Angela Merkel: o Reload da campanha eleitoral e uma crônica falta de opção frente à “Chanceler do Mundo”

Angela Merkel: o Reload da campanha eleitoral e uma crônica falta de opção frente à “Chanceler do Mundo”

Fátima Lacerda

16 Agosto 2017 | 11h28

 

© picture alliance / Michael Kappeler/dpa

Segunda-feira ensolarada (14) na capital. O “Forum Politik”, um evento protagonizado pelo Deutsche Bank convidava, aproximadamente, 150 pessoas para assistir um entrevista que a chanceler Merkel daria à emissora Deutschlandfunk e à TV Phoenix. Essa entrevista, seria filmada e depois, exibida na TV aberta Phoenix e na emissora de rádio Deutschlandfunk.

Uma entrevista de Merkel resulta, sempre, em especial interesse midiático, já que a chanceler, muitíssimo bem assessorada, escolhe a dedos os lugares onde se apresenta e faz disso, um trunfo.

A entrevista à dois jornalistas, excelentemente preparados, simboliza, “não somente” a volta da chanceler ao batente depois das férias no Sul do Tirol, Áustria, mas o início da campanha eleitoral para eleições parlamentares em 24 de setembro. Pela quarta vez consecutiva, Merkel promete “servir ao país” e, se eleita, entrará no Hall dos “Chanceleres eternos” como seu mentor, Helmut Kohl, que governou a Alemanha entre 1982 e 1998.

O “concorrente”

O social-democrata Martin Schuz saiu “lá da “Europa” (Bruxelas) e, apesar de 23% intenções de voto para um partido glorioso de outrora, o SPD de Schroeder, Struck, Wehner, vai na estratégia que o ataque é a melhor defesa. Schulz continua afirmando: “Eu quero ser chanceler da Alemanha”e faz a internet surtar. Um usuário, escreveu: “Martin Schulz dizendo que quer chanceler é a mesma coisa se o HSV Hamburgo afirmar querer ser campeão da Bundesliga (campeonato alemão de futebol). Vale mencionar que o HSV vive, há 4 anos, uma miséria e a rotatividade dos treinadores tem formato de roleta russa. Batata quente é café pequeno, quando o assunto é o HSV Hamburgo. Na Política, o socialdemocrata Martin Schulz vai pelo mesmo caminho: Total perda da realidade e a certeza de que, a melhor defesa é o ataque. Ninguém na Alemanha precisa de uma bola de cristal para antecipar o cenário da noite do domingo (24/09) que será, de um lado, o lamento dos socialdemocratas e a soberania merkeliana que aposta na necessidade dos alemães em uma constante num mundo cada vez menos entendível e menos planejável.

“Respeito meus concorrentes”

Foi a frase diplomática que Merkel respondeu ao jornalista da TV Phoenix ao ser perguntada sobre Martin Schulz. Quando o jornalista tentou tirar dela alguma declaracao, dizendo “agora seria uma ótima oportunidade para a Sra. lhe fazer um elogio”, Merkel usou da famosa e infalível estratégia: ignorou a o tom instigativo do jornalista.

Nada mudou. Tudo como Dantes no Quartel de Merkel.  O discurso da chanceler foi morno, diplomático e recheado do chamado “Bônus de governante”, daquele político que ocupa o cargo e almeja reeleição. O que poderia passar despercebido no discurso requentado da última campanha, porém agravado pela dinâmica insana que a política internacional tomou (Erdogan, Trump, Guerra na Síria, Terrorismo, Hungria) é que o escândalo envolvendo o Diesel e as estatísticas faltas da Software usada pela indústria automobilística, são também produto da política de Merkel, inseparável dos lobistas da indústria automobilística como é infactível degustar goiabada sem queijo e vice-versa. Agora, Merkel quer fazer do escândalo sem precedentes no que a imprensa chama de “Cartel da Indústria Automobilística“, uma prioridade de chefe, (Chefsache, em alemão). Quem acredita nessa promessa, pode aguardar o Papai Noel quando o Natal chegar.

© Axel Schmidt/AP/DPA

(Da esquerda para a direita: Rupert Stadler/Audi e Herbert Diess und Matthias Mueller/Volkswagen)

Vale mencionar, que na recente “Convenção Diesel” realizada em Berlim e que teve presenca dos magnatas do setor de duas rodas (Audi, VW, Porsche entre outros), Merkel brilhou com sua ausência, se deixando “representar” pelo Ministério dos Transportes.

No início da entrevista no “Atrium Deutsche Bank”, com sua construcao de vidros suscinta transparência, o jornalista da TV Phoenix iniciou com a comparação entre fazer política e andar nas montanhas. “O que lhe amedronta mais. A subida ou a decida?“, em retórica morna para e tentando “tirar” algo de novo, de surpreendente da chanceler, algo esperado pelo público: “É preciso primeiro suber e depois descer”, filosofou Merkel. 

“Quantas vezes a dinâmica da política atual lhe “tirou” do clima de férias?” indagou Michael Hirz.

Merkel: O dia a dia durante as férias inclui que eu me intero sobre o que acontece, isso uso. Claro que também acompanhei a política internacional e o que aconteceu nos EUA” (Virgínia), mas não somente lá. Outros assuntos são de âmbito da política interna”. Em tópicos, os jornalistas foram tomando licado na matéria “cartilha de política internacional” de Merkel.

Coreia do Norte

“O conflito tem que ser resolvido de forma pacífica. Não é a intensidade da retórica que resolverá o problema. Porém as sanções são necessárias. Por isso me alegro que o Conselho da ONU ratificou isso. É importante que os EUA a China e a Rússia pernamecam juntas nesse caso. A Alemanha estará no lado do bom senso e isso implica em solução política para esse problema”.

Sempre quando surge crise no âmbito internacional, Merkel apela para “a coerência”, em discurso cuidadoso sobre a “dominância” ou “predominância” da Alemanha, para não assustar os países parceiros e muito menos deixar surgir medos e receios reminiscentes de outrora.

© picture alliance /Michael Kappeler/dpa

Donald Trump e os EUA

Nesse bloco, o discurso de Merkel foi especialmente morno. Sabemos que desde a posse de Trump, as Relações Transatlânticas estão estremecidas. Logo depois do segundo encontro com Trump em Bruxelas, Merkel fez um declaração inusitada, concernente à sua percepção política da qual as Relações Bilaterais com os EUA, era uma das pilastras.

Na Política externa existem dois lados: “A Alemanha e os EUA estão ligados por certos valores comuns, somos membros da OTAN, somos parceiros estreitos no comércio. Porém isso não impede que, em outros tantos itens, temos opiniões diferentes. Eu não fiz nenhum segredo sobre a lástima dos EUA revogarem sua participação no Tratado climático de Paris. Em questões de comércios existem também divergências. Precisamos continuar em diálogo. Eu alertei que os EUA está focado em seus próprios interesses econômicos. A Europa precisa tomar o próprio destino nas mãos. Pra mim isso é motivante. Com isso, teremos mais força.

A caráter exclusivo do evento, com a presença da diretoria do Deutsche Bank é mal ao gusto de Angela Merkel. Antes do início da entrevista, dois homens ao meu lado eram só elogio a chanceler “o caminho que ela seguiu” e “para ela não há alternativa”, incluindo piadas sobre seu “concorrente” Martin Schulz. A falta de alternativa nao é produto de um acaso ou de uma falta de fomento da “nova geração” do CDU, partido de Merkel, mas uma estratégica friamente calculada e executada com disciplina prussiana em neutralizar e “desovar” seus adversários políticos dentro do partido e aqueles que vislubravam ambições em suceder Merkel. Até mesmo a atual Ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, “administrando” um ministério falido, com equipamento obsoleto e quebrado, plataforma perfeita para os programas de sátira política, nao passa de uma Princesa Regente, somente uma lasca fina no terreno, indiscutível- e espaçosamente, ocupado por Merkel.

Refugiados

Merkel ratificou a “melhor parceria” com estados da África e elogiou “o progresso” realizado no último ano. “Nós entendemos que somente com uma cooperação com estados africanos” podemos evitar a imigração.

Em outra frase, Merkel falou o que seus eleitores queriam ouvir: “A crise de refugiados como em 2015 não pode, de forma alguma, se repetir”. Merkel também expressou ceticismo sobre o “Regulamento Dublin II” (2003), assinados por todos os membros exceto a Dinamarca. O Regulamento define que o primeiro país europeu em que o refugiado adentrou deverá ser o responsável por sua solicitação de asilo. A justificativa para tal definição é a de que todos os Estados pertencentes à União Europeia seguem as mesmas normas e princípios no que tange ao recebimento e tratamento dos refugiados e, portanto, todos os indivíduos receberiam o mesmo tratamento e teriam os mesmos direitos em qualquer país que o acolhesse. (Fonte: 17 MINIONU).

Merkel e Bob Dylan: semelhanças

O recém-premiado com o Prêmio Nobel de Literatura é famoso pelo seu economismo no palco, que não seja a se igualar ao de Miles Davis, que exigia luz mínima no palco e, por vez, tocava de costa para o público, como o fez várias vezes no Festival de Jazz de Montreux. Nesse mesmo Olimpo, certa vez, assisti a um show de Bob Dylan, com linguagem corporal beirando o nível 0, assim como a comunicação com o público. Zero!. Um momento em que ele deu “um suingue” dobrando os joelhos ao fazer um acorde, teve um efeito gigante. Logo depois do show, liguei pra Christian, reclamando da linguagem corporal inexistente do excêntrico cantor. Christian, exímio conhecedor dessas lendas somado a um excelente gosto musical, retrucou: “Você teve sorte! Ele, geralmente, nem se mexe! Uma dobrada de joelho (!), é grande coisa!” Assim o efeito Merkel. Um simples, “Olá”, ou retrucando a jornalista Birgit Wenzien que a confrontou com uma frase de há anos atrás, com olhar de menina sapeca e já doida para dar uma alfinetada na jornalista, Merkel, sem pestanejar, disse: “Resposta muito inteligente, nao é mesmo”, acarinhando a ânsia da platéia presente por um momento de “Merkel de carne e osso”.

Na segunda-feira ensolarada, os presentes na prestigiosa matriz do Deutsche Bank ansiavam por um momento legère, uma brincadeirinha ou até mesmo um desengocado “Boa Tarde”, ao ser apresentada pela jornalista Birgit Wenzien.