos EUA e nada menos da obstinação incansável expressava num trabalho de anos, da Agência Internacional de Energia Atômica. (AIEA). Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2009 como crédito pouco depois de sua posse, e quer se perpetuar nos livros de história por medidas de grande impacto e relevância antes de deixar a Casa Branca.

Para desfazer o conceito de que é avessa à imprensa, Merkel, nesta semana, concedeu entrevista a LeFloid, um expoente cibernético da Alemanha. Tentando ser cool, Merkel fracassou por completo enquanto manteve sua coerência de não ser concreta em suas respostas sobre temas como Casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma nova forma de Neonacionalismo, Formas de trabalho. Nem a pergunta, “O que é preciso para se viver bem?”, Merkel conseguiu responder de forma concreta. Com o #Hashtag #NetzFragtMerkel (A rede pergunta Merkel) eleitores jovens podem discutir e refletir sobre política. Perto do final da entrevista, LeFloid fez questão de ratificar perante às câmeras que não recebeu nenhum pagamento da chanceleria e certificou que a chanceler só tomou conhecimento das perguntas durante a própria entrevista.

A entrevista assim como a tentativa de Merkel de parecer à vontade “com os jovens”, você confere aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=5OemiOryt3c

 

 


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