A brutal solidão berlinense é o retrato do descaso, da indiferença e de biografias rasgadas

Fátima Lacerda

14 Julho 2018 | 10h38

©DPA

La Solitudine”, musica conhecida na voz da cantora italiana, Laura Pausini, fala de dois colegas de escola e, o que tudo indica, o sentimento avassalador do primeiro amor. O lamento feminino fala de Marco, que mudou de cidade porque seus pais foram transferidos e a ausência dele nas manhãs antes das aulas causa Paúra: “Não e possível dividir a vida de nos dois. Te peço, me espera meu amor”. Os italianos sabem falar de amor nas canções, os brasileiros também, os alemães não. Uma sociedade se espelha também na música, nas canções, nas trilhas sonoras de nossas vidas.

Quem vive em Berlim dificilmente encontrara o amor na percepção que se tem abaixo da Linha do Equador. Quem vive em Berlim irá encontrar solidariedade no âmbito do politicamente correto. Poderá encontrar empatia, ao resolver pepinos nas repartições ou nos consultórios médicos, mas amor como um sentimento que te faz passar dos limites, é improvável, mesmo porque o quesito LIMITE define todas as formas de relacionamento aqui nesse país. O músico Crioulo já atestou que não existe amor em SP. Também nesse contexto, as duas metrópoles dividem semelhanças.

Modus Vivendi Berlinis

Em nenhum outro lugar da Alemanha o numero de pessoas que vivem sozinhas é tão grande como em Berlim. A solidão na capital se da, por vezes, por escolha consciente ou por circunstâncias que vao se delineando ao longo do tempo. A família do Christian, ele o terceiro de cinco irmãos, é uma exceção de tudo que já presenciei e desafia a cultura da solidão que rege nesse país.

O numero de festividades familiares durante o ano é farto. Sempre com muita antecedência, se marcam os fins de semana da agenda familiar. O próximo encontro será em setembro. A filha mais jovem de Martin, meu cunhado e o filho mais velho dos ao todo cinco, irá se casar. Mas tem o aniversário do Pai, o da Mãe, um fim de semana pré-natalino e desses cinco caras e seus “desdobramentos” algo sempre esta planejado. Em 30 anos de Alemanha eu nunca vi uma família que se encontra tão frequentemente e quando não, estão em contato no grupo família do What’s App. Este cenário e da cidade de Hannover. Os cinco filhos moram espalhados pelo país e precisam de uma boa logística e de preparação, para que a intensa agenda possa ser cumprida.

Um outro cenário, bem típico de Berlim, foi divulgado na mídia nos últimos dias. Uma triste história, pela própria tragédia em si, mas pelo abandono que ela exibe.

No dia 12/03, um homem de 74 anos saiu para correr no parque perto de sua casa no bairro de Wilmesdorf, bem no oeste de Berlim. Durante o Cooper ele teve uma treco e desmaiou. Passantes chamaram a ambulância e ele foi levado para a o hospital. Consigo ele levava somente um molho de chaves e a quantia de 15 euros. Nenhum documento que levasse à sua identidade. Pior do que isso. Ninguém o procurou ou fez queixa por desaparecimento na policia. Foi então que a policia berlinense teve que colocar em prática um meticuloso plano para conseguir uma pista do misterioso homem. Quase quatro meses se passaram e ninguém dava falta do paciente no hospital da Charitè.

Estratégia investigativa

Foram feitas várias copias do molho de chaves que ele carregava consigo no momento do desmaio. Aspirantes de policiais saíram pela vizinhança de do homem e tentaram entrada em vários prédios. Sem sucesso. Frente à falta de êxito na investigação, a policia apelou para o Twitter, fotografando o molho de chaves e pedindo ajuda de quem, eventualmente, viesse a reconhecê-lo. Um morador da mesma vizinhança leu uma reportagem sobre o caso misterioso num jornal local e reconheceu o molho de chaves. Vale mencionar que é de praxe em Berlim o uso de uma chaveada abrir o portão do prédio e que se chama Berliner Schuessel, uma chave cumpridona que tem um adicional de bronze para acoplá-la no molho de chaves devido ao seu formato inusitado. Essa chave é de tempos antigos mas ainda muito usadas em prédios construídos antes da II Guerra, denominados de “Construção Antiga”. O prédio onde eu vivo foi construído em 1910 e ainda mantém a tradição da tal chave.

David Bowie, morador de um prédio das antigas, também tinha uma chave dessas e que foi exibida no “Pavilhão Berlin” durante a exposição em 2014, a mesma que passou antes pela Pauliceia.

Os policiais foram até ao prédio e tiveram sucesso: a chave da porta de entrada funcionou. A chave do apartamento, também. “O tempo não havia passado. Lá tinham as meias de inverno e o casaco de chuva” declarou Uwe Dziuba, chefe da equipe de investigação de desaparecidos, ao entrar no apartamento. O RG e o cartão do plano de saúde também foram encontrados. Para a parte burocrática e referente ao pagamento de despesas hospitalares, a investigação obteve sucesso na quarta-feira (11/07), depois de quase exatos 4 meses, o mistério foi desvendado, o que dará a equipe de Dziuba um grande reconhecimento e também uma esperança para quem vive sozinho e já é da terceira idade ou em algum momento de suas vidas (por mais diferentes razoes) perdeu a conexão do convívio social.

Sobre prisma da solidão, real e experimentada pelos habitantes desta cidade, esse triste quadro do homem que continua em coma induzido, mostra um retrato que exibe a solidão brutal em que vivem muitas pessoas nessa cidade. Por escolha ou por circunstâncias inerentes a elas. De uma forma ou de outra, essa solidão horrenda uma das principais facetas da cidade.

O tabloide Bild se manteve fiel à seu cunho sensacionalista e fotografou o homem entubado e desacordado. Ao consultar uma psicóloga sobre o por que de uma situação como esta como uma pessoa pode ficar quatro meses sem ser procurada por amigos e familiares, a “psicóloga” fornece dicas como “conversar com o vizinho” e ainda argumenta: “Se você não bate na porta do vizinho para pedir um pedacinho de manteiga ele nem vai saber que você existe”. Até parece! Se em Berlim, você, de supetão bater na porta do vizinho ele pode se sentir tão incomodado que pode até chamar a polícia. Tudo bem que esse é um exemplo extremo, mas ele existe. Ao pedir manteiga na casa de um vizinho, mesmo se ele foi conhecido, irá gera um imenso desconforto a ele.

O problema é, decerto de natureza cultural e urbana. Berlim é a cidade dos solteiros e dos sozinhos. Porém um olhar mais atento constatará algo bem mais profundo: a isolação social e esse fenômeno atinge todas as gerações e todas as classes sociais. Decerto que as pessoas mais carentes têm menos opções, mas quem acha que o fenômeno da solidão e do abandono só atinge a geração Terceira Idade (fase da vida que inicia aos 60 anos), se engana.

Os Berlinenses ainda nãoconseguiram encontram um meio termo saudável, entre a cultura de denunciação dos tempos do Nacionalsocialismo de Hitler e da cultura instigada e doutrinada pela polícia secreta da Alemanha Oriental, a STASI e exercita a cultura da total indiferença pelo outro, num cenário urbano contemporâneo.

Berlim ainda está muito longe de encontrar um saudável meio-termo, composto de uma preocupação com o outro , um comedido senso de responsabilidade pelo que se passa ao redor e empatia.