A solidão de Angela Merkel e uma surpreendente teimosia

Fátima Lacerda

25 Janeiro 2016 | 08h29

Angela-MerkelDPA.jpg©DPA

Nunca fez parte do estilo de governo de Angela Merkel, um posicionamento concreto sobre qualquer tema. Uma das poucas exceções em sua perspectiva de política como um empresariado, é a fidelidade aos EUA e a necessidade de um governo do centro. Assim, são evitados os extremos. Nesse credo muita coisa não mais procede. Os tempos mudaram. A extrema direita na Europa vai muito bem obrigada. O ex-chanceler Helmut Schmidt cansou de avisar, quando a ideologia de extrema direita e direita populista ainda era “somente” uma tendência. Hoje, ela é realidade. Frente à eleições que acontecerão em cinco estado, incluindo Berlim, o partido populista de direita, AfD (Alternativa para a Alemanha) vem capitalizando votos e membros devido à crise dos refugiados. O que os membros desse partido se permitem, em entrevistas na TV e nos jornais mostra muito bem como o discurso mudou.

Na noite de domingo (24), no programa da brilhante jornalista Anne Will, Beatrice von Storch, uma representante da AfD no Parlamento Europeu foi desmascarada pela jornalista com um posting no Facebook, onde ela fala de Merkel como “ex-chanceler” e ainda afirma que, em breve, ela deixará a Alemanha “por questões de segurança” e vai migrar para o Chile. A escolha do país sul-americano não é por acaso, mas uma alfinetada referente ao fato de que a esposa do ex-chefe do Politbuero, da Alemanha Oriental, Margot Honecker, vive exilada no Chile, mas claro, não sem receber a sua robusta aposentadoria dos cofres alemães. Esse escárnio dirigido a chefe do governo mostra o nível em que chegou a discussão que se torna cada vez mais pessoal.

Merkel sempre foi soberana com os adversários, na maneira em que os ignorava, esperando pacientemente até a tempestade passar. Esse truque já não funciona mais.

O que mudou?

Foi naquela famigerada coletiva de imprensa na qual Merkel divulgou o “Yes, we can”, e segundo críticos “abriu as portas para refugiados de todo o mundo” que agora se sentem convidados para ir para a Alemanha, que Merkel mudou seu estilo. Mais que isso. Apesar das críticas de um segmento da mídia e uma verdadeira sabotagem nascendo dentro do próprio partido, Merkel surpreende pela teimosia em continuar com a sua política de refugiados, mesmo com diversas medidas que relativizam o credo de “A gente consegue” (topar esse desafio).

A novidade

Entre os membros do próprio CDU, aliados de década, se posicionam, claramente, contra a política da chanceler. O parlamentar Wolfgang Bosbach, que não deixa de estar presente em um programa de debate político, faz a sua pregação, acompanhada de uma choradeira, alegando sempre o mesmo texto: “Chegamos ao máximo das nossas capacidades” e esfaqueia a Angela que ele já conhece dos tempos em que os dois eram ilustres desconhecidos no partido. Até mesmo a ambiciosa Júlia Kloecker, vice do CDU e candidata a Ministra Presidente no estado de Rheinland-Pfalz quer assegurar seu lugarzinho no “clube dos contra” com uma receita de um Plano A2. Para não cair na desgraça de Merkel, que nunca esquece quem saiu da linha e traiu sua confiança, Kloecker ratifica que sua sugestão “é paralela ao curso internacional da chanceler” essa que por sua vez, teima numa “solução europeia” da crise dos refugiados.

É interessante observar quantos ex-aliados de unha e carne da chanceler começam a sair do armário para obter um perfil frente aos eleitores de seus respectivos redutos eleitorais, já que quando chegar a campanha eleitoral nas zonas de pedestre, nos clubes de quem joga boliche ou em escolas da cidade x ou y, os eleitores irão cobrar uma postura contra a “Cultura das Boas Vindas” proclamada pela chanceler.

O SPD, partido que forma a coalizão com Merkel é só crítica a chanceler. Também ele, o partido, quer criar um perfil com mais contraste, para quando chegar a hora das eleições regionais. Para o SPD tem muita coisa em jogo. Especialmente o peso de sua relevância na câmara alta, o Bundesrat. No sistema de democracia parlamentar, como vigente na Alemanha, quanto melhor um partido estiver representado na câmara alta, mas peso político ele terá em Berlim. Além de poder vetar leis do governo que precisam da aprovação da Camara baixa.

Iminente mudança do espectro partidário

Dependendo de quanto de percentual o partido AfD conseguirá nos estados, que na Alemanha geopoliticamente tem a denominação de Laender, isso terá um efeito tentáculo que chegará a Berlim. Considerando as eleições federais em setembro de 2017 e a possibilidade da AfD conseguir mais dos 5% obrigatórios de intenção de votos e entrar no Parlamento e a possibilidade da volta dos neoliberais com a sigla FDP, o especto partidário da Alemanha terá uma nova roupagem e um novo acento político.

Um ponto de vista ainda constante da chanceler é que Merkel se vê com uma obrigação que lhe foi concedida pelos eleitores, de governar durante 4 anos. Não é factível que Merkel renuncie, mesmo porque isso não faz parte da personalidade da menina criada sobre o regime comunista e que bem cedo entendeu, que a estratégia e uma rapidez analítica ímpar, são a alma do negócio. Porém o fato de ser cogitado a renúncia da chanceler, até mesmo do até pouco tempo exclusivo círculo de aliados mostra a dimensão causada pela crise dos refugiados.

Depois que a Áustria, da noite para o dia, implementou “o limite de entrada de refugiados”, Merkel foi abandonada também pelo seu maior aliado em solos europeus, o chanceler austríaco Fayman, que antes de anunciar a medida tomada na semana passada, declarou: “Por telefone eu informei a chanceler sobre a medida a entrar em vigor no dia seguinte”. Com esse posicionamento, o chanceler austríaco quebrou o trato que havia com Merkel de que os dois países estariam em estreita parceira sobre qualquer decisão a ser tomada. Faymann também desestruturou a percepção de que a Áustria deveria, anteriormente à decisão, consultar Berlim. O efeito colateral e de grande simbologia é que, agora, o governo Merkel está só na “Casa Europa”, que ela tanto pregou como “Uma comunidade de valores comuns”. Jamais a ideia de Adenauer, Mitterand e Kohl foi tao desafiada em sua essência como no atual contexto da crise dos refugiados.

Mesmo que não é adepto nem da política e nem do estilo de governo da chanceler alemã, consegue não ter compaixão com o abacaxi político que ela topou enfrentar, algo que angaria Merkel percentuais de simpatia dos seus adversários políticos. Até mesmo o partido esquerdista e herdeiro do partido da ex-Alemanha Oriental, o partido Die Linke é só elogios para a chanceler. Um jornalista do jornal esquerdista berlinense, die Taz, escreveu na manchete de seu artigo publicado na semana passada: “Eu nunca pensei que um dia eu fosse escrever um artigo favorável a Merkel” .

Agora, sozinha num deserto político cheio de abutres, Merkel precisará, mais do que nunca, de seu, anteriormente, tão odiado sangue frio. Só armada com ele, a chanceler poderá superar a tempestade, que ainda irá causar muitos danos ao governo.

Quem diria que a chanceler que nunca se posicionou concretamente sobre quaisquer temas, angariasse exatamente de seus mais severos críticos, admiração exatamente por, agora, teimar em fazê-lo.