Andar de metro em NY, Berlim e Tóquio ousando o improviso e o despojado

Fátima Lacerda

11 Janeiro 2016 | 05h21

Fazer uso do metrô na capital alemã não é para quem tem nervos fracos. Sempre que, por algum motivo, esse meio de transporte se faz obrigatório para mim, volto pra casa cheia de impressões na retina. Por vezes, impressões até demais.

Para quem está de visita à capital alemã, entretanto, é imprescindível usar o metrô e isso não como um meio de locomoção, mas lá você terá, de bandeja, um espelho da sociedade berlinense: sua ousadia, suas idiossincrasias, paranoias e, claro, muito choque cultural. Você irá se surpreender, acima de tudo, com a diversidade dos ET’s berlinenses. Tem de tudo ali naquele espaço limitado, o que da direito às mais interessantes daquilo que eu denomino de “dinâmica temporária de grupo”.

Não há como não fazer associação à cena do metrô em “Ghost“, com Sam (Patrick Swayze) querendo aprender a ser fantasma. Enquanto o que goza do uso capião dos túneis do metrô nova iorquino cara fica enfurecido com a presença do mocinho, em Berlim existem vários fantasmas também. De dia eles ficam mais escondidos, enquanto à noite, ficam bem mais facilmente visívies, mas todos eles dividem o mesmo espaço, que é, literalmente, de todo mundo.

Você pode encontrar aquela pessoa que mostra, claramente, a insatisfação quando você pede para ela “escorregar” para o lado para você poder sentar. O sem-teto com seu cachorro e suas cangalhas e que faz você se perguntar onde ele vai passar a noite. O sanfoneiro romeno tocando música no início da matina, aquela hora que deveria ser proibido, por decreto, alguém balbuciar alguma sílabe que seja. Muito provável também é deparar com a “entrada triunfal” de adolescentes turcos, todos com um celular na mão e acompanhá-los com o periférico da retina enquanto passam o pente fino no vagão todo para “marcar presença física”, enquanto riem e falam alto seu idioma num hermetismo de contra-ataque para as inúmeras expressões de exclusão social que já vivenciaram. Tem também as tagarelas polonesas que fazem ligação no celular como se tivessem na própria casa ou o alemão querendo parecer importante e usando palavras que sugerem que está falando de negócios e que é um cara muito solicitado. Ou a mãe que deixa o filho livre leve e solto, inclusive para pisar com a bota suja da rua na poltrona enquanto ela fala no celular ou a mulher fazendo tricô.

O grupo de crianças de jardim de infância acompanhado das pedagogas e atentar para o detalhe que tem todos uma toca verde, ou vermelha para evitar que alguma ovelha se perca do grupo. Você irá encontrar também os zumbis, envolvidos por um cabo de fone de ouvido com o olhar congelado na tela do celular. Para quem vem “de fora” e isso pode ser um vilarejo escondido da Baviera, no sul do país, tudo é novidade, mas para quem vive na capital e topa encarar o metro, o uso de um fone de ouvido com um MP3 muito potente é acessório igualmente imprescindível e padrão. Não saio de casa sem eles.

No metrô berlinense, com o seu inconfundível vagão amarelinho, você irá encontrar de tudo. Atente para diferença no clima se a viagem for pela manhã ou no início da noite ou durante a madrugada* e veja como a “dinâmica de grupo” se modifica com a saída de uns e a entrada de outros. É uma dinâmica flow.

Nos fins de semana ainda é um outro clima. É farra, mas claro: vai depender do bairro para o qual você viajar ou qual você atravessa. Atente para a diferença no perfil dos passageiros de acordo com o bairro, o horário do dia, a temperatura lá fora do túnel. É um laboratório social que você pode concluir em Berlim, paralelamente às suas andadas para conhecer a capital.

Viagem de metro sem calças

Há 15 anos atrás um novaiorquino teve, primeiramente, a ideia: num domingo durante a estacão de inverno, formar um grupo, entrar na estação de metrô X, tirar as calças e viajar no vagão. A ideia é “improvisar muito”. O portal Improv Everywhere oferece dicas de como se comportar durante a viagem, avisando que você deve participar, se consegue tirar a calça e souber lidar bem com isso. Avisam também que “nada deve ficar pendurado” e proíbem o uso de straps e coisas similares além de avisar: “Não se deixe influenciar se os passageiros não participantes começarem a rir”. Ou seja, para participar da brincadeira é preciso ter uma boa quantidade de autoconfiança e curtir o inusitado e ter prazer em chocar a plateia e ao mesmo tempo se manter cool

Berlim & Nova Iorque & Tóquio

No domingo (10) , o evento aconteceu em 60 capitais espalhadas pelo mundo. Pela décima quinta vez em Big Apple, que ofereceu aos participantes um cenário de temperaturas excepcionalmente amenas para esta época do ano.

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Em Berlim, na quinta edição do evento, os alemães em faixa etária de 25 a 40 anos tiveram condições climáticas mais ríspidas, com temperaturas a 2 graus e no evento que leva o título mais emperrado de “Ohne Hosen U-Bahn fahren” (Viajar de metro sem calças). NPSR_Berlin_2015-111-1200x800.jpg

O ponto de partida foi a estação Frankfurter Alle, situada na parte leste da cidade para fazer baldeação em Alexanderplatz. Dali, optaram pela rota da linha 2, a linha vermelha que passa pelo centro nevrálgico Alexanderplatz, pelo centro de comércio e turístico Potsdamer Platz, mas também pelo pacato bairro de Charlottenburg até chegar à estação do Estádio Olímpico, ou seja, passou o pente fino fazendo uso estratégico da linha que atravessa a cidade de fora a fora: do leste ao oeste. Na volta do mesmo percurso, uma parada obrigatória para uma foto em grupo debaixo do Relógio com a hora mundial (Weltzeituhr) também em Alexanderplatz. Depois, a ida para um chill-out, uma festa num bar no bairro de movimentada vida noturna de Friedrichshain. Missão cumprida!

https://www.youtube.com/watch?v=olQBLBrQRmU

Era de se esperar que, depois do ocorrido na noite de réveillon na cidade de Colônia, rolaria uma discussão sobre a propriedade do evento acontecer nesse momento, mas isso não aconteceu. O grupo de improviso não se deixou abater pelo debate, que com certeza terá que continuar. 

Entre as capitais da América Latina, somente Buenos Aires aderiu a ideia do improviso e da ousadia.

As estações de metrô de Berlim e Rio de Janeiro são “estações parceiras”, como se pode conferir na parede externa da estação carioca Cardeal Arcoverde, no bairro de Copacabana. Entretanto não me parece factível que essa ideia seja aderida em qualquer momento em solos cariocas. Certamente alguns pudicos de plantão chamariam guardas da PM e dariam queixa por “falta de decoro em ambiente público”, além de outros relevantes empecilhos de natureza cultural que acabariam murchando o caráter da leveza do evento como foi primeiramente idealizado pelo novaiorquino. Em Berlim, assim como em Big Apple, tirar as calças é uma postura de irreverência, de ousadia e de tomada do espaço público e tudo isso com muita leveza. Devido à várias semelhança entre São Paulo com Berlim, a capital paulista poderia encarar o desafio e se tornar a próxima capital da América Latina a promover o evento.

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*Algumas linhas do metro funcionam durante a noite de sexta pra sábado e sábado para domingo.

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