A solidariedade berlinense é essencialmente política

Fátima Lacerda

18 de outubro de 2018 | 15h46

A cidade que foi o centro logístico durante os 12 anos do Nacionalsocialismo de Hitler, lugar onde se concebia e planejava toda a logística de um sistema pérfido e criminoso, se exercita em teimosa resistência como poucas cidades do Velho Continente, aprendeu com sua história igualmente brutal, criminosa contra a humanidade, dolorosa e traumática para muitas gerações. A cidade que foi destruída em 80% pelos bombardeios ressuscitou das cinzas e hoje é um exemplo de consciência política.

Enquanto em outras cidades, especialmente do leste da Alemanha, o nacionalismo, populismo e a extrema-direta colocam a democracia e partidos estabelecidos frente a imensos desafios, Berlim reúne, como no sábado 13/10, 240.000 pessoas nas ruas do centro da cidade clamando por uma sociedade indivisível com a #Hashtag #unteilbar.

Numa sábado de temperatura típica de verão num outubro especialmente dourado, vários setores da sociedade, de NGO’s e partidos políticos deixaram bem claro: Apesar da galopante ascensão da extrema-direita e do fundamentalismo da auto-denominados “Cidadãos preocupados” e da galopante especulação imobiliária, Berlim continua sendo Cidade-Resistência, termômetro politico do país em permanente estado de alerta sobre o que acontece na cidade propriamente como tambem sobre o que acontece na sociedade como um todo.

Ainda existem muitos adeptos da pratica de denunciação, tão corriqueira durante o capitulo mais tenebroso da história da Alemanha. O nacionalsocialismo de Hitler fez uso de um terreno fértil, baseado na descrença de partidos estabelecidos, na descrença no desenvolvimento economico, mas acima de tudo, no erro capital em subestimar o soldado medíocre com ambições de ser pintor. Apesar de não ter escondido as medidas que tomaria e seus planos terem sido divulgados no livro “Minha luta” (Mein Kampf, em alemão) os alemães não acreditavam que Hitler iria agir da forma como incontáveis vezes havia declarado.

Mudanças de paradigma no cenário urbano 

Mesmo que a especulação imobiliária tenha tirado a vantagem que a capital alemã tinha sobre Londres, Paris e Barcelona no quesito custo de vida acessível sendo a moradia a sua pilastra principal, as associações de moradores continuam tirando leite de pedra, se reunindo para fundar grupos de apoio, criar forças contra o galopante processo de mudança de paradigma no perfil dos moradores deste ou daquele bairro, os obrigando deixar suas casas e abdicarem da identidade urbana, que a língua alemã descreve como Kiez, uma denominação que surgiu nos anos ‘70 na parte ocidental de Berlim, que na época gozava do status de uma ilha cercada pelo muro.

Eu quero que meu vizinho e minha vizinha estejam bem

O Kiez, como as caraterísticas do bairro em que se mora é um fator-mor de identificação social e urbana e isso está sendo gravemente ameaçado. A eminente ameaça de especuladores batendo na porta se tornou uma questão social crucial, já que se tornou quase impossível conseguir um apartamento de valores acessíveis sem ter que ser banido para as periferias.

A passeata sob o lema #unteilbar se mostra sintomática de como Berlim percebe a solidariedade, a priori, no ambito politico e não como uma expressão isolada de pena, mas de unir forças para lutar, no melhor sentido emancipatório possível . Esse diferenciamento pode parecer tosco sob a perpectiva cultural de abaixo da Linha do Equador, mas faz todo o sentido no terreno da Europa Central em países influenciados pelo protestantismo luterano.

Ocupação de imóveis como anticorpos contra a especulação imobiliária

Há poucas semanas, o movimento de ocupação de edifícios vazios como objeto de especulaçao, trouxe de volta uma ferramenta muito necessária no início dos anos ’70, quando a cidade ainda era cercada pelo Muro. Muita coisa mudou desde então, mas a especulação imobiliária, nos últimos dois anos vem alcançando níveis monstruosos. Iniciativas ocupam edifícios e apresentam projetos de um uso social e comunitário e de cultura para todos.

Berlim está sempre atenta. Não esquece nunca.O #Hashtag Besetzen (ocupar )e a conta do Twitter @besetzenberlin mantém informados sobre as ações de ocupação, negociações com a policia, com os proprietários dos imóveis assim como decisões tomadas nos parlamentos de bairro e também sobre o respaldo dos moradores.

Heranças do passado

Os casos de denunciação, originados na época do nacionalsocialismo passaram de geração a geração e teimosamente persistem, as vezes por motivos ridiculamente pueris, mas eles são a exceção de uma cidade que não deixa barato, que não dorme no ponto e que mantém o foco de cortar o mal pela raiz para que a história não se repita. Apesar de todas as mazelas que a vida de residente em Berlim traz no pacote completo, essa cidade é motivo de orgulho para quem não pestaneja quando chega a hora de ir pra rua e se posicionar, pleitear, se solidarizar.

Quando o Task Force não funciona, como no contexto da ascensão do partido de extrema direita, “Alternativa para a Alemanha” representado na camara baixa do parlamento Reichstag), Berlim não dorme no ponto. As mídias alternativas tem uma importância vital na democratização na hora de veicular informações de interesse público.

Apesar de todas as diferenças (e elas são muitas!), os berlinenses saíram as ruas para dizer “Não” a divisão da sociedade entre alemães e estrangeiros, ricos e pobres, brancos e afrodescendentes, luteranos e muçulmanos e ateus.

Durante a passeata, a eleiçao presidencial do Brasil também foi tema por volta do centro nevrálgico de Berlim, Alexanderplatz. Com grupo de capoeira e muitos cartazes lembrando a ex-vereadora Marielle Franco e Romualdo Rosário da Costa, o Mestre de Capoeira (conhecido como Mestre Moa do Katendê) assassinado na ultima semana com 12 facadas num bar em Salvador da Bahia. Outros cartazes exibiam a #hashtag Ele não se referindo ao candidato que da história, nada aprendeu e segue pregando o ódio sego, como fazem os déspotas.

O que não faltam em Berlim, em seu cenário urbano e na mente de seus habitantes são sequelas de muitas feridas, resultantes de revoluções, motins, guerras. O que também não falta, e a atenção para o momento de mandar um grito de alerta para a classe politica e para a sociedade como um todo, para que a mesma não se deixe levar, nem pelo ódio, nem pela cegueira ideológica, nem pela cartilha partidária e nem pelo analfabetismo politico numa cidade habitada pelas mais diferentes etnias, religiões, proveniências.

Apesar de todas as correntes contrárias em Berlim, ainda e possível sonhar com uma sociedade justa sem que isso se torne uma utopia, mesmo tendo que nadar contra a correnteza do Zeitgeist.

 

Instagram: rioberlin2018

Twitter :FatimaRioBerlin

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