A dialética merkeliana e o que Bob Dylan tem a ver com isso

Fátima Lacerda

21 de julho de 2015 | 17h21

Que Angela Merkel considera a mídia um “mal necessário”, isso não e segredo pra ninguém. Suas raras aparições se mostram, na melhor das hipóteses, uma tarefa de Hércules. Na pior delas, um motivo de vergonha alheia e da total falta de sensibilidade e capacidade em lidar com o imprevisto.

Não fosse ela a politica mais poderosa do mundo, essa falta de habilidade midiática não seria de interesse publico. Porém, tudo o que Merkel diz, quando diz, tem uma repercussão imensa e quando se trata de algo pessoal, ainda muito mais. Certa vez, em entrevista a Bunte (Colorido), uma revista de celebridades, Merkel foi perguntada o que olha primeiro em um homem. Depois de sentida infinidade na espera pela resposta, ela disse:” os olhos”. Até aí nada de condenável, não fosse o ar de surpresa da chanceler como se nunca tivesse sido perguntada antes algo de natureza tão mundana.

Certa vez, em um show de Bob Dylan no Festival de Montreux, ele não falou uma palavra com o público e na maioria das vezes se posicionou de costas. Em um único momento do show de mais de uma hora, num acorde mais pauleira, ele dobrou os joelhos levando a guitarra até eles. Esse movimento teve impacto cênico gigante. O lidar de Merkel com a mídia tem essa dialética. Quanto menos for dito, menos mal entendidos haverão, menos possibilidade de hipóteses a serem delineadas. Na participação de Merkel em “conversa” com alunos no canal infantil KIKA na semana passada e o contato com a aluna Reem Sahwil palestina que vivia no Líbano e há 4 anos está na escola na cidade de Rostock (norte do país) foi um desses casos. A menina deu um show de discernimento sobre a sua situação e de sua família. Reem não “somente” fala um alemão quase sem sotaque,de gramática e sintaxe e para alemão nenhum botar defeito, mas a forma de pensar e de sentir. Um símbolo de excepcional integração em somente 4 anos. A honestidde e autenticidasde dessa menina desconcertou Merkel, que, visivelmente supresa com a competência lingúistica almejada e com pânico de não saber o que dizer, fazia pseudo-perguntas para encher linguiça. Até que a menina, depois de uma pressão enorme em revelar todo o seu martírio como refugiada e o medo de ser deportada e ter perguntado a Merkel “por que as coisas funcionam dessa maneira”., ela caiu em prantos, Merkel foi até ela e fez “carinho”. No mesmo instante, surgia uma #hastag #merkelstreichelt. Caricaturas pipocavam nas redes. Uma delas mostrava uma criança chorando dentro do carrinho. A avó, desesperada, ameaçou: “Se você não parar de chorar, eu vou chamar a Merkel para te fazer cafuné!”. O respaldo da mídia foi unânime. Merkel foi gelada com a menina.

Outra charge do programa de sátira política Extra3, mostra uma foto de Merkel com o Ministro Schäuble. “Os gregos me odeiam”, diz o MInistro. “Tenta com cafuné. Comigo funcionou que é uma beleza!”

Schäuble.jpg

Ainda outra mostra uma cópia do MasterCard: “Tem coisas que você nao pode comprar. Para todo o resto, tem o cartao chanceler: Lencinho, 0,99 centavos de euro. 699,00 passagem de volta para o Líbano. Receber cafuné da chanceler: impagável!”.

 Kanzlercard11755362_10153099657593918_1789522218400427052_n.jpg

https://www.youtube.com/watch?v=sSNfVqSZ8VI

Entrevista ensaiada

Mesmo em entrevistas para as TV’s abertas, das quais as perguntas são anteriormente enviadas para preparação, Merkel não “deixa que olhem em suas cartas”, como diz um ditado popular daqui.

No domingo (19), o conglomerado de emissoras de TV, a ARD, fez a tradicional “Entrevista de Verão”, uma espécie de análise anual do governo. Sempre que a pergunta traz uma situação de desconforto, a chanceler ou a ignora ou responde passando ao largo pelo assunto. Durante a entrevista que dura 20 minutos e é realizada por 2 âncoras, Merkel delineou um discurso que teria sido muito bem poupado aos expectadores. Não valeu nem mesmo ter acendido a luz do estúdio e nem o transporte do equipamento para o estúdio à beira do Spree, o rio que corta o centro de Berlim.

Confrontada com a notícia corrente de que entre a chanceler e seu Ministro das Finanças, Schäuble, haveria um grande abismo, digo, discrepância na forma de ver o problema da Grécia, Merkel desconversou e disse: “Nós tomamos essa decisão juntos e nós dois vamos liderar as negociações. Isso agora é que importa”. O pragmatismo merkeliano, sem fronteiras. Perguntada se ficou chateada com o shitstorm nas redes sociais depois de sua reação fria com a situação de Reem, Merkel mechou com os ombros e mandou: “Eu tenho que me concentrar no meu trabalho”. Porém a vista grossa mais perigosa de Merkel nesse entrevista foi quando a jornalista a perguntou: “Devido ao clima de hostilidade frente aos refugiados no país, qual seria a melhor maneira de minimizar isso?”. Nas últimas semanas, a Alemanha vem tido inúmeros casos de cenas de terror em frente a vários abrigos para refugiados. Assim como com a conversa com Reem, Merkel optou pela resposta de cunho burocrático: “Temos que agilizar o processo de decisão no requerimento de asilo para que as pessoas tenham maior perspectiva”. Ao evitar falar sobre o racismo e ódio a tudo o que é estrangeiro que motivam atos criminosos contra os mais fracos da sociedade, Merkel age de forma imprudente, já que os grupos e organizações de direita e militantes bem fora de premissas constitucionais, podem entender isso como uma “aceitação silenciosa” da chanceler. Já o presidente da república, Joachim Gauck, não da uma única entrevista sem falar sobre a necessidade de apoio aos refugiados, assim como a responsabilidade história da Alemanha em fazê-lo.

Uma coisa é Merkel fingir que não entendeu a pergunta sobre as desavenças dentro do gabinete. Outra coisa é ela fazer vista grossa para o clima de ódio com os refugiados e requerentes de asilo. Além do mais, a afirmação sobre “uma melhor perspectiva” caso os pedidos de asilo sejam mesmo agilizados no quesito tempo, mostra a total falta de realidade frente ao destino de pessoas que saíram fugidas da guerra, de perseguição e que a perspectiva só pode ser através do inicio da vida em um lugar que não seja o país de origem.

Por mais eficiente que seja a equipe de Merkel para “assuntos de mídia”, devido à sua falta conhecimento do que acontece “aqui fora”, a mídia nunca será um instrumento de auxílio para a chanceler, mas continuará sendo um “mal necessário” e para os telespectadores terá zero teor de informação desestruturando a essência do que a mídia, como quarto poder no Estado deve ter.

Bob Dylan e Merkel dividem a premissa de que o menos é sempre mais. Entretanto, o menos às vezes é muito pouco ou quase nada.

Tudo o que sabemos sobre:

MerkelReem Sahwil

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.