Andar de táxi em Berlim

Fátima Lacerda

09 Janeiro 2016 | 11h58

BerlinerZeitungPaulusPonizak.jpg©Paulus Ponizak

Uma das capitas com os motoristas de táxi mais encrenqueiros do mundo é, com certeza, Berlim. O aumento de interesse na plataforma UBER, que cada vez torna sua frota mais diferenciada para os diversos grupos-alvo, só aumenta o clima de agressividade dos taxistas que não gostam nada da concorrência.

Os taxistas novaiorquinos vão de comunicativos a tagarelas, contam anedotas da cidade mesmo quando o domínio da língua inglesa é no nível de iniciante. Os de Paris não são de muitos amigos. Certa vez, descendo na estação ferroviária Gare de l’Est, queria ir para a Rue Myrha, que é um pulo dali, no distrito 18 e outrora uma rua que era ponto de encontro de Cineclubistas.

Não tivesse 2 malas para carregar, eu teria ido a pé. Quando ainda não sabia da diferença existente entre os táxis brancos e pretos, cometi um sacrilégio de entrar num carro preto. Quando mencionei o destino, o motorista surtou. Só então eu pude tomar conhecimento que os táxis pretos vão para o aeroporto e por isso, garantem uma corrida mais atrativa. Ao tomar conhecimento do trajeto super curto o enfureceu! Mesmo eu me dispondo sair do carro e ele tendo a opção de voltar para o ponto, não acalmou a sua fúria. Não tivesse eu o domínio suficiente da língua francesa, eu acharia que ele queria me matar. Enquanto teimava em me levar ao meu “infame destino”, ele batia com a mão no volante, reclamava alto e balançava freneticamente a cabeça. Essa cena, a priori, assustadora e supreendente, me rende, hoje, muitas gargalhadas.

Já em solos cariocas, o taxista tem que ser monitorado todo o tempo para, devido ao meu cabelo vermelho e a minha crônica falta de um bronzeado quando recém-chegada, não me rotular de gringa. O resultado disso é o tomar de caminhos bem mais longos e, por consequência, ter que pagar uma grana de responsa na hora chegar ao destino Por isso, entrando no táxi carioca, quando o taxista fixo que contratamos não está disponível, a tagarela, no caso, sou eu. Ainda não poupo sugestões sobre qual o caminho a ser tomado. Comento sobre as novelas, falo do Faustão e ainda peço pra ele sintonizar o rádio na MPB Fm. Nenhum gringo é capaz de fazer isso!

Já o taxista berlinense é, para dizer ao mínimo e com todo o trocadilho, econômico com as palavras. Em sua maioria são iranianos, turcos e a menor parte, alemã. Quando, por algum motivo eu não tenho como recorrer à minha bicicleta, batizada de Vilma Magrela e  tenho que andar de táxi, eu entro no carro, digo “Bom dia”, informo o destino e isso é tudo.

Passageiros que vem a Berlim fazer negócios e usam o táxi como o preferido meio de transporte vem reclamando frequentemente sobre a agressividade dos taxistas, entre outros, quando tentam pagar a corrida com cartão de banco ou de crédito. Em artigo publicado nesse fim de semana no Berliner Zeitung, eles atestam ouvir desculpas mirabolantes como: “Esse carro não é meu, é de reserva” ou “A máquina está com defeito”. Um dos entrevistados afirma até mesmo, que sua esposa passou um sufoco quando, depois de ter negada a opção de pagar com cartão, foi impedida de sair do carro até que concordou em ser levada até ao caixa automático do seu banco para, na sequência, pagar em espécie. Só um acionar da polícia, terminou com o mini sequestro relâmpago.

Em maio de 2015, o Tribunal Administrativo Superior de Berlim (OVG, na sigla em alemão) determinou que a Associação de Taxistas Berlinenses e de Brandemburgo são obrigados a aceitar, no mínimo 3 tipos de cartões de crédito diferentes. Detlev Freutel, da Associação se disse “aliviado” na época e ainda acrescentou: “Berlim e a primeira cidade da República a ter essa regulamentação“. Porém, entre maio de 2015 e os dias de hoje, a prática tem se mostrado contrária à estipulada pelo Tribunal. Enquanto isso, em cidades como Hamburgo e no centro econômico em Frankfurt, o pagamento com cartão funciona sem problemas mesmo sem prévia ordem judicial. Críticos do comportamento dos taxistas berlinenses supõem com a exigência de pagamento em espécie com a criação de um caixa 2 e com isso, a sonegação de impostos ou por querer encobrir trabalho ilegal, sem licença para trabalhar como taxista. Para ser taxista em Berlim é preciso um longo e custoso curso preparativo, muitos meses de aulas e uma prova de altíssimo grau de dificuldade.

A repartição que estipula os tipos de pagamento a serem feitos no táxi vai mais além do que o Tribunal: “Carros que não estão equipados para receberem pagamento com cartão, não tem permissão de circular“.

Outra medida que faz os taxistas berlinenses ficarem ainda pior na foto é o recusar do chamado trajeto curto (Kurzstrecke, em alemão). Quem estiver de passagem pela capital e quiser pegar um táxi para um destino que não ultrapasse 2 Km, paga somente 4 Euros, mas cuidado: no momento em que passa dos 2 km, o relógio da cambalhotas para alcançar o valor como se tivesse sido ligado desde o início da corrida. E as más línguas dizem que o valor ainda é mais caro. Por isso, quando você achar que os 2 km já estão chegando ao fim, confirme com o taxista e peça pra saltar. Senão, toda a estratégia terá sido em vão. Porém, é meu dever alertar para o fato de que a maioria dos taxistas berlinenses não fala inglês e que é preciso estar atento e não ficar de boa, algo que não se aconselha quando está em Berlim, principalmente na árdua tarefa de andar de táxi.

Por isso, e por inúmeras outras razões, a melhor maneira, a mais orgânica e visceral de conhecer a capital, é de bicicleta. Em algum momento futuro, haverá aqui um artigo para fazê-lo da maneira mais segura & prazerosa e tornar a sua estada inesquecível.