Angela Merkel: a encenação da própria despedida em doses homeopáticas

Fátima Lacerda

07 Dezembro 2018 | 14h38

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É muito raro ver políticos arquitetarem suas saídas de forma tao meticulosa e matemática como a chanceler alemã. Normalmente, tomados pela vaidade incontida e pela sedução que o poder exerce, políticos ficam até o último dia, até serem varridos do cargo; seja por seus superiores ou pela mídia como quarto poder no Estado, como acontece na Alemanha. 

Com Angela Merkel foi diferente. Pela sua biografia, tinha que ser diferente. Ela mesma, mesmo que não sem motivos o suficiente para deixar o cargo, fez questão de arquitetar sua saída como uma meticulosa coreografia. Se isso realmente irá acontecer, não se sabe. No mais tardar desde a queda do Muro de Berlim em 1989 sabe-se que a dinâmica política dos fatos podem atropelar tudo e todos. Merkel quer se manter como chanceler sem somar com o cargo de chefe do partido. Isso é novo na história do CDU e envolve riscos e é uma variante, por anos, negada por Merkel. 

Disputas constantes e Erosão de poder 

Foram anos aguentando o inimigo que mora ao lado. Para Merkel, Horst Seehofer, até bem pouco tempo chefe do partido bávaro, CSU, era o inimigo que mora ao lado. Mesmo pertencendo ao governo como partido ou participando das reuniões do gabinete todas as terças-feiras desde que ocupa a pasta de Ministro do Interior e da Pátria, Horst Seehofer era, de fato, a verdadeira oposição. Mais do que isso, o pior inimigo de Merkel, seu Saboteur. Usando do respaldo de políticos homens nos partidos da União (CDU, CSU) ele foi tecendo o martírio de Merkel com pérfido deleite, até que, mesmo a chanceler tendo “pele grossa” como prescreve um ditado popular para quem não é chegado a mimimi, ela cansou de tanto perrengue e seu esgotamento ficava cada vez mais visível. Mesmo que ela pudesse quebrar a coalizão com o CSU, elapreferiu teimar nele como suporte para formar o governo do que ter que deixar o cargo de forma precoce e arriscar um longo período de instabilidade para o país, no mais tarde depois da vertiginosa ascensão do partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla). Mas as armações de Seehofer não passaram desapercebidas por Merkel, ela que sempre defendeu a dobradinha como chefe do partido e chanceler, já que assim, não há muita discussão programática. Ela era o partido e o partido era ela que o pasteurizou, bloqueando quaisquer ventos hostís. E se é uma coisa que Merkel sempre quis evitar foi que ter que explicar muito ou mesmo tentar convencer seus colegas de partido sobre o andar da sua política, fosse a econômica ou concernente à política de imigração ou sobre o casamento homoafetivo.  Mas como nem mesmo a menina nascida em Hamburgo e filha de pastor protestante crescida na cidade de Templim na região de Brandemburgo (vizinha de Berlim) preserva eternamente o sangue de barata, ela decidiu ir passando o bastão em doses homeopáticas, sem atropelamento. Com essa medida de deixar a chefia do partido, Merkel vai contabilizando sossego para poder governar até o fim do mandato, esse muito sofrido, já que depois das eleições de setembro de 2017, a Alemanha precisou de seis meses para formar o atual governo, uma coalizão de conveniências entre a União e os Socialdemocratas, a chamada “Grande Coalizão”.

Onde essas brigas infinitas nos levaram, o CDU e o CSU, nós podemos constatar“, declarou a chanceler em sua último discurso como chefe do partido. O resultado de anos de vista grossa da própria Merkel pelos conflitos na porta de casa, foi um governo que não fazia entrega da agenda urgente que a Alemanha precisa em tantos setores. Os eleitores foram se afastando cada vez mais da política como instrumento de melhora para suas vidas, para a alegria dos partidos populistas e radicais de direita que contabilizaram milhares de “votos transferência” dos partidos políticos estabelecidos. Só do partido de Merkel forram 500.000 mil eleitores que banderam para o lado da AfD.

Auf Wiedersehen em doses homeopáticas

Na convenção do partido na sexta-feira (07) na cidade de Hamburgo, Merkel fez um discurso com a suavidade de quem está saindo de cabeça erguida, na postura, mesmo com visível erosão de poder e mesmo com a exaustão de tanta picuinha causada por Horst Seehofer, useiro e vezeiro em torpedear os caminhos políticos escolhidos pela chanceler, com todos os desdobramentos que isso pode causar: Instabilidade, celeumas intermináveis, ultimatos dados por Seehofer via mídia, pautas exageradas e questionamento por parte dos eleitores alemães que estavam de saco cheio de tanta briga e ansiavam por ver os políticos mostrando serviço, depois de seis meses de letargia política na capital Berlim.

Nesta sexta-feira (07) gélida na cidade de Hamburgo foi a última vez que Merkel discursou como chefe do partido. Nenhuma outra convenção federal, nos últimos 18 anos, período em que Merkel chefiou o CDU teve tanto suspense e tanta expectativa por parte dos delegados, da mídia e dos eleitores. O CDU aprendeu muito com os procedimentos democráticos do Partido Verde e, quem diria, não se esconde mais do debate aberto e controverso, algo que Merkel meticulosamente sufocou durante anos. O anunciar de sua decisão em não se recandidatar para a chefia do partido foi uma válvula de escape para muitos e há tempos necessária para que novas dinâmicas e energias e movimento do letárgico pudessem encher os debates e reformular o partido, fazer uma “transferência de gerações”, como diz o jargão.

Os três candidatos, antes de chegar a Hamburgo, tiveram uma maratona de 40 convenções regionais com membros do partidos em suas regiões para se apresentar. Os três discursos hoje tiveram um denominador comum: a necessidade de unir o partido, não importante quem sairia vitorio. Annegret Kramp-Karrenbauer, abreviada pela mídia como AKK, já que seu nome é um quebra língua até mesmo para os germânicos, o neoliberal Friedrich Merz, membro que Merkel neutralizou há 10 anos atrás quando ele ocupada a chefia da bancada do CDU no parlamento alemão e o Enfant Terrible Jens Spahn, o qual Merkel chamou para a pasta da saúde na estratégia que é melhor ter o inimigo perto para poder vigiá-lo, já que ele se mostrava como seu  ferrenho e espalhafatoso crítico e não escondia ambições de chefiar o partido. Mas Spahn, com seus 38 anos não convenceu, também pela sua nuance programática de um neoliberalismo de imensa frieza social, mesmo que analistas vejam o resultado de 15,8% no primeiro turno, como promissor para um futuro.

Há 10 anos, Merkel não “somente” neutralizou Friedrich Merz em sua então função, tomando seu cargo, como também o condenou ao ostracismo dentro do partido e ele sumiu do mapa. Dez anos depois Mera, vê a hora de sua vingança e a chance de ganhar o título de Comeback político do ano. E como não poderia ser diferente, o Clube do Bolinha (e no Brasil não é diferente) tece suas estratégias mais ou menos pérfidas. Wolfgang Schäuble, atual presidente do parlamento e ex-Ministro das Finanças no governo passado declarou, em entrevista a jornal, seu apoio a Merz, arqui-inimigo de Merkel, em entrevista a jornal nos últimos dias. O Clube do Bolinha queria evitar, de todo o jeito, que o partido fosse, novamente, chefiado por uma mulher depois do “reinado” de 18 anos de Merkel, mas isso de nada adiantou. AKK convenceu.

Enquanto sua forca política, dentro e fora do partido ia minguando a olhos vistos, no exterior Merkel ainda é recebida como um PopStar, como no último fim de semana em Buenos Aires no contexto da convenção do G20. Merkel, mesmo tendo chegado atrasada devido a pane do avião (o Blog noticiou), arriscou uma ida a uma churrascaria e foi recebida na saída como uma estrela de Hollywood aos gritos pelos argentinos, extasiados frente a tão prestigiosa visita. Deste lado do oceano,  os alemães estão fartos daquela que ganhou o apelido de “Kohls Mädchen” (a Protegèe de Kohl, ex-chanceler (1982-1998)), “A mulher mais poderosa do mundo”, pela Forbes e “Mutti” pelos alemães irônicos e pelos que com ela simpatizavam e tinham nela um polo de segurança num mundo cada vez mais turbulento e cada vez mais imprevisível.

Dicotomia

Mesmo sendo a diretora do filme de sua saída e mesmo depois de 10 minutos de Standing Ovations depois de seu discurso na convenção, o semblante de Merkel mostrava alguém que foi convidada para uma festa e não conhece ninguém, se sente deslocado e na retórica de Renato Russo diria. “Festa estranha, com gente esquisita“. Mesmo que isso pareca o contrário, essa expressão do rosto combina com a lógica merkeliana. Ela só gosta ser chefe da coreografia. Quando isso não acontece e a chefia fica com outros, ela é a deslocada no pedaço.

Tanto na política como em todos os setores da vida é importante saber a hora de sair e de fazê-lo de forma digna. Às vezes é difícil, mas necessário. Alguns perdem o trem e a hora de partir. Outros não. Merkel será lembrada por vários feitos em 18 anos na chefia do partido e na Chancelaria Federal, especialmente sua “atitude humanitária” em 2015 ao abrir as fronteiras e sua teimosia em protagonizar a coreografia de sua saída, será também uma delas.

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1001 membros do CDU estavam convocados para votar. 999 votos foram contabilizados válidos. 517 votos para Anegrett Kramp-Karrenbauer, 35 mais do que para seu concorrente Friedrich Merz. Na história do CDU Merkel foi a primeira mulher a ocupar a chefia do partido, depois de Konrad Adenauer, Ludwig Erhard, Kurt-Georg Kiesinger, Rainer Barzel, Helmut Kohl, Angela Merkel e agora , AKK

O semblante de Angela Merkel ao constatar que sua aliada foi eleita foi de gritante alívio, ver sua Protegèe lá onde ela quis e com ela, fazer o percurso até 2022, sem muitos atropelos e sair de cabeca erguida, caso a dinâmica política não tecer novos planos, inesperadas dinâmicas.