A solidão das mulheres alemães e a crônica de um “aniversário feliz em Berlim”

Fátima Lacerda

25 Maio 2016 | 20h15


O acaso quis que eu, hoje, fosse testemunha de uma de inúmeras situações que ratificam como as mulheres alemães se acertaram com a solidão,  as mulheres que caíram na “armadilha da emancipação”.

A solidão existe em toda a parte e, com certeza, não “só” as mulheres, seja em cidades pequenas ou grandes, sofrem com ela. Porém existem características determinadas nuances culturais na solidão Germania que a diferem, principalmente, da solidão quando vivida e sofrida do lado de baixo do Equador.

Nas terras daqui, a solidão, a prática absoluta de “ter meu sossego” é algo que é injetado culturalmente desde muito cedo. De um lado, exigido, bem vindo. Aquela cena do filme “Dirty Dancing, quando o Patrick Swayze está ensinando os primeiros passos para patricinha politicamente correta”: “Até aqui é seu espaço. Até lá é o meu espaço, o meu terreno” descreve bem a percepção de espaço físico e emocional. O meu, o seu”. Uma característica que abrange quase todos os âmbitos de relacionamento na Alemanha é a falta de vínculo, a falta de uma aliança para pedir socorro quando a casa está caindo.

Ao embarcar para o Brasil recentemente, encontrei no avião trajeto Berlim Madri, uma amiga dos tempos de escola, logo que cheguei em Berlim. Casada há 18 anos com um alemão, ela me contou, não sem um grande consternação na voz e na expressão do rosto, sobre a crônica falta de vínculo entre ela e o marido.. A outra brasileira me confessou que ficava muito triste, quando dizia para o marido alemão que iria sair para ira a tal lugar. Ele, com a percepção de espaço e de não tolir a liberdade da esposa, dizia sempre: “Vai, vai se divertir!”. Ela confessou que muitas vezes desejou e sonhou que ele desse uma de latino e se mostrasse o ativo e não complacente com o que fosse que ela sugerisse: “Hoje a gente vai ficar em casa, assistir um filme” ou que pelo menos questionasse, mostrasse interesse ou até mesmo se oferecesse para ir junto com ela. Aquilo que pra ele era respeitar a liberdade de ir e vir, o espaço dela, era percebido pela brasileira como a pior das punições: a indiferença.

O relacionamento tem sempre que estar sob uma nuvem de justificativa, precisa de um plano, uma meta. Não é difícil presenciar relacionamentos que, como uma casa abandonada, possuem uma bela fachada com um terreno baldio atrás. Precisa-se da execução de um plano A, uma planilha, um organigrama no formato que se conhece no âmbito corporativo: Cada um da equipe sabe o que tem fazer para que a “máquina” não enguice, não trave e o fator tempo seja economizado. O objetivo mór é evitar conflitos. O que se vê atrás da casa “para inglês ver” é um verdadeiro abismo emocional que, na pior das hipóteses, vira um terreno vegetativo. De toda a forma é preciso evitar o DR. Ele custa muito tempo e não traz resultado. Com “delongas choramingueiras”, a conta não fecha. É preciso se livrar desse “peso morto” e dar seguimento ao plano e seguir confundindo satisfação e felicidade com o percentual de eficiência que o plano mostra no dia a dia.

O outro lado da moeda

O outro polo desse que eu teimo em chamar de business plan é a dialética do “dia ensolarado”. Nada de baixo astral. Pra isso é preciso um cenário artificial e “bonitinho” para manter as aparências, um processo que se executado com disciplina prussiana vai minguando cada vez mais a capacidade de destilar e trabalhar emoções.

O sexólogo e escritor suíço, Max Frisch (1911-1991), muito popular na Alemanha , afirmou: “Se você na hora do prazer ficar pensando se seu vizinho irá ouvir, aos poucos você mesmo irá minguar a sua própria capacidade de sentir prazer”, criticando o posicionamento de exercer o total controle, de andar sempre com o freio de mão puxado.

Uma anti-tese?

A escritora americana de raízes húngaras Clarissa Pinkola-Estés descreve em seu livro “A mulher loba” (Die Wolfsfrau) uma cena vivida por uma jovem menina que é metáfora para como, segundo a autora, muitas mulheres administram o a sua dispensa emocional: “Na rua e sofrendo muito frio, ela só tem uma caixa de fósforos contendo 3 palitos. Ao invés de usá-los para esquentar os dedos frios, ela os oferece a estranhos, por um preço de banana e ninguém quer comprar. As alemães são a expressão da anti-tese da escritora Clarissa: a praxe de evitar a perda do controle, a perda das rédias e o maior de todos os medos: a entrega a quem se ama e disso ser percebido e rotulado como um sinônimo de fraqueza. Qual seria então a solução para evitar o mal dos males? A planilha.

Quando nada mais da certo…

Se não funcionou e o resultado não foi satisfatório é porque algum dos dois partido fracassou, precisa então haver um Plano B.

Paúra da alienação

Deveria eu postar postar uma matéria sobre a dança dos ovos de Merkel com o déspota Erdogan da Turquia que, mais uma vez, ameaçou jogar tudo no ventilador abrindo a porta para os refugiados entrarem na Europa por terra cancelando o acordo firmado com a UE? Talvez devesse eu falar da medida recentemente aprovada no parlamento turco, que suspendeu a imunidade da bancada do partido pro curdo (HDP, na sigla) foi a pergunta que me torturou antes de adentrar o principal foco desse artigo. A decisão não foi primeiramente minha, mas do acaso de uma cena de alto valor significativo que presenciei na tarde de quarta-feira (25). 

Num café muito famoso no centro de Berlim, vejo sentada na mesa redonda que foi concebida para várias pessoas, uma mulher loira, cabelos curtos, óculos pretos de lente larga. Usando como álibi o fone de ouvido (não saio de casa sem ele) percebi que ela fazia aniversário hoje (25)  e que está em Berlim, com o filho para “curtir o seu dia”. O filho joga games de animação na TV LED disponível no café Os dois não se falam. Passam uns 20 minutossem que haja qualquer comunicação entre os dois. Cada um ocupado com “seus afazeres”, com a sua parte da planiliha “Aniversário em Berlim”. Ela liga para várias pessoas avisando que está em Berlim e menciona com voz aguda e meio hiperativa, como isso “é legal”. “Eu sempre faço alguma coisa no meu aniversário” informa ela para a ouvinte do outro lado da linha. “Daqui a pouco a gente vai na Berliner Ensemble (Teatro de Brecht) assistir uma peça de cunho feminista: uma diretora encena uma peça sobre uma mulher dos século XVIII que envenenava todos os seus maridos”, Vamos ver se a gente tira alguma inspiração”, diz em tom de cinismo ácido  ao mesmo tempo que intui fugir do assunto principal que é o seu aniversário.

Uma professora de linguística da minha faculdade disse certa vez: “Não há melhor maneira de fugir do silêncio do discurso usando, de forma initerrupta, a palavra, a língua”. 

Ao invés de esperar o celuar tocar, ela não para de fazer ligações como se estivesse fugindo da paúra do silêncio do celular num dia que é prescrito para ser o melhor do ano: o dia do aniversário.

À uma outra pessoa, ela informa o que esta bebendo, claro, uma cerveja, que esta com o “filho querido” e reporta detalhadamente sobre as condições do tempo em Berlim: cor do céu, temperatura e esclarece que “pode começar a chover a qualquer momento”. Com a outra pessoa, que mais tarde se cristalizaria como a mãe da aniversariante, ela e disse:” Eu liguei pra você porque não posso imaginar que você me ligaria no celular. Suposição negada, o que alegrou a aniversaria te:” Você iria, ah, que fofo!”, disse ela. Supondo que se trata de algo familiar, ela comentou sobre alguém próximo a família, já que a pessoa do outro lado sabia de quem se tratava. “Ela esta tomando anti depressivo: “Antes ela só chorava e a medica não receitou nenhuma terapia. Agora ela esta tomando antidepressivo e agora ela esta super bem. Super de bom humor” e repetia “De super bom humor” e justificava. “Não é culpa dela, isso e genético da família”. Depois de conversar com a Mãe ela cumpriu a anti-tese de Clarissa e, destilando as emoções já pra garantir, ela avisou à Mãe: “Diz pra ele (o Pai) que não precisa me ligar para falar nada não” e arrematava um tom de voz como se um voto de aniversário do Pai fosse algo do qual ela, facilmente e sem quaisquer problemas, pudesse abdicar (para nao dar trabalho).

O filho, afrodescendente, aproximadamente 18 anos, continuava jogando na TV de enquanto a Mãe avisava “para o todos”, como estava se divertindo em Berlim. A irmã ligou, ela se alegra e roda, de novo, a manivela de antes e acrescenta:”A gente esta aqui no chill”, o que em novo alemão significa “tô de boa”, e claro, o chill da uma leveza norte-americana cool onde não passa nem água que possibilite qualquer demonstração de frustração ou mesmo solidão no dia que está prescrito por todos os marqueteiros que deve ser o melhor dia do ano. “Estamos tomando um suco”, disse à irma, que num certo momento passou o telefone para o genro da aniversariante. Ele fala algo simpático, ela se alegra de uma forma como quem, apesar do dia terminado, ainda concede a mítica impressão de que gostaria de ter contabilizado um número muito maior de telefonemas do que os, até aquela hora de ir para o teatro, recebeu.“Você também vai fazer 47 no mês que vem, ne?”perguntou ao cunhado. Depois ele devolve o fone para a irmã, que se chama Winnie, com quem ela parece se entender muito bem. Um só único momento o telefonema exibe uma expressão honesta de um sentimento escrito com letras maiúsculas. ‘Eu quase chorei quando receei seu cartão com a corrente” e acrescentou: “Eu muito bom que você existe” e no intermezzo das frases, balbuciava sempre, “Meine Süße” (minha fofa, minha querida). Nem um segundo depois de terminar o telefonema com a irmã, se dirigindo pela primeira vez ao filho, disse em tom imperativo aquilo que empacotou como uma pergunta: ‘Vamos, então?” foi a primeira frase de comunicação entre os dois. “Agora agora?”, perguntou. ‘Sim” disse ele relutante, enquanto fitava na tela LED. ‘Só mais um (jogo)”, diz ele.. Meio minuto. O jogo acaba, o jovem rapaz perde. “Bora fazer uma Selfie!”. Os dois fazem cara de felizes antes de saírem para o espetáculo de teatro que ela anunciou para a galera estar visitando “algo progressivo”, mas que em telefonemas anteriores, confessou não ter conseguido ingressos para o show do comediante berlinense, Kurt Krömer, um dos piores humoristas que existem na face da terra e que, de engraçado mesmo, só tem o seu óculos de C.D.F e sua figura magrela parecendo um cabine. Como não pode existir uma dicotomia mais insuperável entre a dialética fassbinderiana e totalmente pessimista e o humor tipo berlinense do “palhaço de Berlim”, não há como não constatar que não é o conteúdo, mas a forma o fator relevante na estada por Berlim e ter o que contar quando voltar pra casa, relatar sobre o super aniversário que se passou em Berlim. Como diz um ditado popular: o mundo através de um óculos rosa choque” para, como diz o velho Erasmo: “Poder se livrar da fera da solidão”.