Alemanha x Brasil em “amistoso” em Berlim: o termômetro, a simbologia e um fantasma

Fátima Lacerda

27 Março 2018 | 11h48

A coletiva de imprensa da seleção alemã no início da tarde de segunda-feira (26) estava marcada no Show Room da Mercedes Benz. Para chegar a sala nomeada como um dos modelos, S-Klasse (Classe S), era preciso passar por um arsenal de carros de luxo e de alto luxo. Um modelo era rodeado de um chafariz. Tudo de vidro. Tudo transparente.

Na sala S-Klasse, a presença da imprensa brasileira era esmagadora. Até repórteres de rádio da longínqua Goiás vieram a Berlim para o Clássico dos Clássicos, isso desde a época de Pelé e Beckenbauer. O reconhecimento do gramado foi na tarde de segunda-feira (26). No momento em que os jogadores pisaram no campo, o sol abriu. Ninguém me contou. Eu vi! A previsão do tempo que, anteriormente, previa chuva ao longo do dia 27, passou a ser “somente” de nublado com 7 graus positivos. Mesmo que perto dos 15 minutos do treino aberto o sol tenha desaparecido, o sinal foi bem claro.

O jogo de hoje, porém, traz da forma mais orgânica e inegável: o trauma daquele julho de 2014 em Belo Horizonte. O famigerado 7 x 1, a necessidade e urgência de “resgatar, recuperar”, como menciona o Tite num comercial de um dos patrocinadores da seleção canarinho que está sendo veiculado atualmente na TV brasileira. Resgatar o que? A vontade de voltar a ver os jogos da seleção brasileira? Resgatar a autoestima como recordista campeão de futebol? Resgatar a autoestima dos 190 milhões de técnicos de futebol numa época de profunda crise política?

Como o Abel Braga é a salvação do Fluminense das Laranjeiras, o Tite, quem eu presenciei pela primeira vez, é uma benção no futebol brasileiro e no cargo que atualmente ocupa. Autêntico, honesto e não faz questão de esconder fraquezas e isso faz do Professor, grande! “O Tite é um ser humano incompleto, é ansioso. O Löw foi simpático comigo“.

A Kiomi, a jornalista japonesa que acompanha todos os passos da Seleção Canarinho perguntou, na coletiva feita no porão do Estádio Olímpico, se Tite ainda sente frio na barriga como declarou ao assumir o cargo. “Continuo sim. Sou ansioso, às vezes inseguro, mas continuo seguindo em frente”, diz ele com um semblante claro, nítido. Tite também falou da importância da família, retórica que pode parecer piegas, mas foi sincero até mesmo quando mandou já quase no final da coletiva: “É que vou falar de sentimento e frustracao que todos nós tivemos” respondeu ao jornalista que falava inglês e que não teve a chance de fazer uma segunda pergunta.

Sobre o 7 x 1

Ao lado do Auxiliar Técnico da Seleção, Kleber Xavier, Tite falou o que todos pensavam: “Vocês não estão ousando perguntar sobre o 7 x 1, mas ele está sempre com a gente, está guardado aqui”, enquanto gesticulava como quem colocava a mão no bolso. No video, Tite fala sobre zageiros:

A coletiva da seleção alemã

Quem é obcecado por futebol pode simplesmente esquecer que a próxima Copa do Mundo de Futebol será num país que vive uma ditadura política e que da um tiro diplomático atrás do outro. Atualmente na Zona da UE por causa do envenenamento do espião-duplo, Sergej Skripal. A Alemanha expulsou 4 diplomatas russos e a roleta russa político-diplomática ainda está longe de terminar. E Putin, o infinito líder russo tem as mãos sujas de sangue. Se hoje, a Guerra da Síria ainda persistte, é porque a Rússia apoia o regime criminoso e brutal Assad com a infraestrutura para que o massacre continue. Mesmo assim, o futebol ainda continua fazendo o coração bater mais forte. É espelho de sonhos sonhados e é bonito de ver. Alguns se perde como o Imperador Adriano ou o talento do germânico Sebastian Deisler e do carioca, naturarizado alemão, Kevin Kurany. Mas tem histórias que nos emocionam ao vislumbrar histórias bem resolvidas, sonhos realizados. Perguntado por um jornalista alemão, o que significaria para ele jogar em Berlim frente a seus familiares e amigos, o camisa 17 da Nationalelf, respondeu: “Desde menino, o meu sonho era jogar contra o Brasil no Estádio Olímpico”. Considerando o fato de que Boateng nasceu no bairro de tradição proletária de Wedding, bairro localizado no norte de Berlim, com o pai ganês e a mãe alemã, imagina-se o caminho que ele percorreu para chegar até poder, hoje, realizar o sonho de menino.

Perguntado por um repórter brasileiro, como seria o relacionamento com o técnico Löw fora do âmbito de futebol, Boateng foi diplomático e solícito: “Ele é super aberto, você pode conversar com ele sobre tudo, ele telefona pra saber da gente, é um cara de nossa total confiança para os jogadores tantos para os mais jovens quanto para os veteranos. Por isso, nós queremos retribuir essa confiança no campo.” Como o pragmatismo alemão não permite delongas, no momento em que a coletiva com Boateng e Ginder terminou deu-se a “troca móvel” como mencionou o moderador. Sairam Boateng e Ginder, Löw passa por eles voando. Nenhum oi, nenhum contato. Tempo é dinheiro.

A minha pergunta ao técnico alemão foi, claro, relacionada com o 7×1. “Mesmo que no Brasil não se fale isso claramente, o 7×1 paira como uma nuvem sobre nossas cabeças e que o jogo em Berlim funciona como um barômetro para o nível de desempenho da seleção brasileira. Com a retórica tradicionalmente cuidadosa, como diplomata com brilhante capacidade analítica e seu rotineiro pragmatismo, Löw filosofou: “O jogo em Belo Horizonte foi uma das etapas para alcançar o título. Na manha seguinte esse jogo já era passado para a equipe. Pode parecer duro falar assim, mas o objetivo depois daquele jogo era focar, totalmente, na Final vencer o arquirrival do Brasil”.

©DPA

Para também tomar a pressão de seus jogadores da atual seleção (em não querer fazer gols demais), Löw se referiu ao jogo no Estádio Fonte nova da seguinte forma: “Nós pegamos um Brasil num dia infeliz”. Foi muito mais do que isso aquele dia da segunda maior tragédia do futebol brasileiro (a primeira foi também como sede da Copa, em 1950) teve um cenário mais abrangente do que o gramado. Todo o aparato do futebol brasileiro, sua política, decisões errôneas durantes décadas e fracasso total na formação e no fomento de novos talentos juntados à teimosia crônica do técnico Scolari, desabou ali no Estádio Fonte Nova. “Para a seleção alemã esse assunto não é tao presente como no Brasil” e ainda no tom diplomático e solícito: “Entendemos que quando um país de de Copa do Mundo perde uma semifinal com esse placar, a decepção é imensa“. Na sequência, o carinhosamente chamado de Jogi, filosofou: “É claro que no preâmbulo desse jogo, os torcedores brasileiros tem sede de revanche, mas não é possível repetir uma semifinal“, arrematou em tom diplomático, mas ciente como qualquer pessoa coerente, de que não é possível retornar no tempo. Resgatar, recuperar até é possível, mas de olho no futuro e se tivermos sorte e os jogadores determinação e sangue no olho, o futuro da Seleção Canarinho, inicia hoje. Em Berlim.