Ai Weiwei em Berlim: Um gato por lebre, vaidade pueril e verdades silenciosas

Fátima Lacerda

16 de junho de 2017 | 18h34

O convite para a exibição do filme „Drifiting“, que acompanhou o „artista e ativista por um ano pelos quatro cantos do mundo“ veio da área de comunicação da Deutsche Welle. No Brasil, essa emissora consta como a transmissora da verdade absoluta sobre tudo o que acontece na Alemanha. O que por vezes se esquece, ou simplesmente não se sabe, é que a emissora tem um chamado „Auftrag“, incumbência de divulgar a Alemanha como país, pelos 4 cantos do mundo e é financiada por verbas resultantes de impostos. Há quem pense que o que é divulgado na Deutsche Welle é o retrato fiel e autêntico do que acontece na realidade alemã. Tem também as matérias que tentam fazer acessível a língua de Schiller e Goethe com jogos pueris e superficiais. Não é possível somente filosofar em alemão, mas nessa língua de apaixonante hermeticidade, especialmente bem.

O evento, que aconteceu em cinema no centro da cidade, no bairro de Mitte teve a presença de expoentes da mídia alemã, jornalistas e a equipe jovem da Deutsche Welle. Peter Limburg, chefão de todo o aparato burocrático que é a Deutsche Welle, surpreende já que há 5 anos atrás, atuava como âncora no canal de notícias e privado „N24“. Geralmente, para assumir um cargo de chefão da Deutsche Welle é preciso ter tido passagem pelos Institutos Goethe Institutos do mundo, ou ter tido uma carreira política ou um alto cargo na área de cultura. Nenhum desses quesitos preenche Peter Limburg. Seu discurso na noite de terça-feira (13) foi breve, mas sem deixar de vender o peixe sobre o „feito“ da emissora em fazer o filme com o artista.

Ai Weiwei em Berlim

Diretamente da prisão, o artista chinês partiu para Berlim, onde aceitou um convite feito anteriormente pelo presidente da Academia das Artes, Prof. Martin Rennert, esse o único membro coerente e autêntico da roda que incluía também as duas diretoras do projeto, Eva Mehl e Bettina Kolb que entraram mudas e por pouco não saiam caladas.

O contrato do artista com a Universidade das Artes está previsto para durar 3 anos, ou seja, até 2018 e é financiado pela Fundação Einstein, porém a minha conversa de beira de palco com o assessor de imprensa da fundação, deixou um clima no ar de que o terceiro ano do contrato não será o último. Claro que não se pode falar disso abertamente, já que o trâmite político burocrático é longo e requer cuidado para que nenhum órgão ou instituição se sinta atropelada e que para não hajam críticas da imprensa sobre conchavos.

O filme

Drifting“ (afundando) foi anunciado como uma reflexão entre o artista Wei Wei e a crise de refugiados, assim garantia a sinopse da folha de A4 entregue à imprensa no local. Para isso ele partiu para a ilha Lesbos na Grécia. A primeira cena do filme é Weiwei, mal-humorado, dando ordens aos tripulantes do barco que o acompanhava. Vislumbrando uma embarcação de plástico, com a capacidade de acomodar 5 pessoas, ele pergunta se seria perigoso passar para a embarcação que apresenta forte sinais de uso. Uma das diretoras, em Off, pergunta. „Você sabe nadar, Weiwei?“. Depois de alguns segundos, sentidas horas ele responde como quem já está de saco cheio só de ouvir a pergunta: „Não, mas acho que vai dar“ e depois manda a tripulação “se afastar” para que ele tenha “um momento de sossego”. Esse humor difícil de digerir é uma constante que a atravessa toda a narrativa muito mal alinhavada para um filme que pretende ser documentário. Aquele peixe que foi vendido pelo departamento de comunicação da Deutsche Welle como uma confrontação artístico política com a crise dos refugiados se mostrou ser um engodo. O que se viu durante os 56 minutos do filme foi, mais uma vez, uma emissora intimidada pelo grau de fama do renomado artista pelos 4 cantos do mundo. Nem a mãe dele escapou desse espetáculo deprimente empacotado de filme. “Esse quando criança”, diz ela enquanto folheia o álbum da família “ era uma graça, agora ficou desse jeito”, arrancando risadas dos estagiários e alguns deslumbrados por se encontrarem em roda tao prestigiosa.

A expectativa

Depois de tantas exposições assistidas e de tanto Wow Wow em volta do artista oprimido pelo governo comunista e antidemocrático da China, eu esperava um artista sem papas na língua e um artista exercitando deslocamentos, incomodando e até mesmo chocando a elite que acha arte bonitinho e que a usa para dar um Upgrade em sua existência pueril e regada do politicamente correto. O que presenciei foi um artista, também denominado de ativista com o rabo preso frente ao governo de Berlim que lhe da casa, comida e o governo federal que disponibiliza a ele e à sua companheira e ao seu filho, a segurança de ir e vir e tomar banho de rio no Lago Schlachtensee, o seu preferido.

A porta dos quartinho dos fundos de Angela Merkel

Em ano de eleição, a eleita „Chanceler do Mundo“ improvisou uma porta de saída da sua política de refugiados com procedimento de imediata deportação de refugiados do Afeganistão que tiveram seus pedidos de asilo negados. Ao raiar do dia, famílias são dilaceradas pela deportação de um membro que é arrancado de seu abrigo, de sua casa ou da prisão de refugiados que aguardam serem colocados no avião para o caminho de volta. A porte dos fundos da política de dupla moral de Angela Merkel vai de vento em popa em ano de eleição. Com somente uma frase e em tom baixinho para não causar alarde, Wei Wei mencionou de forma quase burocrática ao mesmo tempo enquanto exibia um olhar amedrontado, declarou: „É um erro considerar o Afeganistão um „país de origem seguro“, assim o termo jurídico burocrático.

Enquanto alunos e estagiários da Deutsche Welle soltavam um „ha..ha…“ ou „ahhh“ babando no discurso monossilábico do artista, a saudade de anarquistas, e esses sim interventores como Joseph Beuys, Christoph Schliegensief se espalhava na minha mente. Beuys em video descascando cenoura na cozinha durante uma edição da Documenta e outro fazendo instalação durante a Feira de Arte Contemporânea „Documenta“ de 1968 ou Christoph (falecido 2010 com 49 anos) fundando um partido chamado „Derrota como chance“ em 2000 e mobilizando toda a classe artística de teatro e cinema de Berlim ou que criou uma „Casa de Opera“ em Burquina Faso ou o que, juntamente com performistas se plantara dentro de um contêiner no centro de Viena para discutir a questão dos refugiados, numa época em que essa pauta não tinha a dimensão que tomou a partir de 2015.

 

Cerimônia do início da construção da Casa de Ópera.

O que Wei Wei foi uma bagatelização da crise de refugiados que acomete toda a Europa e faz balançar os alicerces daquilo que Merkel ainda teima em denominar a UE: “Uma comunidade que compartilha valores comuns“. A total isolação conduzida pelo atual governo da Polônia e o governo de direita populista de Viktor Órban na Hungria são so alguns exemplos mais crassos de que existe uma Europa com diferences percepções e diferentes velocidades.

As imagens exibem Weiwei viajando por Nova Iorque, por Berlim, pela ilha de Lesbos (onde se deixa fotografar na mesma posicao do menino sírio Alan Kurdi e por Beijing, onde, ao chegar, ele conversa com a cinegrafista no carro declarando: „Claro que no momento em que eu chego em solos chineses eles (o governo) estão me monitorando no meu celular“, diz ele com cara de vítima indefesa, como se isso fosse A NOVIDADE.

Todo o monitoramento do governo da China e os 81 dias preso com seu passaporte detido não o impediram de manter uma equipe trabalhando para ele e um imenso galpão, que serve como laboratório de realizações de seus projetos. A primeira imagem frente ao galpão em Beijing é ele esculhambando com uma funcionária: „Se você não consegue manter esse galpão limpo, você não pode trabalhar aqui“. A jovem funcionária fica, de tal forma constrangida com as câmeras, que quanto mais ele esculhamba com ela e com outros, mas eles se submetem e mais o filme se distancia do propósito inicial.

Na onda do morde e assopra, Wei Wei exibe uma leve dose de autocrítica quando fala sobre seu relacionamento com o filho e nesse diálogo, manda um tom borocoxô que não fica devendo pra nenhuma novela do Maneco: „Eu acho que o meu relacionamento com ele é pior do que com a mãe“. Antes disso (eu quase esqueci) Wei Wei é filmado em sua cozinha De Luxe cozinhando com sua esposa e ensinado seu filho a fechar a massa do bolinho chinês que parece um pastel ou um Pierogi polonês, um primo do nosso pastel. Essa cena demora uns 5 minutos enquanto a voz em off em inglês super britisch, diz: „Cozinhar em família é muito importante para Wei Wei“. Isso é uzeiro e vezeiro acontecer nas reportagens da Deutsche Welle. Quando você le a revista „Caras“, você sabe que nas páginas coloridas você irá encontrar a Carolina Dieckmann tirando Selfie com a Petra Gil ou mesmo algum casal global apresentando o filho lindo de viver numa bandeja como se fosse um troféu ou um acessório de luxo. Você sabe o que a „Caras“ oferece. Ponto. A Deutsche Welle, com um ranco de politicamente engajado caiu nas garras de um artista vaidoso e que é filmando também dando aulas Master Class em seu estúdio em Berlim. A voz em off faz questão de afirmar que ele „é um professor que exige muito dos alunos“ enquanto ele, como quem não dorme 5 noites, fica ali na frente reinando perante seus súditos. Vê-se frente às câmeras um grupo acuado frente á tal gigante da arte.

Na rebarba da longa conversa entre diretoras, Wei Wei e o presidente da Academia das Artes, houve a coroação da dramaturgia da noite e ela foi protagonizada por um refugiado da Síria que pode vir para Berlim devido à ajuda de Wei Wei e que não cabia em si de felicidade . As suas observações foram bem-vindas, resultaram num silêncio mortal dentro da sala e ele ainda foi indagado diretamente pela moderadora da noite, essa também, interpretando por sua linguagem corporal, intimidade por tao ilustra presença, enquanto a meu ver, o maior contribuinte intelectual foi o presidente da Academia. As diretoras só falaram quando eram diretamente convocadas e, aqui também interpretando pela linguagem corporal, se encolhiam para dar campo livre para o artista exercitar toda a sua vaidade.

No final, os protagonistas sairão em grupo e os intelectuais ou os jornalistas se deliciaram com refrescos, vinhos, água mineral e um Bretzel recheado com manteiga. O clima era de dever cumprido por presenciar tal atividade engajada de um artista do qual o mundo inteiro fala.

Berlim pra mim é uma casa vazia e eu me sinto muito bem nela“, declarou Wei Wei e acrescentou que sua casa „é a internet“. “A minha vida é como de um refugiado”, acrescentou, tentando voltar à pauta que já havia se perdido pelo meio do caminho frente a um roteiro bem alinhavado.

Entre as duas perguntas feitas por mim, uma ficou sem resposta. A primeira foi, se ele se lembra da sensação ao chegar a Berlim naquele verão de 2015. A segunda, o que lhe inspira Berlim, essa que já foi inspiração e solo de realização para tantos artistas provenientes de todas as partes do mundo ele disse como quem acaba de capitular: “Isso é uma pergunta muito difícil de responder. Tudo me inspira.”

O vazio, unido à amarga sensação de tempo perdido foram os sentimentos que me acompanharam de volta pra casa de uma noite de pompa e circunstância, mas que ficou devendo em todos os quesitos. No canal Deutsche Welle, o filme será exibido a partir do dia 24 de junho em inglês, alemao, espanhol e árabe. Na emissora pública, Phoenix o filme será exibido dia 25.

” Deportation Class”, exibido em maio no festival documentário de Munique e desde 01 de junho nos cinemas da Alemanha faz todo o trabalho de casa que o filme produzido e exibido pela Deutsche Welle, ficou devendo. O documentário exibe as cenas dramáticas de refugiados sendo abordados por policiais federais e tendo que arrumar suas coisas e voltar para seus países de origem.

.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: