A hora e a vez dos populistas e o efeito dominó de Paris na Alemanha

Fátima Lacerda

17 de novembro de 2015 | 18h22

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Não importa se é um o “Rei da Baviera” que, frente ao massacre em Paris, aproveita para ratificar a sua exigência de melhor controle nas fronteiras da Alemanha. Não importa se o auto-definido príncipe consorte, Markus Söder, do mesmo partido, o CSU, desfruta do solzinho midiático e dos holofotes esfomeados por polêmicas para ter seu momento de glória e exige “um claro limite do número da imigração de refugiados no país”, ou se é uma loira burra chamada Marie LePen, que com voz séria e preocupada, declara na TV: “A França não está segura”. Depois da frase pronunciada de forma solene em postura austera, Madame LePen detona todo o seu racismo já muitas vezes eternizado pela revista Charlie Hebdo e exige o “fechamento de Mesquitas”, ou se são os partidos de extrema direita na Suécia, na Dinamarca, na Noruega, na Alemanha… Até mesmo um Pastor evangélico chamado Silas Malafaia, que vomita todo o seu ódio contra “os esquerdinhas” via Twitter onde já soma 1 milhão de seguidores. Todos esse partidos e essa personificação de podres poderes percebem no massacre de Paris, o melhor cabo eleitoral possível.

O jornal Le Parisien se mantém fiel ao hábito de requentar aquelas que parecem “notícias”, mostra entrevistas de pessoas que não estavam no local do massacre, mas que “tem alguma coisa pra dizer”, algo parecido como as matérias ao vivo da Globo News, quando os repórteres falam como matracas até hipnotizar o espectador, sem acrescentar fatos novos ou relevantes em chamadas repetidas.

Até o jornalista e autor alemão, Mathias Matussek, um reacionário enrustido de bom católico e que já foi correspondente da revista Der Spiegel no Rio de Janeiro e em Londres, não perdeu a oportunidade de destilar sua perversa ótica, empacotada de ironia, quando publicou no seu perfil do Facebook: “Eu penso que o Terror de Paris vai dar uma nova perspectiva ao nosso debate sobre a chegada de 250.000 de jovens muçulmanos” e acrescentou à frase um smiley sorridente. O resultado foi a demissão do seu cargo de colunista no jornal Die Welt e uma briga recheada de xingamentos ao redator-chefe na reunião de redação na manhã de terça-feira (17).

O recém-falecido ex-chanceler e socialdemocrata Helmut Schmidt já vinha fazendo o prognóstico do que ele, felizmente, não precisou vivenciar: o ápice, a glória dos populistas de direita na Europa.

Enquanto a chanceler Merkel vem sendo coerente ao seguir a sua, ao mesmo tempo que nova e teimosa postura em relação a política de refugiados, aquela que outrora perdoava, mas nunca esquecia, vem sendo torpedeada por membros do próprio governo. Thomas de Maizière, o Ministro do Interior não perde, em frequências semanais, uma oportunidade de se destacar na mídia. O mais recente tiro no pé foi a declaração polêmica contra a possibilidade dos jovens homens sírios, depois do pedido de asilo político concedido, trazerem suas famílias para a Alemanha. Essa bomba foi lançada na mídia sem que anteriormente tivesse tido qualquer conversa, fosse com a chanceler ou braço direito dela, Peter Altmaier, atual coordenador logístico da questão dos refugiados, depois  de Mazière ter falhado nessa incumbência inúmeras vezes além de mostrar que não tem nenhuma ideia do que acontece dentro de seu próprio ministério. Até a poeira baixar e o “distanciamento” pós-tiro no pé e até  que a imprensa consiga desvendar quem sabia do que e quando, passam 3 dias com a opinão pública sendo molestada com essas vaidades mal resolvidas.

O outro a torpedear permanentemente o governo Merkel com novas exigências é o “Rei da Baviera”, que muitas vezes se comporta como se não fizesse parte do governo, com o qual o seu partido assinou um contrato de coligação. Avisos, ameaças e guerrinhas midiáticas são constante pedra no sapato de Merkel que com uma paciência de um monge budista, vai tolerando e botando panos quentes. O porque dessa paciência de monge, se por questões históricas que unem os dois partidos ou se Merkel ja pensa nas próximas eleições, não se sabe.

Pânico midiático

Como num clima de competição absurda e neurótica, a mídia alemã questiona permanentemente de “como a Alemanha se prepara contra o terror”. Ora bolas, como sempre! Contando com a competência da Polícia Federal, a nem tanto assim dos serviços secretos e do trabalho com a Interpol, além de um boa quantidade de sorte. O fato da Alemanha, por motivos históricos (ainda) não estar diretamente envolvida em regiões de conflito, ajuda, mas até quando? Até quando os canhões alemães vendidos para a Arábia Saudita ficarão “incógnitos” nas guerras?

O portal “Campaign Against Arms Trade“, (CAAT na sigla em inglês) divulga que entre 2001 e 2004 a Alemanha vendeu, no valor de 2,6 milhões de euros, para o governo autoritário da Arábia Saudita, navios de guerra, munição,  armas de pequeno porte, carros e canhões do tipo Leopard.

A propósito guerra…

Ao contrário da mídia francesa, e a palavra preferida de de Monsieur Sarkozy em seu discurso, SEMPRE, com cara de fim do mundo, a mídia alemã, também por razões históricas, evita essa denominação para o crime abominável e bárbaro que foi praticado em Paris, levando pessoas a correrem para se esconder debaixo de mesas para salvar a própria vida. 

Amistoso Alemanha x Holanda em Hanover

O choque da seleção alemã de futebol na última sexta-feira (13) ao ter que evacuar o Hotel Molitor em Paris em que se hospedava, depois ter que passar a noite de sábado para o domingo no estádio e sair sobre escolta policial para a pista do aeroporto na volta para a Frankruft, levou a Federação Alemã de Futebol considerar o cancelamento do jogo amistoso de hoje (17) na cidade de Hanover (norte do país) entre as equipes de tradicional rivalidade. Quando nas primeiras horas de segunda-feira (16) a DFB anunciou manter o calendário do amistoso, o Ministro da Justiça e socialdemocrata Heiko Maaß elogiou a postura da Federação via Twitter: “Que bom que a DFB não se deixou intimidar pelo terror”. Como o mundo midiático na noite desta terça-feira (17) estaria todo voltado para a província na Região da Baixa Saxônia a ideia era que no camarote, o governo estivesse presente em peso, com a chanceler, seu vice, o Ministro da Justiça e o do Interior. Por volta das 19:15 hs, horário local (16:15 no horário de Brasília) foi divulgado pela polícia o cancelamento do clássico.  Os torcedores que já estavam dentro do estádio foram convocados a se retirar, de forma rápida, mas sem pânico. Outros torcedores que povoaram a cidade de Hanover durante a parte da tarde, nem chegaram a entrar no estádio. A polícia em Hanover juntamente com órgãos federais decidiu pelo cancelamento, declarando que existe uma “ameaça real de atentado”. A intenção do governo em “mostrar presença” foi por água abaixo, o que mostra, incontestavelmente, que tudo mudou depois de Paris como também tudo mudou EM Paris: no distrito 18, ao redor do Louvre, no metrô da linha 4, ao redor da Torre Eiffel. 

Volker Kluwe, o presidente regional da polícia de Hannover alertou em noticiário vinculado em horário nobre para “que os torcedores não fiquem na rua e evitem o uso de transporte público”.

A França está sobre o ataque de radicais extremistas e tem um presidente que fez campanha para maior justiça social no país. Hoje, vemos um presidente sem pulso, sem personalidade e sem soberania para encarar um desafio dessa gravidade. A semelhança com o Ministro do Interior da Alemanha é surpreendente. Falta de preparo, falta de visão e de rapidez analítica . Que bom poder contar com a competência da polícia regional e federal alemã!

Em conferência em Paris, o governo americano, na pessoa de John Kerry, divulgou “reforçar a aliança contra o terrorismo”, entretanto, mesmo depois da morte de 129 pessoas, nenhum chefe de estado ousa em falar na possibilidade de enviar tropas terrestres no combate ao Estado Islâmico (EI).

Ao finalizar esse artigo, a TV alemã especulava sobre os motivos do cancelamento  do jogo e jornalistas aguardavam ansiosamente uma coletiva de imprensa que trouxesse detalhes pela polícia regional de Hanover com a participação do Ministro do Interior, Thomas de Maizière. Segundo fontes da imprensa, a chanceler Merkel soube do cancelamento quando estava a caminho de Hannover e imediatamente retornou para Berlim, onde se encontra no momento.

#TodosSomosParis em Berlim em frente à Embaixada francesa na noite de domingo (15).

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