A tragédia do 7 X 1, a zoeira em Frankfurt e uma boa dose de ironia

Fátima Lacerda

30 Setembro 2015 | 12h33

Cenário: IAA, Salão de Automóveis na metrópole Frankfurt, em pleno escândalo que está arruinando a imagem da Volkswagen, A marca alemã que até hoje se banhava na imagem de garantia de tecnologia de ponta e eficiência. Na entrada do evento, um painel relembrava a maior tragédia do futebol de todos os tempos.

Para nós, a ferida ainda se encontra aberta e estará aberta em décadas! Você sabe onde estava no dia que a Princesa Diana morreu. Sabe onde estava quando as torres do World Trade Center foram destruídas e sabe também onde e com quem estava naquela noite do fatídico 08 de julho de 2014.  Para os alemães, em geral, o que ficou e o que realmente conta, é a vitória da Copa. Foi poder, finalmente, costurar a quarta estrela na camisa da seleção e ficar no mesmo patamar que a Itália.

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Em discurso recente que somava os aspectos positivos da Alemanha, incluindo a liberdade de imprensa e a “Politica de Boas Vindas” com os refugiados, o Ministro das Relações Exteriores, para arredondar o discurso de elogio e em velocidade en passante, ele arrematou: “Além do mais, somos campeões do mundo”, gerando uma brisa de euforia no local, como todas as vezes que a vitória na final da Copa do Mundo é mencionada. Entretanto, o painel exposto em Frankfurt é resultado de uma injúria e, por não dizer, má fé de quem teve a ideia e que a charge é uma brincadeira da qual não conseguimos rir, não há dúvida. Nem do Mats Hummels (BVB) com a morena no colo, nem o Jerôme Boateng (Bayern de Munique) sendo assaltado pelo Fuleco e nem o Sebastian Schweini Schweinsteiger (Manchester United) em dúvida se compra drogas ou armas do lateral-esquerdo, Marcelo (Real Madrid).

Não sou da fração que acha “isso” um absurdo porque sente vergonha de ser brasileiro, mesmo porque, quem se vê acometido de vergonha deve dar uma recalibrada na estima pessoal. Um país não deve ser responsável pela autoestima de ninguém. E ainda muito menos pela falta dela. A história já mostrou que isso pode dar em tragédia.

Os Paralamas…

Eu adoro o Trio Herbert, Bi & Barone. Sempre adorei. No âmbito da música. Certa vez, num show no Morro da Urca, Herbert Vianna bateu forte no peito e esbravejou. “Eu tenho orgulho de ser brasileiro, pxrra!”. A galera, cansada de ver o Brasil vilipendiado, explodiu com urros afirmativos. Isso aconteceu numa época em que o Pré-Sal ainda não era uma realidade e o complexo de inferioridade, imenso. Tudo que era fora do Brasil, era melhor. e, como reação disso, “vamos nos orgulhar assim mesmo”.

A complexidade da imigração e seus tentáculos

Um amigo carioca, radicado em Berlim, comentou na sua conta do Facebook sobre o encontro com uma brasileira no metro berlinense. Ela se dizia totalmente envergonhada com a atual situação do país. Ele, disse: “Eu me preocupo” e ela: “Eu quero que o Brasil se exploda!” Ele, por sua vez, a achou patricinha, ela, “com sua convicção de ser europeia”, criticou.

A imigração tem muitas faces ainda mais se o país é a Alemanha, uma sociedade hermética já pelo difícil acesso através da língua. Não sou adepta de verdades absolutas e de ter aquela opinião formada sobre tudo, mas o baiano Caetano foi perfeito quando afirmou: “Minha pátria é minha língua” e na Alemanha, ela, a língua, é o único elevador para a integração social. O poder aquisitivo dará a tolerância social, mas nunca a verdadeira integração.

Ficar indignado com a vertiginosa ascensão do dólar, com a perda de empregos com carteira assinada e com aumento de impostos que atingem especialmente as micro- e média empresas, gerando um viver na corda bamba, sem possibilidade de planejamento, é legítimo. Porém, não vejo motivo para acoplar a crise ao se envergonhar de ser brasileiro, da mesma forma que vejo como equívoco quando o alemão fala em “orgulho de ser alemão”. Orgulho algo que você colhe depois de ter plantado. Se orgulhar por nascer alemão é um acaso tão absurdo e pueril, quanto a declaração esbravejada de Herbert Vianna de “ter que ter orgulho” como uma forma de teimosia. Em conversa casual com um segurança do clube noturno mais antigo de Berlim, descobri no berlinense de nascença, um enorme potencial de alienação política. Quando perguntei se ele se sentia alemão, ele disse: “Eu sou germano”, ou seja, se entende por raça e não por nacionalidade. Equívocos na percepção política e na auto-percepção pessoal é um fenômeno mais comum do que se imagina.

Explicando o Arrastão

Christiane é uma amiga querida, de poder aquisitivo altíssimo. Filha única, nascida e criada no bairro de classe alta de Charlottenburg e provavelmente nunca teve qualquer preocupação de âmbito financeiro. Até bem pouco tempo, não sabia quem era Gilberto Gil, nem Djavan, nem Elis, nem os Paralamas do Sucesso e nem o que era o Arpoador. Desde o início de nossa amizade, ela tem uma fascinação pelo Brasil, que ela vê, em mim, como referência. Ontem, enquanto esperávamos o início de um espetáculo de teatro, ela me disse em voz preocupada: “Eu li no jornal que a Praia de Copacabana é muito perigosa e que está havendo muito assalto em grupos”. Com toda a clareza possível considerando que ela nunca esteve em solo brasileiro e sem apelar para a emocionalidade desenfreada, expliquei a origem da palavra, traduzi e expliquei o que acontece durante um Arrastão. Ela perguntou se isso só acontecia com turistas. Respondi que não. Que cariocas que vão à Praia, também estão sujeitos a esses ataques. Explicar isso não me torna menos brasileira do que eu sou ou me sinto. Bem outra coisa, é ter a sensação impotência sobre o que acontece no Rio de Janeiro, essa cidade no malabarismo entre o monstruoso e o sublime. E como se alguém apertar o botão, a cidade explode.

Mesmo que a crise brasileira não faça parte direta do meu dia dia, o que, com certeza é um motivo de alívio, por vezes desejo um toque merkelinano na presidenta brasileira: a Capacidade de criar “uma pele grossa”, como diz um jargão popular daqui. A articulação de assuntos do governo, até bem pouco tempo coordenada pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB), é um desastre e a sua saída, um fator extra de desestabilização de um governo balança mas não cai. A crise na crise. Um beco sem saída. O Brasil merece melhores políticos, mas isso continua não tendo nada a ver com a alta ou baixa auto-estima. Acreditar piamente no “Gigante pela própria natureza” como uma verdade absoluta, também é a maior furada.

Uma coisa é uma coisa…

Bem outra coisa, é ter vergonha de ser brasileiro. ”Em nenhum instante eu vou te trair! Não, não vou te trair”, disse o Agenor, se eternizando na música de abertura da novela “Vale Tudo”.  Deixar que a charge faça alguém a ter vergonha de ser brasileiro é irracional e demonstra imaturidade política. Querer um país melhor, um país mais bem colocado no cenário internacional e acima de tudo um país mais justo e mais ético, é legítimo, mas nada cai do céu. A  gente faz um país! Seja ele onde for. Nem uma charge, nem uma matéria “desfavorárel” publicada no New York Times ou no The Economist não o constrói e nem derruba um governo, quando não há o que ser derrubado.

Minha pátria – Meine Heimat

Em comemoração aos 25 anos da Unificação dos 2 Estados Alemães (Deutsche Einheit), a rede de telecomunicação, ARD, inicia hoje (30) uma série de episódios sobre a percepção do que significa “Terra natal” (Heimat, em alemão). Pessoas de todos os cantos do país comentam sobre suas percepções bem pessoais e subjetivas.

Heimat pode ser uma especialidade gastronômica, se associada ao tempo de infância, ou à pracinha onde se jogava bola. Nesses tempos, devido à mudanca de 360 graus na demografia resultante da imigração em massa de refugiados, a Alemanha está passando por uma fase determinante do que será, em futuro próximo, a percepção de Pátria. 

Conversa mole

Em recente edição do programa  “Encontro com Fátima Bernardes“, o tema foi abordado de forma superficial, com a apresentadora sempre com um sorriso no rosto, especialmente quando entrevistava o Simon, um alemão que deu “a sua pitada de mostarda” sobre “como o Brasil é visto lá fora”. A conversa entre a convidada Nina e o Simon ficou no âmbito do bate-papo sem compromisso. Porém, o Simon vai voltar para Alemanha “mais orgulhoso do que um espanhol”, quando contar pra galera que foi no Projac. Super!

O que a Fátima não contou 

Fora o nome do autor, da charge, Arno Funke (65) Fátima Bernardes só mostrou desagrado, mas elogiou o “aspecto positivo da caipirinha”.

Arno Funke, hoje, é desenhista e autor de sucesso. Entretanto, ele tem uma “respeitável” passagem pela polícia como chantageador, durante anos, de proprietários das lojas de departamento Karstadt e KaDeWe. Para crimes de suborno e chantagem, ele, de exímia inteligência, driblando e humilhando a capacidade da polícia, usava o codinome de Dagoberto. Funke protagonizou o maior escândalo criminalista da história da Alemanha. Sua trajetória criminosa começou quando se viu acometido de depressão e o fracasso em conseguir uma vaga de trabalho depois de ter trabalhado anos como pintor numa oficina de carros. O constante inalar da tinta para carros, lhe causou transtornos emocionais, passando por uma crise de identidade até levâ-lo à depressão. É no mínimo irônico, um ex-chantagista e ex-presidiário fazer uma zoeira desse formato com o Brasil.

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