A mudança da rotina urbana depois de um fim de semana de pânico

Fátima Lacerda

25 de julho de 2016 | 19h16

Bundeskanzleramtn

Poucos mais de 24 horas do meu último artigo, ele já se mostrava obsoleto, ao contrário das bandeiras da UE e da Alemanha hasteadas a meio mastro no jardim da Chancelaria Federal, o local de trabalho de Angela Merkel. 

Depois de Würzburg e Munique, a região da Baviera ainda continua sobre ataques terroristas e de pessoas com problemas psíquicos como o sírio (27) que teve seu requerimento de asilo rejeitado pelas repartições alemães e estaria prestes a ser deportado de volta para a Bulgária, onde seu requerimento teria sido aceito, assim a notícia divulgada nesta segunda-feira (25) pelo Ministério do Interior. O porta-voz do órgão também expressou falta de entendimento porque a deportação ainda não havia sido efetuada. Também ficou claro que o refugiado esteve mais de uma vez sob tratamento psiquiátrico. O jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung publicou divulgou hoje que o autor do atentado de Ansbach, na região da Baviera (sul do país) teria cometido duas tentativas de suicídio. Com essas informacoes, não há como não questionar porque desta pessoa passou desapercebida pelos assistentes sociais, teraupeutas?

O procedimento (burocrático) de deportação

O deferir ou não de um requerimento de asilo político é de âmbito federal. Já a deportação, de âmbito regional, das Länder, assim são divididas as regiões, ao todo em 12, no âmbito político-administrativo. As Länder possuem autonomia no âmbito da educação, ciência assim como em abacaxis jurídicos  e de infraestrutura.

O outro lado da moeda é quando um refugiado tem seu pedido negado, pode contratar um advogado de justiça gratuita e esticar o processo por um longo tempo. Juntando os fóruns sobrecarregados de processos, é bem factível ganhar um bom tempo. Guardando as devidas proporções, é como alguém que recebeu aviso prévio continuar indo trabalhar durante 3 meses. A confiança já foi pro beleléu, a perspectiva de ascensão nesse local de trabalho também, a pessoa foi neutralizada dentro do ambiente de trabalho, em suma, o clima fica insustentável. Na questão de refugiados há ainda vários agravantes: o estado psíquico devido à experiências traumáticas no país de origem assim como na viagem, muitas delas que duram semanas.

O que mudou no cenário urbano de Berlim?

– Os guardas que fazem patrulha ao redor da chancelaria federal em formato cosme e damião, agora se tornou um trio.

– A presença de carros de polícia ao redor do Portão de Brandemburgo e na equina da Embaixada da Inglaterra, que fica atrás do Hotel Adlon aumentou em 50%.

– Os guardas que vigiam o portão da Chancelaria Federal ficaram mais de olho na minha bicicleta do que antes, quando ali perto, estacionei para fazer o ritual de Walking de sempre. Desta vez ele me acompanhou com os olhos até eu sumir e entrar na rua da esquerda, à beira do Rio Spree.

– As bandas de música e danças de Hip Hop em Alexanderplatz, centro de convulsão e permanente intervenção urbana dimuiram consideravelmente.

– Os berlinenses, acostumados com guerras, revoluções, fome e frio não conseguiram colocar a capa de guerreiras e guerreiros e “agora mesmo que vamos teimar em nossos direitos republicanos”, optando pela teimosia de ir e vir.  Nem o calorão de 31 graus sacudiu com a cidade. Quem já esteve em Berlim durante o verão sabe que a cidade “sai do sério”, “tira as calças pela cabeça” (em linguagem metafórica), abre janelas e sai descalça pela vida. E ele está ai, mas agora tudo mudou.

– Apresentadores interrompem suas férias de verão para produzir programas sobre a tentativa de Golpe na Turquia, sobre Munique. Enquanto o programa “Hart aber Fair” (Duro mais justo) er apresentado na noite de domingo (24) na ARD, um conglomerado de emissoras de rádio e TV, o ataque acontecia em Ansbach. 

Não há mais tempo para o luto

O discurso comedido e cheio de solidariedade feito pela chanceler Merkel às 14:30 horas de sábado (23) horário local também já se tornou obsoleto. Agora não é “só” Nice, Würzburg, Munique, agora se une á lista a cidade de Reutlingen, perto de Stuttgart na região de Baden-Württemberg. Um sírio de 21 anos, totalmente fora de controle, saiu com a machete ferindo pessoas além de matar uma mulher grávida, funcionária de uma loja que vende o sanduíche e se chama “kebabs”. No final da noite, horário local, foi a vez de Ansbach, o terceiro na dinâmica de sucessivos acontecimentos do fim de semana.

Se o alemão tem uma religao, é de cultivar rituais. Esses podem ser de tomar o café da manha durante horas na manha de domingo, colher cogumelos na floresta na estação de outono ou celebrar a tristeza, não com a dialética carioca de “nada como um dia atrás do outro”. O alemão quando sofre, sofre mesmo. Agora não há nem mais tempo para o luto e para tentar administrar o inexplicável. Decerto que agora a imprensa alemã se encontra na “orgia” de especulações, de porque, como se fosse possível retroceder no tempo. Falta uma análise meticulosa em muitos meios de comunicação que, por um lado, querem oferecer um sentimento subjetivo de segurança para a população e evitar o pânico. Por outro lado, querem manter as pautas atuais, sempre acrescentando algum detalhe, seja ele mínimo, num jogo sórdido e não menos indigno com a profissão.

A coragem dos habitantes de Munique

Na edição de domingo (24) o jornal Süddeutsche Zeitung, com matriz em Munique elogiou os habitantes da cidade com a manchete: “O desprendimento dos muniquenhos”. Porém todos sabem que isso é algo subjetivo e que instiga um sentimento de altivez e até mesmo teimosia em no afazer de ir e vir que nao é fato. Meus amigos e colegas que vivem na metrópole bávara continuam consternados com os diversos ataques, ao todo 4, desde a última segunda-feira. A motivação que levou ao ato, seja ele de cunho terrorista ou por um distúrbio psíquico ou mesmo por um desespero do qual amplitude, nao se pode imaginar, o resultado é que agora rege o medo. Paleativos da mídia que “nao podemos nos deixar intimidar” parece licao para aprender de cór para a próxima prova e que logo será esquecida. É fácil pregar o despreendimento, mas como mencionou Angela Merkel em seu pronunciamento sobre o ataque de Munique: “O que nos deixa mais consternados é que poderia ter sido cada um de nós nesses lugares”.Enquanto isso, os populistas de direita, especialmente, o partido que se jura ser uma “Alternativa para a Alemanha” continuam vomitando seus venenos e botando lenha na fogueira. Os partidos da bancada de oposicao, atualmente mínima na câmara baixa do parlamento, o Reichstag, entre eles o partido esquerdista “Die Linke” culpou o governo da chanceler por “falta de mecanismos de integração social” dos refugiados.