Agora é oficial! Os melhores teatros alemães de 2016 são em Berlim

Fátima Lacerda

25 Agosto 2016 | 16h46

Tudo bem que Berlim ainda não tem o Aeroporto Internacional Willy Brandt que estava planejado para ser inaugurado em junho de 2012 e hoje, ninguém sabe quando haverá e SE haverá, algum dia, uma inauguração.

Cabeças de políticos rolaram, engenheiros responsáveis pela técnica já saíram fugidos em cenários apocalípticos que poderiam ser da República das Bananas. O infactível se tornou e teima em continuar sendo realidade até hoje: o Aeroporto de Tegel, o mesmo em que aterrissei naquela tarde de agosto de 1988, desembarcando de um avião da Pan Am vinda da capital espanhola, ainda insiste e persiste fato que é, totalmente de acordo, com a dialética berlinense de nascer das cinzas. De levantar do tombo quantas vezes for preciso.

O Aeroporto de Tegel ratifica muito bem o ditado popular das terras daqui, que faz a profecia:” Os dados por mortos, vivem mais tempo”.

Berlim virou piada no mundo todo. As charges viralizaram nas redes sociais, mas  a ovelha negra, o patinho feio da República, Berlim não seria jamais Berlim se não tivesse sempre uma carta na manga, se não desse uma de Neymar esbravejando para toda a república, principalmente para tudo que é abaixo de Frankfurt/Main: ‘Vocês vão ter que me aguentar”.

Na manhã de quinta-feira (25) foram anunciados os eleitos Teatro do ano e Berlim saiu vencedora não com um, mas com dois teatros; o Volksbühne (Teatro do Povo) e o Maxim-Gorki-Theater, ambos em mínima distância à pé do centro nevrálgico e pulsante da cidade: Alexanderplatz.

Volksbühne

Teatro do Povo – Volksbühne

O Volksbühne teve papel-chave no teatro esquerdista da Berlim depois da queda do Muro. Especialmente o diretor e dramaturgo Frank Castorf que, durante décadas, foi o diretor artístico do teatro, contribuiu para essa identidade.

FCTagesspiegel©DPA

A escolha de 34 críticos da revista ‘Theater Heute” (Teatro hoje”) pelo teatro que fica localizado atrás de Alexanderplatz em prédio construído em 1890 e que teve entre seus diretores ninguém menos do que aquele que os marqueteiros contemporâneos chamariam de Multitasker: Max Rheinhardt (1873-1946), austríaco, judeu, diretor de teatro, cinema, produtor e fundador de teatro, além de sido fundador do Festival de Salzburgo, Rheinhardt foi o primeiro diretor do Volksbühne, atuando entre 1915 e 1918, saindo no ano da “Revolução alemã” (1918-1919).

A premiação em 2016 foi uma homenagem ao brilhante, polêmico, ousado e desobediente trabalho de Castorf (65) que, por uma decisão Tim Renner do prefeito de Berlim, o socialdemocrata Michael Müller e Tim Renner (Secretário de Estado para assuntos culturais) decidiram não renovar o contrato de Castorf, que ficou muito contrariado da vida com a decisão. O clima do teatro não ficou dos melhores, já que os funcionários se mostraram solidários com o Diretor Artístico. Quem já frequentou cantina de teatro sabe do solo fértil que ela é para fofocas e intrigas que ali começam, tem seu ápice e ali também terminam: de um jeito ou de outro. Porém não darei uma de berlinense botando defeito em tudo.

A premiação é um motivo de alegria e orgulho para a cidade sem o Aeroporto Internacional mas acima de tudo, um reconhecimento e uma grande satisfação para Frank Castorf.

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No Volksbühne, teatro que combina com Berlim como goiabada com queijo ou como salsicha com molho curry acompanhada de cerveja quente e choca foi palco histórico do show do Mestre e virtuoso do violão, Baden Powell, em abril de 1999 pela comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil. Também nesse teatro acontece, anualmente, a cobiçada festa de confraternização cineastas e cinéfilos da Mostra “Fórum” da Berlinale.

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Maxim Gorki

O teatro nomeado em homenagem ao escritor e ativista politico russo. O “Gorki” como carinhosamente chamados por atores e diretores e assíduos frequentadores foi fundado em 1952 como Teatro Contemporâneo. Assim como Volksbühne localizado na parte leste da Berlim dividida, o apelidado “Gorki” era para os berlinenses “do lado de lá” um “teatro de discurso crítico e dissidente”.

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Quando em 1988 o diretor e dramaturgo Thomas Langhoff (1938-2012) dirigiu a incenação de “Sociedade provisória” do escritor alemão Volker Braun ele havia previsto o efeito resultante da “Revolução Pacífica” . Hoje, o “Gorki” tem uma dobradinha no cargo da direção artística. A diretora Shermin Langhoff e o co-diretor Jens Hillje criaram vários elencos para vários espetáculos dentro do mesmo teatro, mas com diferentes nuances dramaturgicas para um público-alvo diferenciado.

gorki_shermin_langhoff_jens_hillje

A premiação para o “Gorki” localizado a poucos passos de Alexanderplatz, exatamente do outro lado da Opera Estatal (Staatsoper) na Alameda Unter de Linden e cercado por um lindo parque com direito a espaço tanto para sossego como para romantismo nas noites de verão, algo que não combina nem um pouco com o espírito de Berlim e um must para apaixonados pelo teatro sempre que se encontram em solos berlinenses.

Links relacionados:

http://www.gorki.de/

https://www.volksbuehne-berlin.de/