A posse de um presidente e o terror nosso de cada dia

Fátima Lacerda

23 de março de 2017 | 16h44

  VereidigungSteinmeier©AP

Em 2009 depois das eleições gerais o partido mais antigo da Alemanha estava no chão, penúria caracterizada por uma perda vertiginosa de votos, de membros e  credibilidade. Desde então Partido Social-democrata (SPD, na sigla), fundado dado por Walter Scheel vinha amargando sua existência como parceiro Júnior num governo onde a manda-chuva atende pelo nome de Angela Merkel, aquela que vem mostrando visíveis sinais de cansaço de governar, perda de influência dentro e fora de casa como também perda de aliados. 

Agora o SPD quer virar o jogo e tem tudo para conseguir fazê-lo nas próximas eleições de setembro. A eleição do também social-democrata Frank-Walter Steinmeier pode ser um termômetro para o asfaltar de uma nova direção política na Alemanha, mesmo que o cargo de presidente, a priori, não tenha poder de decisão e é obrigado a ser apartidário.

Insanna dinâmica política

O dia de quarta-feira (22) era para ter um artigo sobre a posse do Presidente Frank-Walter Steinmeier, ex-Ministro das Relações Exteriores e que assume o cargo depois que vários candidatos de Merkel disseram: “Nein!”. Como ninguém queria, os social-democratas conseguiram a nomeação do político com mais percentual de simpatia dos social-democratas, na época.

Cheguei bem cedo ao prédio do Reichstag, que habita o parlamento alemão. O movimento de policiais no estacionamento ainda era pequeno, mas o clima de euforia silenciosa já estava estampado no rosto dos funcionários. 

A constituição alemã prescreve que no dia da posse do presidente, as câmaras alta (Bundesrat) e baixa (Bundestag) devem se reunir para fazê-lo.

Para evitar os Hackers, o prédio do parlamento não oferece Internet sem fio. Na tribuna da imprensa nem mesmo tomadas.

O discurso de abertura foi do presidente da casa, Norbert Lammert, quem eu teria preferido como presidente. Steinmeier e um diplomática eficaz e necessário em época de tal convulsão em que se encontra o mundo, que se mostra, por vezes na forma de num cenário apocalíptico.

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A cerimônia de duas horas e o coquetel abaixo da torre de vidro criada pelo arquiteto britânico Sir Norman Foster foi sublinhada de euforia, não faltando os protagonistas Gauck (o ex-presidente) e o recém-empossado, Steinmeier. O cumprimentos e os pedidos de Selfies ofereciam um frescor hipertemporário (e de uma forma também aparente, já que os seguranças à paisana e fardados estavam por toda a parte) ao terror nosso de cada dia.

Enquanto Sigmar Gabriel, o Ministro das Relações Exteriores partia em viagem para a Grécia, para mais um encontro de caráter cosmético com delegações daquele país, em Londres, a capital inglesa era, mais uma vez, vítima do terror. De novo, os #Hashtags #PrayForLondon. Vimos, de novo, o Portão de Brandemburgo, cartão-postal mór de Berlim, iluminado, em sinal de solidariedade contra o Terror, com as cores da bandeira da Inglaterra. De novo, os tuítes de Chefes de Governos expressaram sua solidariedade. Outros, já armam plano para como tirar capital político de mais uma tragédia.

O apelo de Steinmeier feito durante o seu discurso de posse, para que o presidente turco “acabar de vez com as comparações nazistas, respeitar o Estado de Direito, a Mídia livre e a liberdade de imprensa” e soltar o jornalista alemão-turco Deniz Yücel (noticiado no Blog) e que pareceu de cunho corajoso para quem acaba de assumir um cargo sem força executiva, soa depois da notícia do atentado em Londres como uma conto da história da carochinha ou um momento de inaceitável ócio político. No dia 27,  Steinmeier faz sua primeira viagem ao exterior. A primeira parada é Paris, para o encontro com o (ainda) presidente François Hollande.

O mundo ocidental terá que entender, provavelmente de forma ainda mais dolorosa, que a teimosia de “nós não vamos deixar nos intimidar” é, senão pueril, um ato de desespero para a parte do mundo que não tem um Plano B. Tabus civilizatórios são quebrados, o pos-factual faz cabeças de políticos rolarem.

A “Casa Europa” precisa se livrar dos burocratas de Bruxelas e dar contemporaneidade aos seus objetivos, respeitando o componente multinacional. Caso contrário, a volta ao nacionalismo da forma mais radical justificado por sentimento de uma identidade roubada, é inevitável.

No “Grande Debate” (Le Grand Debat) dos 5 candidatos à presidência da França, no bloco “Que tipo de presidente você quer ser?” a candidata do Front National, Marine Le Pen, expressou em uma frase o que muitos europeus pensam e sentem: “Eu não quero ser Vice-chanceler de Madame Merkel”, expressando a sua aversão ao que a chanceler alemã simboliza no grupo dos 27 (já subtraindo o Reino Unido).

Daniela Schwarzer, cientista política da Sociedade Alemã de Política Externa (Deutsche Gesellschaft für Auwärtige Politik), em encontro com jornalistas da imprensa estrangeira em Berlim na manhã de terça-feira (21), ratificou que “a linha do governo alemão é manter a UE com 27 membros” para que o resultado do BREXIT “não desencadeie um efeito dominó” em outros países da União, o que deixa claro, que Merkel aguarda ansiosamente o resultado das eleições na França.

Emmanuel Macron, do partido En Marche! foi o único membro do debate que expressou, claramente, a intenção “de uma estreita parceria da França com a Alemanha”, as possibilidades infinitamente poucas que role um Vale a Pena Ver de Novo do “Eixo Alemanha-França” que, outrora, já segurou muitos terremotos políticos no continente europeu.

A eleição, a posse e o discurso de Frank-Walter Steinmeier foi somente uma pequena pausa na convulsão da “Casa Europa” e na crônica crise de identidade do mundo ocidental em teimar em valores obsoletos que já foram por água abaixo há muito tempo. Outros episódios virão.

 

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