A volta dos Vikings, o ballet de Boateng e os justiceiros de plantão

Fátima Lacerda

04 de julho de 2016 | 09h50

E ainda há quem reclame da falta de sul-americanos e africanos na Eurocopa, classificando os jogos de “uma lástima”. É preciso “olhar para além da beirada do prato”, como ensina um ditado alemão, para alcançar, entender o que acontece no olimpo futebolístico no velho continente: mudança de paradigmas, certezas absolutas descendo ladeira abaixo e um país escondido, tem seu momento de glória e nos relembra o caráter mais genuíno do futebol: torcer, torcer, torcer como se não houvesse amanhã e pelo prazer de estar em equipe daquele perdido “jogar bonito”, dar a ultima gota de suor pelo time.

O que a equipe da Islândia e também de Wales desencadearam no mundo é a volta da essência do futebol da sua forma mais genuína. Algo fora dos padrões e podridões da FIFA, da CBF, da UEFA e dos grandes magnatas por trás dos clubes de prestigio.

Tivesse alguém feito o prognóstico que um país chamado Islândia eliminaria o time do país-mãe do futebol, o país de Friedenreich, ela ou ele seriam acusados de terem acompanhado Glória Maria em sua recente viagem à terra de Bob Marley.

A partida contra a Inglaterra foi mais do que uma sensação futebolística em toda a história do torneio europeu. Foi uma humilhação tendo como protagonista a equipe que já mostra a vontade de vencer o jogo na forma em que canta o hino, como procedentemente constatou o portal “Doentes por Futebol” em sua conta no Twitter.

Na noite de domingo (03) depois de ser eliminada pela seleção da França, a Islândia mostrou porque já é o time campeão dos corações. Incontáveis jornais alemães e suas contas no twitter louvaram e agradeceram a equipe dos Vikings pela presença na Copa: “Foi um presente!” atestou o jornal Berliner Zeitung. “Danke!” publicou o portal Spiegel Online.

A Hectormania e a ferida aberta do 7 x 1

No mais tardar depois da vitória contra a muralha italiana, a Nationalelf não “só” neutralizou o trauma de nunca ter vencido a Itália num torneio, mas deu o pontapé final para uma euforia que acomete o país. Até mesmo a autora deste texto, até bem pouco tempo relutante em torcer para o time que esfregou na nossa cara a miséria em que se encontrava e se encontra o futebol brasileiro se rendeu, sim, à atratividade com a qual joga futebol  o time de Joachim Löw. Me rendi também à eficiência-cool de Toni Kroos, ao paredão, a acrobacia virtuosa (vide jogo contra a Ucrânia) e ao ballet de Jerôme Boateng na partida contra a Squadra e também  na eficiência na dobradinha com Mats Hummels na defesa.

Me deixei encantar pela disposição de ralar quilômetros de Thomas Müller correndo uma maratona dentro do campo com o único objetivo para distrair e desconcertar o jogador defesa da Itália cavando espaço no meio campo para que a bola pudesse chegar aos pés ou a cabeça de Mario Gomez. Essa era a estratégia de Löw para o „previsível jogo tático contra a Itália“: arrumar  lugar no miolo do campo, ocupá-lo e passar a bola para o atacante.

A Hectormania, envolvendo Jonas Hector, jogador do 1. FC Köln e absolut beginner na seleção, iniciou nas redes sociais logo depois do final da partida.

jonas-hector-italien-fussball-em-2.jpeg ©Christian Hartmann/Reuters

Hector mostrando ter sangue frio pra dar e vender, bateu com sucesso o último dos ao todo 18 pênaltis garantindo a vitória da Nationalelf sobre a Squadra pela primeira vez em 40 anos.

O número 1

Mesmo sendo só reverência para “Gigi” Buffon, ele sim, um verdadeiro Deus do Futebol (Fußballgott), não há como não tirar o chapéu para o número 1 da Nationalelf. Manuel Neuer, que quando estreou na seleção alamã, Buffon já contabilizava 90 jogos na “porta” da Squadra Azzurra. Não há como negar que Neuer foi, nesta partida, especialmente, brilhante; teve nervos de aço na hora em que se mais se precisava deles. O seu “espreguiçar” pulando se fazendo grande antes de cada chute de pênalti o faz intransponível e como pudesse cobrir cada cantinho do gol. Fenomenal a frieza misturada com 100% de total concentração.

Já o grande Buffon falhou na hora H. O respeito ao atual campeão do mundo foi maior.

Neuer segurou os chute des Simone Zaza (especialmente trocado para marcar pênaltis nos 121. minutos) e de Graziano Pellè. Com isso, superou a primeira barreira para se tornar um Deus do Futebol, que, ao contrário do que divulga a imprensa europeia (francesa, italiana, alemã) na manhã desta segunda-feira (04), ele ainda não é da classe de um Buffon.

O início da partida, quando os capitães aguardavam o sorteio de qual lado do campo jogariam, viu-se a imagem do número 7, da camisa de Schweinsteiger e o número 1 da camisa de “Gigi” Buffon. Imediatamente torcedores brasucas sucumbiram no clima deprê de „Dejá vù?“ Começou a depressão e o masoquismo nas redes para algo que nunca poderemos mudar. Porém ficar pintando o diabo na parede por achar que e conspiração do destino, não leva a nada. A ferida é tão profunda, que um amigo meu, analista esportivo do Brasil, ao ouvir que o equipamento da TV alemã havia sido roubado, ele retrucou:” Bem feito 7 x 2!” 

Ser cool

O ser descolado e cool de Toni Kroos e de Manuel Neuer não é por acaso. Também o técnico Joachim Löw é só tranquilidade. Antes e depois da partida contra a Squadra Azzurra.

Na coletiva da manhã  de segunda-feira (05), perguntado sobre a partida  valendo uma vaga na Final contra a França jogando em casa e com todo o respaldo da torcida e se ele não teria medo, Löw respondeu: “No Brasil também foi assim. A seleção tinha 200.000.000 de torcedores pelo time na semifinal.…” arredondando com um sorriso maroto e sinalizando que fatores como esses ou mesmo “teorias do passado” sobre “trauma”, “fantasmas” não o interessam. “Isso não importa. Não é o passado, mas estar focado no presente”, declarou o budista com a serenidade de quem acabara de buscar o pão na padaria e não de um que está bem perto de atingir o auge de sua carreira, caso consiga a dobradinha de Campeão do Mundo e do Europeu de futebol.

A Bavária e suas mazelas

Markus Söder é um tipo bobo da corte num “reinado” chamado Baviera, região essa, que da perspectiva prussiana é “fora da Alemanha“ tal a diferença cultural, social e financeira entre os dois solos. E a recíproca é verdadeira. Da perspectiva dos bávaros, Berlim é um lugar caótico, sem governo e cheio de gente doida, muito politizada e muito revolucionária demais.

Esse mesmo bobo da corte vem aguardando para tomar o lugar do atual Ministro Presidente da Bavária, Horst Seehofer, e entrar na tradição do poderoso Franz-Josef Strauss, emblemático Ministro Presidente (1978-1988) e que transformou a Baviera num polo de tecnologia de ponta e isso sem criar uma dicotomia com a tradição da calça de couro e ao apego à regionalidade. 

MarkusSöder

Vestindo um chapéu com as cores da bandeira alemã e segurando um prato onde continua uma gordurosíssima pizza salame, ele comentou: “Que loucura esse jogo! Nós esperamos por isso durante 40 anos. Só mais uma coisa: “Nunca mais um pênalti marcado por Özil. A partir de agora, só jogadores jovens“.

O bobo da corte mencionou Özil não “somente” porque ele jogou pra fora o pênalti na partida contra a Itália, mas pelo fato o jogador do FC Arsenal não ter um nome germânico. Além disso, Özil é declarado membro da religião muçulmana. Como se isso “não bastasse”, ele ainda faz peregrinação em Meca, tira foto e ainda posta no seu Instagram! Sem medo de ser feliz. Isso é “ousadia” demais para o bávaro conservador.

Depois do Shitstorm angariado, Söder deletou o post, mas a internet é como Angela Merkel. Nunca esquece nem perdoa.. A atitude mostra também, que nem a vitória memorável da Nationalelf sobre a Squadra Azzurra foi suficiente para acariciar seu ego germânico bávaro do bob da corte bávara. Que nada! Ele tem que vomitar a sua xenofobia disfarçada de um patriotismo capiau.

Falando em patriotismo…

Na UEFA Fan Fest no Portão de Brandemburgo em Berlim, neonazistas vem usando o torneio para destilar sua ideologia e, finalmente, se sentirem „alguém“. Da fila do gargarejo vários fizeram a saudação hitleriana enquanto tocava o hino nacional, esse que continua o mesmo da época do Nacional-socialismo de Hitler tirando as duas primeiras estrofes, essas proibidas pelos aliados de serem cantadas depois da capitulação em 1945.

Markus Söder não se difere muito dos neonazistas da Fan Fest , exceto no aspecto de que um solta o seu veneno no estilo do bobo da corte nas redes sociais e não parte para os finalmente nem para a violência física como fizeram os torcedores Hooligans em Lille.

Do outro lado do oceano…

Alexandre Frota, ex-ator de filmes pornô, o Jean-Claude Van Damme tupiniquim está na missão para “salvar o Brasil da podridão”. Frota contratou seus amigos e colegas de academia (aprox. 70) para protegeram a advogada Janaína Paschoal de “emboscadas” e “ataques” como recentemente acontecidos no Aeroporto de Brasília. Em vídeo, o ex-de Claudia Raia, justiceiro e com a “missão” pela “limpeza” da sociedade brasileira, se lixa para a constituição e para os aparatos que devem investigar crimes cometidos dentro de um Estado de Direito.

Nós vamos embarcá-la e desembarcá-la. Em SP, no RJ e em Brasília. Nós não vamos levar desaforo pra casa“. avisado!

O mesmo que agora quer bancar de protetor de mulheres desamparadas, chamou o ator José de Abreu para a briga  de cupse e esculachoue zoou nas redes o músico Tito Santa Cruz quando foi „recebido“ no Ministério da Educação e da Cultura do governo interino. 

As redes sociais, como plataformas que oferecem anonimidade estão cheias desses auto-batizados justiceiros, deste como do outro lado do Atlântico. Uns acomedidos de ânsias arianas no ideal germânico e outros com incurável síndrome de vira-lata e que por falta de qualquer talento, lutam de todas as formas para driblar a sua própria insignificância e o perigo do ostracismo.

Saudação hitleriana

Desde o primeiro jogo contra a Ucrânia, no jogo contra a Polônia durante as pré-eliminatórias e também no último jogo contra a Itália, neonazistas foram vistos na UEFA Fan Fest em Berlim fazendo a saudação hitleriana enquanto tocava o hino nacional alemão.

Somente depois de muita pressão da mídia no contexto do jogo da Ucrânia, foi que o Ministério Público abriu inquérito e, agora, apela por informações da população para localizar o elemento fotografado de costas.

HitlerGruß©Wiebke Fröhlich/Tagesspiegel

O elemento também entoava a primeira e segunda estrofes do hino nacional alemão, que diz: “Alemanha, Alemanha, acima de tudo“, o que na linguagem neonazista significa questionar a soberania de outros estados e suas linhas demarcadoras de fronteiras. Depois da perda da Segunda Guerra Mundial e da capitulação foi proibido pelos aliados que os alemães cantassem a primeira e segunda estrofe do hino, que hoje tem somente uma a terceira.

Já nos jogos contra a Polônia e contra a Itália, os elementos foram presos de imediato, em flagrante. Os neonazistas, de respectivamente 19 e 22 anos de idade confessaram o ato ainda durante o primeiro interrogatório.

HitlerGrußII©Wiebke Fröhlich/Tagesspiegel

A saudação hitleriana é crime e resulta, no mínimo, em multa de alto valor senão pena de prisão, independentemente, se a motivação para a saudação hitleriana foi por motivo político ou não e se o autor estiver alcoolizado ou não. Com essa precedência, a Promotoria quer banir do setor público “manifestações anticonstitucionais”, explica o portal jurídico Rechtsindex (Index jurídico).

Os Vikings islandeses ainda não tem Hooligans e não é “só por isso” são o país mais querido da Europa no momento. Jornais já começaram a veicular matérias de turismo sobre o país do gelo.. Qual o melhor lugar para assistir futebol em Reiquiavique ou como curtir a natureza do país? Ao invés de hinos de conteúdos obsoletos de um passado cinzento, as redes sócias alemães estão aprendendo a cantar com o Embaixador da Islândia em Berlim, como torcer em islandês.

Gudmundur Benediktsson, comentarista que surtou durante gol da Islândia na partida contra a Áustria está prestes a perder seu emprego, mas isso nada tem a ver com o seu êxtase vocal que varou o mundo.

Como co-treinador da equipe KR Reykjavik da primeira divisão islandesa, seus colegas estão com a corda no pescoço. Depois de 3 derrotas locais, a equipe técnica está para ser despedida e seus colegas estão uma fera com a ausência de Benediktsson, que atua como jornalista free-lance para a TV.

Vale a pena ver de novo:

https://www.youtube.com/watch?v=9ns9puEM-nw