A teimosa vista grossa de Angela Merkel e o fim da paciência dos eleitores

A teimosa vista grossa de Angela Merkel e o fim da paciência dos eleitores

Fátima Lacerda

03 Janeiro 2018 | 16h23

 ©DPA

Desde as eleições gerais em 27/09, quando o CDU perdeu meio milhão de votos, o poder de Angela Merkel vem sofrendo erosão nunca vista em toda a sua carreira politica, que iniciou logo dois da queda do Muro de Berlim em 1989.

Depois da eleição de Donald Trump como presidente dos EUA, o jornal The New York Times atestou a chanceler, o título de “Última âncora e defensora dos valores do mundo ocidental”. Como no Brasil, também na Alemanha, a politica tem parelelos com um jogo de casino. Às vezes os fatores determinantes estão ao seu lado, às vezes você se percebe sem saída aí quando somente uma pecinha no quebra-cabeça ou na mesa do jogo, muda e novas apostas podem ser feitas, se aparece um leque de possibilidades. No caso da chanceler, ela exagerou nas apostas, em velhas e requentadas receitas e extrapolou a paciência dos eleitores.É um caminho que só leva à saída. Se pela frente de cabeca erguida ou pelos fundos, o tempo irá dizer. Quando mais a chanceler “colar” na cadeira, mais indigno será sua saída.

A fulminante ascensão da direita populista na Alemanha não é, em sua grande parte um produto de um automatismo ou de um efeito domino de tendências de outros países como a Hungria e a Polônia. Ela é uma mazelas de fabricação caseira.

Durante anos, a classe politica, mas especialmente o partido de Merkel, ignorou o “cidadão irado”. Esse segmento, escondido na sociedade se tornou visível depois da “escorregada” de Merkel para a esquerda quando decidiu abrir as fronteiras da Alemanha para receber os refugiados, até então, presos na estação ferroviária de Budapeste (Hungria). O governo do populista Viktor Orban, deixou fechados os portões, impedindo a entrada e a saída dos refugiados que amargaram semanas sob um sol a pino e em condições desumanas.

Depois da euforia dos alemães, recebendo os refugiados com flores e chocolate nas estações ferroviárias do país, surgiu um segmento que, há tempos, estava doido para sair do armário e só aguardava um motivo, uma plataforma, um adubo político, um bode expiatório. Com este, servido de bandeja por Merkel, as ruas da Alemanha e as redes sociais ficaram lotadas dos chamados “Wutbuerger” (Cidadãos irados). Eles se veem ameaçados em perder privilégios como também rejeitam o suporte financeiro aos países pobres da UE. As retóricas variavam sobre “perda de identidade”, “perda da pátria alemã” e do medo de “ser deixador para trás”. O partido populista de direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), que havia sido fundado com a cartilha contra a moeda Euro e com foco na economia, se deslocou para a direita populista e extremista. O ápice do partido agora está representado na Câmara Baixa do Parlamento, o Bundestag

O centro, outrora terreno ocupado e defendido por Merkel, ficou vazio.

A esse fenômeno de deslocamentos ideológicos que se deve, direta ou indiretamente, a situação politica que a Alemanha vive hoje no inicio de um novo ano, incerto como há muito não havia. O tradicional discurso de fim de ano da chanceler teve retórica vazia,superficial e umas frases de pseudo-entendimento, para quem “se sente esquecido”. Merkel falou da necessidade de encarar o projeto de digitalização, setor no qual a Alemanha perde para países da Ásia. Merkel falou da necessidade de topar desafios, como se ela estivesse no poder há semanas e não há 12 anos.

Depois de dois meses tentando a coligação “Jamaica” com os Verdes. os Democratas Livres e a União (CDU e CSU da Baviera) tentativa que fracassou depois de 8 longas semanas, Merkel vem, vertiginosamente, perdendo apoio dos eleitores. A caricatura que perambulou pelas redes, faz um trocadilho com o nome da chanceler. Overbo Merken, em alemão, significa “notar”, como também “tornar algo visível”: “Quem diariamente mente para o povo, fica velha, visivelmente, mais rápido“, diz a sátira com também um trocadilho no título se referindo “O inferno da Angela”, mais literalmente, o inferno que ela tornara o país.

 Paciência esgotada

Em pesquisa iniciada pela Agência alemã de Notícias (DPA) e executada pelo Instituto de Pesquisa de Opiniões, YouGov, cada dois alemães (47%) desejam, em caso de Merkel ser reeleita chanceler, que ela renuncie antes do fim do mandado de quatro anos. Somente 36% desejam que ela cumpra os quatro anos de governo. Entre os eleitores do partido AfD está o maior percentual dos que querem a renúncia imediata da chanceler. Seu lema “Merkel muss weg” (Merkel tem que sair) continua onipresente em todas as passeatas do partido e como mostram recentes pesquisas, é a vontade de eleitores, independente da filiação partidária.

Ja uma outra enquete, realizada a pedido do jornal „Die Welt“ e realizada pelo Instituto de Pesquisa de Opiniões, Civey, mostra ainda um perfil mais radical dos eleitores: 46% deles favorizam a imediata renúncia da chanceler enquanto o país já contabiliza 100 dias sem a eleição de um novo governo. No dia 07, iniciam as consultações com os social-democratas, o SPD, que entra de gaiato no navio nessas consultações depois do total fracasso das consultações para formar a coalizão „Jamaica“,assim denominada devido as cores dos partidos envolvidos: a União (preto), os Democratas Livres (amarelo) e os Verdes.

Chanceler por comissariado

Em toda a história do estado alemão, fundado em 1949, nuncahouve uma situação como a atual: a maior economia da UE, não tem governo formado e ninguém ousa um prognóstico de quando isso se realizara. Em seu discurso de fim de ano, Merkel manteve sua retórica de colocar panos quentes e do tipo tudo como Dantes no Quartel de Abrantes. Porém, desde a noite de 26/09 nada é o mesmo no cenário político-partidário em Berlim.

Daqui pra frente…

Em vez de uma imensa lista de temas a serem discutidos,como durante as sondagens para „Jamaica“ que duraram 8 semanas, o período de sondagem com os social-democratas deverá ser bem mais reduzido. Caso essas sondagens também fracasse, resta somente a variante de um „Governo de minoria“ ou um „Governo de minoria tolerado“ ou a convocação de novas eleições; esta como Ultima Ratio

 

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