A odisseia de se chamar “Fátima” numa Alemanha cada vez mais avessa ao Islã

Fátima Lacerda

04 Maio 2016 | 16h48

Num período pós-globalizado de Clash de religiões e, na Alemanha, a onipresente discussão se a religião muçulmana faz parte integrante da sociedade, se chamar “Fátima” pode ser algo muito problemático. Para dizer ao mínimo.

Na Alemanha já rege uma aversão a nomes “exóticos”. Foi comprovado que CV’s enviados com nomes de “origem estrangeira” dificilmente são convocados para entrevista de emprego, divulgou uma pesquisa. Os mesmos currículos, porém com nomes mudados para nomes clássicos de alemães como Mueller, Schmidt, Zimmermann ou Schuhmacher foram enviados para as mesmas empresa e sim, chamados para a entrevista. Isso é só uma parte da moeda do que é ser estrangeiro na Alemanha: o nome. Independentemetente de quantos anos você vive no país, o nome será sempre o maior determinante para alguém, em âmbito pessoal, na sala de espera do consultório médico ou na reparticao pública. Outro critério é o classificar dos estrangeiros em vários níveis: o americano é um estrangeiro de caráter Vip, o da Dinamarca, da Suécia ou da Noruéga, um europeu de sangue azul, um “europeu do norte”. O espanhol já cai para um nível médio na escala. O iraquiano já é suspeito, o turco também e o brasileiro goza de uma simpatica que já vem de muitas décadas por parte dos alemães e que talvez ainda ainda tenha se tornado maior depois da tragédia do 7×1, mas o contingente de tolerância é limitado e concedido operativamente.

Já perdi as contas de quantas vezes evangélicos já tocaram a campainha do prédio por ali ver um nome hispânico para me apresentar a bíblia, me trazer palavra de Deus, me convidando para ir para igreja “no próximo domingo”, até que eu dei um basta nas visitas inesperadas e  importunas que se estenderam por mais de 3 anos..”Tá tudo certo comigo e Jesus. Não volte mais!”. Logo numa cidade convencidamente ateia como Berlim! Ninguém merece!

Falar ao telefone e (é preciso) soletrar o meu sobrenome é uma tarefa que exige incomensurável paciência. “Lacerda”, .com K?”, “Não, com C!”. A Alemanha é um pais tão organizado que existe um código para soletrar nomes. Vai assim: F, de Friedrich, B de Berta, C, de Cesar. Quando eu preciso soletrar, somente” o Lacerda, já que meu nome continuou brasileiro mesmo depois de ter firmado laços de matrimonio com um cidadão  alemão, o cabeçalho vai assim: L, de Ludwig, A, de Anton, C, de Cesar, E, de Emil, R de Richard, D, de Dora e A, de Anton. Laaaaacccerrrdaaa” e quando eu tenho que soletrar o sobrenome completo, bota ai 3 minutos até tudo ficar “resolvido”. Pra garantir, eu repito o nome todo de uma vez só. Uff! Quando a ligação não esta boa, isso pode causar na repetição de um vocabulário insano, chega-se no limite de paciência. Quando reclamo disso com meus amigos de nomes alemães, eles nao se fazem de rogados: “Ahh, Schmidt eu também tenho que soletrar!”. “Schmidt com dt ou tt (Schmitt), ou Schmid?”. Meyer, por exemplo implica uma chateação bem similar ao meu nome “exótico”. Meyer, com y, com ier (Meier) ou com a, Maia?” Alemanha, eta o país com fetiche pelo soletrar! Até mesmo o verbo soletrar, buchstabieren,  já da uma palinha da ciência meticulosamente praticada por aqui. Muito me surpreende que a qui a competição de “spelling” não tenha a mesma popularidade que tem nos EUA.

O bom da parte do meu sobrenome, o “Lacerda”, é que ele me rotula num terreno espanhol, mediterrâneo, bem mais fácil para o entendimento dos eurocentristas. Como e bom estar no Brasil e, ao ser perguntada sobre meu nome, a resposta “Fátima” não causar nenhum estranhamento. Tem Fátima, Fátima Cristiana, Maria de Fátima e como eu, Fátima Cristina. Até hoje eu não me conformo porque meus pais não escolheram o Cristina. Como teria me facilitado a vida!!! Eles não poderiam adivinhar que um dia eu iria sair pelo mundo, viver na Alemanha, um país eurocentrista? Em nenhum outro ligar da Europa, o nome “Fátima” causa tanto estranhamento como no pais da cerveja. “Fatima…”, mas Fátima é de proveniência turca, iraquiana”?”. ‘Não”, respondo, com uma paciência de um monge tibetano enquanto já inicio a leitura daquela que eu chamo de cartilha para eurocentristas de plantão:” Fátima é o nome de uma cidade em Portugal, onde em 1917, a virgem Maria apareceu para as criancinhas Lúcia dos Santos, Jacinha Marto e Francisco Marto. Olhares arregalados e perdidos é a reação sobre a minha narração. A outra versão, seguindo a minha cartilha, “e que Fāṭimah bint Muḥammad era a filha mais velha do profeta Mahomed, essa sim, remete a religião muçulmana” Tentando suavizar o clima deprê e de confusão cultural religiosa, eu mando:” No Brasil tem um monte de Fatimas!” e com um sorriso para quebrar o gelo,e me livrar da linha de fogo, eu anuncio:” Eu sou Fátima Cristina”, o que me remete para o circulo de cristãos e por isso, um ser insuspeito. Outros ainda menos informados, ao ouvirem “Fátima”, seus pensamentos e fantasias se remetem para as cenas das 1001 noites ou ao Alibabá e os 40 ladroes.

Se a Creuzette e a minha vó não tivessem travado batalha sobre se eu obteria o nome de Fátima ou de Cristina, décadas depois, já em solos alemães, eu não viveria esse perrengue, ainda mais num período pós-globalizado, onde o terrorismo leva à demonização da religião muçulmana como uma ameaça a paz mundial e a desconfiança e uma característica que já vem no DNA dos alemães.

Na manhã de quarta-feira (03) frente a correspondentes estrangeiros radicados em Berlim, Beatrix von Storch, membro do parlamento europeu e a voz de grande impacto midiático do partido populista Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla) que vem angariando eleitores desiludidos com os partidos estabelecidos, alegou: “Não somos contra o islamismo como exercício da religião, mas contra o islamismo como plano de assumir o controle do mundo”, alegou ela como se tivesse discursando para seus eleitores, seguidores que agora com o considerável aumento de popularidade angariado pelo partido especialmente no circo midiático, “finalmente” conseguem sair do armário.

Na convenção nacional realizada no último fim de semana na cidade de Stuttgart, sul do país, AfD regulamentou seu caderno programático que inclui, entre outros, a proibição de burcas de corpo inteiro, pacotes de ajuda financeira para países membros da UE, exige o fechamento e o rígido patrulhamento das fronteiras externas do continente e, sem economizar polêmica, uma ainda maior segregação da sociedade, especialmente entre muçulmanos e não muçulmanos. Na pior das hipóteses, frente a tanta aversão, com essa medida o partido estará instigando as forças de potencial de radicalidade e que se escondem nas mesquitas, sejam elas no bairro de Neukölln, no sul de Berlim ou no bairro Deutz na cidade de Colônia, ambos polos urbanos com grande concentração de turcos, iraquianos, iranianos e afegãos. Há também procedimentos de recruta em jovens predispostos a radicalização. O diálogo com a comunidade muçulmana foi rejeitado pela esmagadora maioria dos membros do partido. Mesmo que haja um convite feito pelo Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha, tudo indica que a AfD vai deixa-Los na geladeira. Ao invés do diálogo direto, fica-se mandando recadinhos pela mídia e esquentando a polêmica ao mesmo tempo que se afasta da opcao de um diálogo racional e comedido. Mas quando se trata do Islã, o comedimento na Alemanha (e atualmente em inúmeros países da UE), é impossível. O nome “Fátima”, para os alemães remete imediatamente para o Islã (exceto a região católica da Baviera), algo que não acontece em países como a Áustria e a Suiça e, por motiviso óbvios, muito menos na Itália e na Espanha. 

Ironia do destino

Minha vó, criada em convento de irmãs francesas na Rua do Matoso na Tijuca, RJ, exigiu que eu fosse chamada de “Fatima. Já Creuzette, exigiu o nome  “Cristina”, sendo que a vida inteira ela me chamou de ”Fatinha”, algo que só ouço de quem me conheceu na infância. “Fátima” só ecoava da boca da minha Mãe quando uma bronca estava a caminho…

Porem foi minha vó, que a vida inteira, foi a única pessoa da família que me chamou de Cristina. Quando eu ligava da Alemanha e me apresentava como Fátima, ela,  indagava? “Fátima, do Antônio?” (a então esposa do meu tio). “Fátima, da Alemanha!”. “Ahh, Cristina!”.