A missão do premier israelense em Berlim e o discurso protocolar e vazio de Merkel

A missão do premier israelense em Berlim e o discurso protocolar e vazio de Merkel

Fátima Lacerda

04 Junho 2018 | 19h33

Eram quase 15 horas no horário local na tarde de segunda-feira (04). O jardim em frente a Chancelaria Federal parecia um forte militar. Policiais esbanjando metralhadoras e estrategicamente posicionados andavam pelo local e observavam atentamente cada movimento dos passantes. Amassando a barriga nas barras de metal posicionadas ao longo do paralelepípedo, estavam alunos de ginásio, em excursão da escola em Berlim e inalando os ares de celebridades políticas da capital.

Do outro lado do cerco policial, uma demostração de palestinxs gritavam palavras de ordem. Mesmo eu ali por perto, não consegui decifrar o conteúdo. Ao meu lado, ali mesmo onde ficam as esculturas de água que enfeitam o lugar, que é a espinha dorsal politica da cidade, um fotografo de uma agência de notícias, assim como eu, tentava fotografar um cenário inusitado: a bandeira de Israel, hasteada no jardim da Chancelaria Federal, aquela que os berlinenses chamam de “Máquina de Lavar”, devido seu formato quadradão.

Nesse mesmo lugar, todas as quartas-feiras, as 17 horas, horário local, membros do partido de extrema-direita, “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), marcam ponto. Segurando bandeiras da Alemanha, eles bradam repetidamente: “Merkel tem que sair“.

©Bernd von Jutrczenka /DPA

Alemanha e Israel: Dobradinha de alto simbolismo

Depois de receber o convidado com protocolo estudado, mas vestindo um guarda-roupa longe do parâmetro do cargo que ocupa (uma calça branca larga e uma jaqueta azul com um sapato que deveria ser proibido de deixar o armário), Merkel fez as honras da casa. Do outro lado da varanda do último andar da chancelaria, membros do protocolo israelense e de Berlim, curtiam o sol da primavera enquanto os dois chefes de governo conversavam.

Na coletiva de imprensa que durou pouco mais de 30 minutos, mas não sem a pane do Premier colocar o fone no ouvido errado e assim, perder a primeira parte do discurso de boas-vindas da chanceler. Percebendo a dificuldade do convidado em ter acesso à tradução vindo da cabine ao lado, Merkel falou em tom solícito e discreto: “Você precisa colocar o fone no outro ouvido“.

Netanijahu apelou ao governo alemão, para endurecer a sua politica frente ao Irã .”Eles querem nos destruir”, declarou o Premier. Merkel atestou o desenvolvimento do papel do Irã como “preocupante”. Porém, quem conhece a retórica oca de Merkel sabe que seus discursos contém somente adjetivos e muitas boas intenções, porém sem nenhum “perigo” de uma posição clara e transparente e ainda muito menos de uma atitude de pulso e isso, vale para quase tudo. A única ressalva é quando os acontecimentos fogem do seu controle e a dinâmica já está em todo o vapor.

A segunda-feira em Berlim começou alvoroçada já com o anúncio da lista final de convocados para a Copa da Rússia e a ausência de Leroy Sané, que joga no Manchester City, quebrou a internet. 

Também nesta segunda, foi anunciado que Merkel não irá apoiar o presidente francês, Emmanuel Macron em seus planos de “reformar a UE” especialmente no quesito “União Fiscal”. Não há uma única semana em que em algum debate ou programa de TV não se fale sobre se “a Europa irá sobreviver”. Pois bem. E a chanceler, governante da maior econômica da Europa declara, com frieza de um coveiro, que não irá salvar o paciente, UE que desde o verão europeu de 2015 e as percepções antagônicas surgidas com a Crise dos Refugiados, só respira por aparelhos. A ingovernabilidade da Itália, um pais na décadas dividido é mais uma prova do estado terminal grave. A ideia de Kohl, Mitterrand e Adenauer de uma Europa como “uma comunidade de valores comuns” é coisa do passado. A letargia merkeliana e o avesso à reformas e sua habilidade em empurrar dificuldades e conflitos para debaixo do tapete é um incentivo para as forças populistas da Europa, que aliás, vão de vento em popa e como esta segunda-feira também mostrou, com uma ajudinha dos EUA na pessoa do ex-conselheiro estrategista de ninguém menos do que Donald Trump. Steve Bannon, que declarou à imprensa alemã que ele teria influenciado as negociações na Itália, um país que vem se mostrando ingovernável. Bannon é só regozijo em ver o circo pegar fogo. “Macron e Merkel irão cair como uma bala“, declarou o americano em estilo visionário.

©DPA

Ironia politica e o acaso

E no minio irônico ver o Premier em viagem pelo Velho Continente para pedir apoio, para a sua linha dura contra o Irã. ‘Santo de casa não faz milagre” deve ser uma das poucas premissas que ainda vale no pós-globalizado.

Poucos dias depois que Alexander Gauland, chefe do partido de extrema-direita, “Alternativa para a Alemanha” comparou o Holocausto, no contexto de história de toda a humanidade, a “uma cagada de pombo”.

Decerto que Merkel sempre relembra o pior capítulo da história da Alemanha, a culpa e a responsabilidade alemã quando se encontra com um Premiê israelense, mas a dinâmica dos fatos tornam a frase imprescindível e altamente esperada: “Que depois dos crimes brutais do Shoah (Holocausto em hebraico) podemos estar aqui hoje, lado a lado como parceiros é, assim vejo eu, um presente da história”, assegurou.

Diplomacia e habilidade protocolar

Intrínseco ao estilo de Angela Merkel e o exercício de paliativos, freando, enquanto pode, o confronto, a divergência, necessária para se resolver conflitos em qualquer âmbito.

Logo de início, Merkel foi fiel à sua retórica ao mesmo tempo vazia e diplomática e regada de um otimismo oportunista: “Eu me alegro, mais uma vez em receber o Premiê israelense, não “somente” em Davos (Suíça), mas aqui em Berlim especialmente num momento em que a situação internacional é muito difícil, temos a possibilidade de conversas bilaterais”. Arrematando sua retórica de anfitriã, Merkel também mencionou o aniversário de comemoração de 70 anos do Estado de Israel. “Para nós, alemães, é muito importante festejar essa data, não Somente” com eventos no parlamento alemão em Berlim, mas com inúmeros outros””.

Consultações e injeção na economia

Para o dia 04 de outubro em Jerusalém,Merkel anunciou as” Consultações Alemanha-Israel” que serão no modelo realizado em Brasília em 2015. Consultação tem, em primeira linha, o assinar de muitos contratos no âmbito econo,ico entre dois países enquanto traz o efeito paralelo de gerar imagens que o jargão politico alemão denomina de Schulterschluss e o carioquês define como um “Tamo junto”. Merkel mencionou a atratividade tecnológica de Israel e avisou que estará “acompanhada de uma delegação da área econômica” para melhorar as relações entre os dois países.

Acordo nuclear com o Irã (DCPOA)

Apesar dos dois divergirem sobre a utilidade do acordo nuclear com o Irã (Joint Comprehensive Plan of Action), que a Alemanha ao contrário dos EUA não cancelou, Merkel se mostra “preocupada” com a emancipação atômica do Irã, especialmente seu papel na Guerra Civil da Síria mas também “concernente à segurança do Estado de Israel”. Merkel assegurou que irá tentar “de todos os meios diplomáticos” para exercer influência, tanto no programa balístico do Irã, em suas atividades no Yêmen e na presença do exército iraniano na Síria”. A UE está sofrendo as consequências do política de Donald Trump, que tirou os EUA do acordo e ainda ameaça punir firmas europeias que atuam nos EUA se as mesmas não foram disciplinadas nas sanções contra o Irã. “Berlim ainda está muito na defensiva na questão do Ira”, declarou Trump em 16 de maio. Ou seja: a punição indireta à UE está em jogo. Entretanto o conglomerado de, atualmente, 27 países ainda teima em ser soberana, pelo menos nessa decisão e pelo menos até agora.

Solução “2 Estados” para Israel e Palestina 

Merkel não conseguiu esconder seu desconforto em sugerir a variante de “Dois Estados”, o de Israel e o da Palestina e assegurou também ajuda financeira para a Faixa de Gaza. Em tom resignado, humilde por não querer entrar no Front, ela lamentou com uma linguagem corporal que exiba toda a sua impotência e sua sentença, por motivos históricos, de sempre pisar em ovos e pesar bem as palavras antes de soltá-las no universo midiático e político. “No momento há uma situação difícil em que não há diálogo”, disse ela como que observa de longe, mas como quem nem pensa em realmente sujar as mãos, se comprometer, se posicionar.

Para fechar o compromisso, que é sempre um abacaxi e pólvora escondida, Merkel, olhando diretamente no olho do Premier ela declarou, enquanto já dobrava o papel com seu check-list para a coletiva sinalizando que já sairia logo na sequência, sem delongas. “Não estamos de acordo com muitas coisas, mas somos amigos, somos parceiros”. Fim da coletiva. Dever cumprido.

A batida de ponto de Benjamin Netanjahu a Berlim não foi em vão, mesmo porque. ele sabe que só pode esperar solidariedade verbal e algo empenho diplomático, mas Berlim como primeira estação da viagem europeia não foi escolhida por acaso. Quem quer se movimentar na UE, quem precisa de aliados nem que seja mais ou menos pro forma, tem que bater na porta de Merkel no prédio da Chancelaria Federal. O presidente francês, Emmanuel Macron, já está calejado nesse quesito. Ele já bateu ponto em Berlim três vezes e nada conseguiu para seu ambicioso plano em modernizar a “Casa Europa”. Nem mesmo promessas, já que Merkel, mesmo empacotado em tom diplomático ela passa o recado. A única alternativa de Macron será esperar o tempo pós-Merkel, provavelmente em três anos.

Merkel oferece suporte politico a Israel, sem “sujar as mãos” e somente no âmbito diplomático. Os mesmos empenhos tentados com a Rússia e com a Turquia não trouxeram nenhum resultado. Com o Irã, o resultado não será diferente. Fosse o social-democrata Frank-Walter Steinmeier ainda o Ministro das Rel. Exteriores, a chance seria maior. Steinmeier foi pessoa-chave no alinhavar habilidoso e no arrematar do acordo nuclear entre a UE e o Irã.

Ao contrário do que acreditava o Velho Guerreiro, Merkel ajoelha, mas não reza e sai “limpa” sem ter que sofrer críticas de que não tentou “ajudar”.