Convulsão politica, a marcha do populistas de direita e a democracia ferida

Fátima Lacerda

07 de março de 2016 | 16h40

O Brasil vive um momento de convulsão, onde sua jovem democracia passa pela prova mais difícil, desde o Impeachment contra Fernando Collor de Mello. Vemos uma presidenta acometida por crônica falta de soberania e credibilidade, vemos um politico obsoleto e megalomaníaco “ameaçando” voltar em 2018 afirmando estar “cheio de disposição”.

Do outro lado do Atlântico a “Chanceler do Mundo”, Angela Merkel ousando uma total mudança de paradigma na forma de governo, ela teima, contra tudo e contra todos, em manter a politica de refugiados, mesmo que essa mensagem que varou o mundo, tenha sido alinhavada com pequenas portas dos fundos, portas de saída. Exemplo: Aprovação de leis, em formato Blitz, para que refugiados com o requerimento de asilo negado, sejam imediatamente deportados da Alemanha. Que isso juridicamente e um abacaxi a ser descascado por juízes e desembargadores, a maioria não sabe. O que vale e a manchete: Merkel fez isso, isso para diminuir o fluxo de imigração no pais. Não podemos nem devemos esquecer do acordo sórdido com o governo turco, muitos anos ignorado por Merkel, agora ela tem que comer nas mãos do tirano Erdogan. A Turquia não se tornou membro da UE da forma clássica e boa parte disso devido ao categórico “Nein” de Merkel, mas agora o governo pode  dar as cartas e o governo Merkel, e não só ele, tem que correr atrás do prejuízo. Por seu posicionamento geográfico, a Turquia tem papel-chave naquilo que pode ser uma solução da crise dos refugiados e/ou, em troca de muito dinheiro da caixa de Bruxelas, manter os refugiados longe das fronteiras da UE. Agora falta Itália e Grécia fazerem o dever de casa e, como Merkel exige “controlar as fronteiras externas de forma mais eficiente”.

Ida às urnas

São 5 regiões que votam nesse ano na Alemanha. Na noite de domingo (05) foi a vez de Hessen, a região da qual a capital e a metrópole financeira Frankfurt, cidade que beira do rio Mainz. O resultado deu razão ao prognóstico de analistas políticos. AfD (Alternativa para a Alemanha) conseguiu deixar o CDU, partido de Merkel e os socialdemocrata, o SPD, para atrás em muitas cidades de pequeno porte.

Em Frankfurt a AfD angariou 10,3% dos votos

Em Wiesbaden, 16,2%

12,2% em Kassel, cidade anfitriã da Mostra de Arte Contemporânea, Documenta.

Em artigo de autoria de Jakob Augstein vinculado hoje no portal Spiegel Online, ele fala sobre a “fragilidade da democracia” e acusa, mídia e classe politica por ter feito vista grossa com o que ele denomina de “crise do sistema capitalista”. Augstein atesta esse momento na Alemanha de “uma revolução que os da direita fizeram e os da esquerda não conseguiram fazer”.

Aquilo que o ex-chanceler Helmut Schmidt avisava em todas as palestras e entrevistas que concedia, e elas eram muitas, se tornou realidade. Os movimento de direita populista pipoca em toda a Europa, até naquela que, por tempos, gozou de uma imagem de tolerância: a Dinamarca. 

A epidemia da Zika ja se espalhou pela América Latina e, ao contrário do slogan vinculado em horário nobre na TV brasileira, o mosquito esfrega na nossa cara que, sim, que e maior do que uma país  (ou pelo menos maior do que a competência dos órgãos de saúde).

O populismo de direita ocupa os países da UE e mostra que a “Casa Europa” esta ferida no seu alicerce cimentado na crença de valores comuns. Mesmo assim, diplomatas em discurso para plateia escolhida a dedo, se exercem na pratica de botar panos quentes. Como nos ensinou a fenomenal Cassia Eller:” Bobeira é não viver a realidade!!”. E ao contrário de Cassia, a UE não tem “uma tarde inteira”. A casa esta caindo.

Nenhuma Alternativa

A AfD que tem cravado no nome a palavra Alternativa se mostra um engodo politico e ingrediente bem vindo para adeptos de um racismo latente e que até, agora, foi sufocado pelo politicamente correto. Mas quando milhares e milhares de refugiados batem na porta da sua casa, porque começam a povoar sua vizinhança, você se sente incomodado. Muito mais do que isso. Você tira do baú todos os medos, racionais e irracionais, todo o seu recalque e sua síndrome de vira-lata daquilo que os sociólogos denominam de “Perdedores da Unificação”, aqueles que perderam o prumo, chão profissional e politico depois da queda do Muro de Berlim, do desaparecimento da Alemanha Oriental do mapa e da formação de uma nova ordem mundial. Mas também tem aqueles adeptos da “ideologia marrom” que vivem em pequenas cidades da ex-Alemanha Ocidental e se sentem “ameaçados” por aquilo que não conhecem. Tudo isso se mostra adubo perfeito para aquele partido que promete ser uma alternativa. Um dos seus carros-chefes, um propagador de teoria de raça é Bjoern Hoecke, um ex professor de história, o que por si só já mostra o estado calamitoso da educação em cidades do leste do país, anda empestando potenciais eleitores com o seu veneno que é fator de legitimação para quem só precisa de um empurrãozinho para sair aterrorizando e incendiando abrigo de refugiados, ou criar “tropas para salvar as alemães de assédio dos sírios” ou para monitorar refugiados em todos os seus passos fora do abrigo.

Os discursos do ex-professor de história, Hoecke, sempre nas segundas-feiras nas cidades de Magdeburg e Erfurt, leste do país arrebatou as redes sociais. Como consequência disso, o programa de jornalismo investigativo “Monitor” foi procurar no arquivo, encontrou um discurso de Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda do Reich e encontrou inúmeras similaridades no conteúdo do discurso de Hoecke. Enquanto Goebbels acusava a imprensa bolchevista de difamação, Hoecke atacou a “Imprensa mentirosa” (Luegenpresse, em alemão), uma denominação que remete imediatamente ao sistema do nacional socialismo de Adolf Hitler.

Confira aqui o vídeo:

http://www1.wdr.de/daserste/monitor/videos/video-hoeckes-reden–goebbels-sound-100.html

Tirando os noves fora

CDU alcançou 28,% e continua o partido com o maior pedaço do bolo eleitoral na região de Hessen.

Os socialdemocratas contabilizam 28% e a AfD triunfa contabilizando 13,2%.

Os Verdes, em situação lamentável em todo o país, almejou 11% e é o partido que mais perdeu eleitorado na primeira eleição do ano.

Os Neoliberais, o  FDP (na sigla em alemão), amargando no ostracismo em âmbito nacional, alcançaram 6,5% e estarão representados no parlamento das Laender, assim denominadas as regiões politico-administrativas.

No inicio desta semana a Alemanha vive a mudança radical no seu espectro político-partidário, além de ter “escorregado” para a direita. O peso desses resultados e o das próximas eleições em ao todo 4 regiões administrativas do país nos mostrará, a médio prazo, uma mudança na constelação parlamentar em Berlim. A mudança da constelação partidária, já é!

Tanto aqui como lá. Tanto lá como cá, continua valendo:” Cada país tem os dirigentes que merece”. Que tempos são esses? Convulsões, Abismos políticos no Brasil quando cogitam a volta do ex-presidente Lula e desabamento de valores tidos como certeiros na Alemanha e no restante da Europa. A casa caiu.