Aeroporto militar na época da Guerra Fria vira abrigo para 1500 refugiados

Fátima Lacerda

04 Setembro 2015 | 14h33

dpa-Picture-Alliance-60451272-HighRes.jpg©Dpa- Picture Alliance/Gregor Fischer

Agora é oficial: o ex-aeroporto das forças militares americanas na época da Guerra Fria, o Flughafen Tempelhof servirá de abrigo para 1500 refugiados.

Com atratividade ímpar por ser o “Aeroporto dentro da cidade”, Tempelhof era o símbolo da Berlim dividida. Entre o início de 1989 e o meados de 1990, eu morei em frente à entrada principal. O volume de aviões passando baixinho perto da minha janela, eram rotina e no início das manhãs, o despertador mais infalível que já tive.

Em 2008, depois de muita polêmica, discussão e controvérsia, o aeroporto foi fechado. Os berlinenses tem, até hoje, essa medida engasgada e não perdoam o incentivador para o sumiço do aeroporto do cenário urbano, o então prefeito Klaus Wowereit que imaginava transformar o local de grande caráter simbólico, em locao para feiras, congressos e, com isso, ampliar os tentáculos do marketing em volta da cidade. Por poucos anos, o plano funcionou: A PopKomm, a feira de música era anual nos ex-saguões do aeroporto. A “Bread & Butter“, feira de moda, também teve seu momento de glória na locação mais Hip de Berlim, até que as duas feiras, por falta de expositores, foram extintas. Também o mega Berlin Festival teve em cenário histórico, momentos inesquecíveis, até que os organizadores decidiram mudar de endereço.

Tempos depois, o ex-aeroporto, outrora vigiado por policiais das forças armadas dos EUA, se tornou domínio público dos berlinenses: um lugar inusitado, com direito a Skyline em cidade de terra plana, perfeito para andar de bicicleta, fazer piquenique, andar de skate, soltar pipa, fazer protestos contra isso ou aquilo ou simplesmente ficar, durante horas, fitando o céu, simboliza de forma instigante e inconstestável a duramente conquistada Freiheit (liberdade). Em maio de 2014, o Senado de Berlin organizou um plebiscito para que os berlinenses votassem sim ou não para o plano de construir apartamentos nas ruas de saída  do ex-aeroporto, incluindo a construção de uma biblioteca estadual. Os berlinenses disseram NEIN ao projeto e optaram pela continuação de Tempelhof como superfície livre para os berlinenses.

MichaelMüllerDSC2267.jpg©Reto Klar

“Berlim ainda não esgotou suas capacidades”

Em entrevista ao jornal Berliner Morgenpost(03), o atual prefeito, Michael Müller, que por nenhum acaso goza de uma popularidade como seu antecessor nunca teve, declarou que a cidade ainda tem possibilidades de aumentar seu empenho em receber os refugiados. A notícia da oficialização do ex-aeroporto como futuro abrigo para 1500 pessoas, complementa a estratégia. Perguntado na entrevista sobre os 70.000 estimados a chegarem em Berlim ainda neste ano, ele respondeu: “As estatísticas falam de 70.000, (2% da população) mas não podemos nos render a especulações sobre números. Precisamos, sim, ser flexíveis e inconvencionais, usando todas as possibilidades que temos.

O planejamento

Os hangares 1 e 2 serão preparados para receber no máximo 1500 refugiados. Devido à dificuldade de instalar calefação, serão montadas barracas e contêineres. Teoricamente, os hangares teria capacidade para comportar 4000 pessoas. Além de querer ir aumentando a capacidade “aos poucos”, o prefeito também não quer exigir da população local uma mudança radical em suas redondezas. “Continuaremos procurando outros prédios a serem disponibilizados para podermos organizar de maneira regrada, a vida dessas pessoas”.

Geralmente o Senado de Berlim, atualmente composto de uma coligação entre o CDU e os socialdemocratas está ocupado com picuinhas partidárias e, como diz um ditado por aqui, “jogar sal na cara do adversário”. Entretanto, nesse momento de crise complementado pelo inesperado, Berlim prova competência e união e resultado é fruto da capacidade de empresariado de crise de Michael Müller, o melhor prefeito das últimas décadas. “De quebra” como efeito positivo, estando em Tempelhof, os berlinenses terão interação imediata com os recém-chegados que se farão presentes num dos lugares que mais exalam liberdade na capital: céu aberto com direito à linha do horizonte, céu de brigadeiro.

 

 

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