Cúpula do G7: cenários, metas, intenções e o instragram de Angela Merkel

Fátima Lacerda

09 de junho de 2015 | 19h05

Muito cheia de expectativa, BUNTE (colorido), a revista alemã de celebridades, divulgou eufórica na semana passada que a chanceler, essa tão arredia à mídia, agora tem Instagram. “Para conferirmos de perto as atividades do governo!”, publica a revista, instigando a ingenuidade de seus leitores.

Que Merkel não vai deixar ninguém “olhar em suas cartas” como ironiza um ditado popular daqui. É óbvio. Mas essa revista não perde a esperança de que um dia, Merkel tope fazer uma Homestory exclusiva.
A foto em que Merkel aparece frente a Obama gerou vários memes nas redes sociais. “O peixe era deeeeessse tamanho””, ironiza uma mensagem no Twitter. 

image-858498-galleryV9-ouef2.jpg©Reuters

 

A propósito transparência

Durante a cúpula do G7, que terminou na noite de segunda-feira (08) na pacata região da Baviera, o assunto mais delicado existente no momento entre a Alemanha e os EUA, o escândalo da agência NSA que teria obtido suporte técnico e logístico do Serviço Secreto Alemão (BND) para espionar Chefes de Estado na Europa, não fez parte da agenda dos temas as serem abordados. erkel e transparência são como água e azeite. Não se misturam. Merkel é de exímia competência em colocar debaixo do tapete tudo o que possa gerar polêmica, questionamentos e, ao seu ver, um mal-estar. Apesar dos gestos meticulosamente ensaiados e destinadas a rodar o mundo, a realidade é que o relacionamento transatlântico entre Alemanha e os EUA passa por uma fase extremamente delicada, assim comentário de Ulf Röller, correspondente da TV alemã ZDF, em Washington.

Merkel fez do G7 2015 uma “Cúpula de valores comuns”. Um toque de mundo ocidental como na época da Guerra Fria. Sem o presidente russo, que dessa vez ficou fora do “Clube Premium” e não irá ser recebido de volta tao cedo, o círculo lembra os velhos tempos.

Uma única vez durante os dois dias de roteiro ensaiado, Obama saiu da zona de conforto e arriscou: “Nós precisamos levantar a nossa voz contra a agressão da Rússia na Ucrânia e contra o terror do Estado Islâmico”, disse o presidente frente a bávaros, sob um céu de brigadeiro e mesa farta regada à cerveja, salsicha branca e deliciosos pretzels.

 

Merkel quis mostrar unidade. Mesmo que Obama tenha feito um dos pouco posicionamentos claros dessa cúpula, pleiteando sanções mais fortes à Rússia, Merkel puxou o freio de mão porque sabe se a caixa de marimbondo for aberta, a “Casa Europa” vai cair. As discrepâncias entre os países da UE em relação à Rússia são maiores do que o gosto de Madame Merkel.

Mesmo que todos os Chefes de Estado presentes no Castelo de Emlau saibam que a questão complexa do programa atômico do Ira, os problemas causados da Guerra Civil na Síria (incluindo a sobrecarga do governo turco com os refugiados diariamente nas fronteiras) não poderão ser resolvidos sem os russos como participantes na mesa de negociações. Um dia antes do início da cúpula, o grupo dos 7 alegou “nunca mais querer ter a Rússia” fazendo parte do encontro. Markus Kim, experto do Instituto de Ciência e Política em Berlim defenda a exclusão da Rússia: „Para esses problemas que necessitam a participação dos russos, existem outros fóruns, „o das Nações Unidas, por exemplo, onde se encontram todas as partes interessadas e defende que nessa cúpula do G7, com a Alemanha como anfitriã, „o ocidente se renifiniu“. A falta de credibilidade na cúpula como um fórum que possa conceber soluções para os problemas atuais é devido ao seu caráter de „sugestão, de intenções, mas que não tem a forca de uma União Europeia“, alega Markus em entrevista à emissora de rádio, Deutschland Kultur.

 Muita forma, pouco conteúdo

As fotos do Presidente Barack Obama, sorridente e tomando cerveja ao lado de bávaros vestidos a caráter é, sem dúvida, um lance marqueteiro. Entretanto quem pensa que todo o roteiro desse cenário pueril e de um mundo perfeito foi “somente” assinado pela mulher mais poderosa do mundo, se engana.

Como divulgou a TV alemã, ZDF, essa imagem de Obama “perto do povo” foi optada pelo protocolo americano. Afinal, é essa a Alemanha que os americanos conhecem. A Baviera, a cerveja de fabricação centenária, a vestimenta exótica são o cognitivo para que os americanos entendam, em que parte do mundo seu presidente se encontra. Entre tomar a cerveja do tipo Weizen (Fermentada de trigo) contendo álcool ou não, foi um motivo de discussão. Angela Merkel teria convencido o líder americano a optar pela variante sem álcool, provavelmente para prevenir críticas de apologia ao álcool, que é, de fato, uma das causas morte mais frequentes no país da cerveja.

 “Nessa região, a tradição e o moderno andam lado a lado. É um lindo pedaço da Alemanha”, enquanto Obama, ao lado, sorri de fora a fora. No topo de seu mandato, com o Prêmio Nobel da Paz no bolso mas ainda sem ter cumprido a promessa de fechar a prisão de Guantánamo. E daí? Na Baviera, o relógio anda de uma forma muito especial e fica longe de toda a mazela do restante do mundo.

 Imprensa à distância

Jornalistas do mundo todo foram alojados num centro de imprensa que ficava 1 hora de viagem do castelo escondido de Elmau. Para chegar até lá, precisavam esperar os ônibus do Setor de Imprensa do Governo Alemão, entrar em filas homéricas, passar pelo detector de metais além de ter caminho a pé até, finalmente, chegarem ao local.

Um fotógrafo do próprio governo, fixou uma minicâmera de vídeo na testa e documentou um intervalo de reuniões. Isso também está no Instagram, mas não revela nada especial, a não ser combustível para fofoca sobre quem toma café, quem não ou sobre a roupa da chanceler, algo supérfluo, já que seus ternos só mudam em cor. O corte é sempre o mesmo. Ao contrário da presidente Dilma, que continua na firme e forte na dieta incluindo passeios de bicicleta no Palácio da Alvorada, a dieta temporária da chanceler alemã foi por ordem médica. Um acidente enquanto praticava esqui durante sua férias de inverno na Suíça.

Metas e Intenções

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Obama, considerado o presidente com maior consciência ecológica que os EUA já tiveram, quer sair da Casa Branca deixando um legado no âmbito do meio ambiente e promete algo “relevante” na conferência que acontecerá entre 30 de novembro e 11 de dezembro em Paris. Em minha estada há duas semanas na capital francesa, o muro ao lado do Ministério das Relações Exteriores, localizado na Praça dos Inválidos, já anuncia o evento.

O presidente francês Hollande, descreditado em seu país e, tema número 1 de escárnio da revista semanal Charlie Hebdo, quer fazer uma bela figura como anfitrião dessa conferência. Tem objetivos audaciosos como “reduzir consideravelmente a emissão de CO2 até 2050. Entretanto, Merkel já freou suas ambições “Serão negociações duríssimas!”, principalmente devido à teimosia do governo japonês em assumir qualquer compromisso referente à redução de CO2.

Outras pautas

Terrorismo

Partindo da premissa que o Terror do Estado Islâmico ameaça toda uma região, Merkel convidou o Ministro Presidente do Iraque, o presidente da Tunísia e o recém-eleito presidente da Nigéria para “consultações” durante a cúpula.

África:

Na reunião com convidados africanos, a agenda principal foi a preparação da Conferência da UNO na metade do mês de julho na capital da Etiópia. O que o jargão chama de Absichtserklärung, uma declaração de intenções, os estado do G7 querem apoiar financeiramente a África em reformas concernentes à Paz, Segurança, Crescimento econômico e Economia Sustentável.

Grécia

O presidente americano se mostrou irritado porque a UE ainda não conseguiu resolver o problema da Grécia ao mesmo tempo que pleiteou „mais flexibilidade da comunidade internacional“. Essa irritação tem origem na falta de percepção geopolítica do que significaria a saída da Grécia da zona do Euro. Por essa razão e por nenhuma outra, Merkel, adepta da filosofia da „Casa Europa“ como imaginada por Mitterrand e Kohl, faz das tripas coração e arrisca até mesmo a perda de pontos de popularidade perante aos seus eleitores, para que a Grécia permaneça na zona do Euro.

Tirando os noves fora…

A região da Baviera obterá um grande aumento no número de visitantes dos EUA. O número de reservas de hotéis irá aumentar e o povo bávaro está nas nuvens, se sentindo o centro do mundo. A polícia da Baviera teve a operação mais cara de toda a sua história com uma equipe 10.000 policiais. 130 milhões de euros, assim a informação do governo alemão. Porém, a Associação dos Contribuintes da Baviera estima a quantia de 360 milhões.

Desenvolvimento e Cooperação:

Na convenção “Post 2015” a ser realizada no mês de setembro em Nova Iorque, a Agenda do Milênio deve concretizar seus próximos objetivos pela primeira vez considerando o aspecto de sustentabilidade. O governo alemão sugeriu durante o G7, até 2030 dizimar a fome e a subnutrição de 500 milhões de pessoas.

O Xeque-Mate

Com a escolha da pacata Baviera para a encenação do poder do „Clube dos 7“, Merkel deu um xeque-mate nos grupos contra a globalização, aos quais sobraram um passeio pacífico pelas montanhas para demonstrar o seu desagrado.

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