“Que horas ela volta?” é destaque na programação de cinema ao ar livre

Fátima Lacerda

18 de julho de 2015 | 11h29

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Uma das mais esperadas atrações do verão berlinense é a temporada de cinema ao ar livre, que acontece entre junho e setembro.

Assistir uma coletânea de filmes cult, filmes novos e se aventurar em novas descobertas e tudo isso ao ar livre! Um programaço!

Mini-Berlinale

A programação do Cinema ao ar livre (Freiluftkino) no bairro leste de Friedrichshain é a melhor pedida de todas nesse formato. Patrocinado pela emissora local RadioEins, os lugares são sempre muito cobiçados e a garantia de filmes de alta qualidade, é um diferencial.

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Tradicionalmente, a Berlinale entra na programação com 4 filmes premiados no início do ano. Entre os 4 escolhidos, o horário nobre deste sábado, às 21:30 Horas (horário local),  é do filme “Que horas ela volta?”, vencedor do Prêmio de Público da Mostra Panorama, a segunda mais importante do Festival e A plataforma para o cinema autoral internacional. Vale mencionar, que o ganhador do Urso de Ouro, Táxi, do diretor iraniâno Jafar Panahi, foi projetado na noite de sexta-feira (17), fator supreendente, já que era de se esperar que o ganhador do maior prêmio tivesse o melhor horário.

Encontrar o melhor lugar debaixo do céu aberto

O cinema ao ar livre e dentro de um parque oferece 1.500 bancos com encosto, 300 lugares em mesas corridas e, para quem chegar tarde e mesmo assim quiser encarar, tem a grama, para sentar, deitar ou fazer yoga enquanto a Jéssica leva à loucura a patroa por querer daquele sorvete, o reservado ao Fabinho e não o fajuta com sabor de baunilha.

O meu momento Dejá vù: quando Val pega do congelador uma vasilha de gelo e a constata vazia. Com a vasilha na mão em pose dramática, ela pergunta: Quem é que faz um negócio desses? Quem é que coloca ums vasilha vazia na geladeira?!”.

O momento mais cool: A camisa dos Ramones sendo pendurada no varal.

As críticas na imprensa alemã

Regina Casé é simplesmente perfeita para esse filme. Suas demonstrações de euforia são contagiantes”, atesta o portal FILMSTARS.

Já o portal Kino-Zeit (Hora de cinema), vai mais longe no elogio:

Esse filme tem de tudo para se transformar no preferido do público: humor, tragédia, lágrimas, suspense, mas acima de tudo, um calor humano que você pode levar pra casa”.

No ultimo dia da Berlinale, o Berlinale Kinotag, é o dia em que os berlinenses se apossam do cinemas, não “somente” pela ânsia de ver um filme que provavelmente ou certamente não entrará nos circuitos (e mesmo se estiver  claro que ele vai entrar, a fissura é mesma). O verdadeiro motivo é o pânico frente ao final de 10 dias onde o cinema é protagonista das nossas vidas e uma segunda-feira, pior que isso, sem cinema. Todo ano a gente passa por isso. A tal Segunda-Black Box.

Na edição desse ano, a equipe do complexo CinemaX teve que disponibilizar 3 salas além do anteriormente planejado para a exibição de “Que horas ela volta?” e todas tiveram lotação esgotada com a fila do gargarejo totalmente preenchida.

Também eu, movida pelo pânico fui, já pela terceira vez, curtir o filme, que segundo a diretora Anna Muylaert, foi um projeto que ficou na gaveta durante muitos anos. Talvez sejam esses, de longa e diversificada dramaturgia, os melhores projetos. Aqueles que precisam do tão famigerado “tempo na gaveta”, incluindo período de incertezas, baques desencorajantes, vento contra e, claro, e do medo do fracasso que acabam sendo importantes ingredientes, assim como ter maturidade para esperar o momento certo. E esse momento para o “Que horas ela volta?” foi o início de 2015. O filme já chegou em Berlim premiado no Sundance e ainda levou o Prêmio do Público e já saiu de Berlim vendido para muitos países.

Anna Muylaert conseguiu cativar os alemães : os cinéfilos e os que frequentam o cinema quando devido ao eco na imprensa, são motivados a fazê-lo. Não através do intelecto, como eles preferem, mas através da humanidade encorporada pela brilhante atuação Regina Casé. Isso é especialmente bacana porque toda a hierarquia podre de uma classe alta de algum bairro chique de São Paulo é uma realidade desconhecida na Alemanha. Ainda mais em Berlim, que contrariando a rigidez prussiana, se mostra, sempre, contestadora de qualquer tipo de hierarquia e da resultante exclusão social. Num país onde políticos abdicam de motorista para irem pro trabalho de bicicleta ou de metro e onde o modo de vestir não diz nada sobre o status social, as leis não escritas, mas vigentes na burguesia brasileira, são fatores desconhecidos por aqui.

Na cena da piscina, quando a Val finalmente entra e faz questão de compartilhar com a filha, é o momento de libertação das algemas sociais de toda uma vida. A cena final, no momento em que ela abre o jogo de café (aquele que a Madame guardara para “usar em ocasião especial”) e já na cozinha de sua casa, mostra a ratificação disso já cercado de uma deliciosa leveza, daquele que se sente, quando se acabou de deixar um grande peso para trás. Nessa cena, e não só nela, eu vi gente do meu lado, discretamente, pegando o lencinho de papel para limpar as lágrimas, alternadas com libertadores gargalhadas, alternância alinhavada com maestria e em doses perfeitas por Anna no roteiro. Vi também gente “lendo” os créditos até o final, para dar tempo do avermelhado do rosto, diminuir.

Tradicionalmente, essas seções tem a presença de um dos curadores da Berlinale, para dar a ocasião o caráter oficial que ela merece. Com a renomada distribuidora, Pandorra, o filme terá amplo acesso aos cinemas a partir do dia 20/08, dia do lançamento em toda a Alemanha. Mesmo que o cartaz do filme em alemão exiba a palavra Mãe de forma incorreta, isso não impedirá ninguém de conferir essa obra-prima autoral. “Verão com a Mamã” é o título em alemão.

Que horas ela volta?” terá a exibição da cópia usada na Berlinale, ou seja, original em português e legendas em inglês. Sorte a de quem vai assistir. Com a poderosíssima indústria de dublagem ainda regente na Alemanha em tempos de pós-globalização, seria um sacrilégio abdicar da voz de Regina Casé e perder grande parte da brilhante interpretação. Quando vejo o trailer do “Esquenta” me doi o desperdício do imenso talento de atriz da Casé, talento esse que já me havia impressioado no curta-metragem “Lá e Cá” (1995) da diretora Sandra Kogut.

Na coletiva de imprensa do filme depois da exibição para a imprensa, o interesse era fraco. A esmagadora maioria era da imprensa brasileira, mas agora, no verão berlinense o filme ganha o palco, digo, a tela, dia e horário adequados.

Happy End!

 

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=Dffs46VCJ_g

https://www.youtube.com/watch?v=ZNq_MPtDvVE

http://www.freiluftkino-berlin.de/eine_woche.php

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