Angela Merkel: o abacaxi com Burkini e a urgência em mostrar serviço

Fátima Lacerda

19 Agosto 2016 | 09h15

German Chancellor Angela Merkel briefs the media after a meeting with the members of Bosnian tripartite Presidency Bakir Izetbegovic, Mladen Ivanic and Dragan Covic at the chancellery in Berlin, Thursday, June 30, 2016. (AP Photo/Markus Schreiber)

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Recém chegada de suas férias em solos austríacos, uma das primeiras declarações da chanceler alemã foi sobre o uso do Burkini, o biquini de corpo inteiro usados por mulheres adepta das de religião do Islã . “O Burkini é um impecílio para a integração”, declarou a chefe da União Democrática Cristã, CDU (na sigla em alemão). O tema é o assunto principal nos meios de comunicação franceses e alemães. Usar Burkini na Costa Azul da França resulta em multa de 38 euros.

Im Burkini kühlt sich die Berlinerin Abir am Montag (20.08.2012) in einem Freibad in Berlin. Nach dem bisher heißesten Wochenende des Jahres liegen die Temperaturen zum Wochenanfang immer noch über 30 Grad. Im Laufe der Woche sind Gewitter angekündigt, und es soll kühler werden. Foto: Stephanie Pilick dpa/lbn +++(c) dpa - Bildfunk+++

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Burkini em piscinas públicas

Nó último domingo (14) duas libanesas foram constrangidas e xingadas por usarem o biquini de corpo todo. O resultado, depois de olhares If looks could kill e constrangimento público na piscina em Bad Saarow, Brandenburgo, cidade vizinha, foi matéria no principal noticiário de TV de Berlim e uma queixa na polícia dada pela libanesa por ter sido ofendida: “Nós fomos xingados e indagados como ainda nos dias de hoje, alguém pode se vestir assim”, declarou em entrevista à RBB, emissora de TV de Berlim. Mesmo depois que o salva-vidas da piscina pediu para a família, que vive há 23 anos em Berlim, para que “da próxima vez” usar outras vestimentas, os frequentadores de Bad Saarow não ficaram satisfeitos.

Enquanto em Berlim, o banho com Burkini é permitido, em Brandenburgo ainda não há uma linha definida sobre isso, o que, em esquinas menos tolerantes pode funcionar como um adubo para os populistas de direita e para os que não gostam e nem toleram o que é “diferente”, percebendo em esquisita indumenta, um pretexto para destilar a intolerância, a xenofobia ou mesmo um complexo de inferioridade.

O grupo regional do CSU bávaro assim como toda diretoria do CDU de Merkel estão enlouquecidos na procura de uma solução que não seja regada de uma dicotomia cínica: de um lado, a política de boas-vindas, ousada por Merkel em agosto do ano passado (e o resultado dela nós sabemos qual foi), o ano eleitoral que está por vir e a clientela conservativa do centro-direita.

Merkel está entre a corda e a caçamba. Tem mostrar serviço na forma de uma solução na qual ela possa manter a sua credibilidade. Por um lado, não negar a política de boas-vindas, por outro, não permitir que ainda mais ex-eleitores do CDU imigrem ou “emprestem” seu voto para o partido de direita populista que vende seu peixe afirmando ser uma “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla em alemão). De acordo com um prognóstico divulgado em 17/08 pelo Instituto FORSA, a AfD se mostra com 15% da intenção de votos. Sendo necessários somente 5% para compor a bancada no parlamento de Berlim, parece inevitável a estreia do partido no próximo período legislativo. Juntamente com a provável volta dos Neoliberais (FDP, na sigla em alemão) o clima político na tradicionalmente revolucionária e esquerdista Berlim estará árido. A não proibição do traje da Burkini pode ser um tiro que sairá pela culatra.

O fetiche dos alemães por leis, regulamentos e tudo que “vem lá de cima” se mostra  tão intenso que, enquanto não houver uma lei ou regulamento prescrevendo como lidar com o Burkini, episódios igualmente constrangedores e indignos como em Bad Saarow, continuarão acontecendo.

O exótico, o estrangeiro

Quem afirmar que em cidades como Colônia e Berlim não há sociedades paralelas, está ou sendo desonesto ou tampando o sol com a peneira. Em Köln-Deutz e em Berlim-Neukölln existem, sim, sociedades paralelas como a pregação de ódio e adubo para a radicalização dentro da religião do Islã.

Em Berlim Neukölln, poderosas famílias libanesas controlam bairros inteiros, estorquindo dinheiro de comerciantes locais e aplicando suas próprias leis.

No bairro aristocrata de Charlottemburgo o terreno é da Máfia russa, a mesma que organiza com matemática precisão os assaltos a joalherias e também da KaDeWe, a loja de departamentos mais famosa de Berlim, da qual o sexto-andar, com grastonomia dos quatro cantos do mundo você deve, impreterivelmente, visitar quando estiver em solos berlinenses.

A polícia e a justiça sabem da existência dessas familias que volta e meia são foco de notícias na TV por responderem processos de agressão, suborno, tráfico de mulheres, tráfico de drogas, sonegação de impostos, só para citar alguns.

O constrangimento e a irritação com o uso de Burkini em Brandenburgo combina muito bem com o solo movido pela rixa a “enxurrada de imigrantes” que “invadem a Alemanha”. Muitos dos alemães es associam a imigração dos refugiados como se deu desde setembro de 2015 como um sentimento de perda da própria identidade. Um olhar mais atento, entretanto, revela que não é “só” um medo de uma “invasão”, mas falta de uma clareza sobre a própria identidade e como lidar com suas virtudes e mazelas. Pode-se criticar a política de Merkel do jeito que for. O estrangeiro, o exótico e aquilo que é inusitado é independente de tudo isso, mesmo porque, quem vive em Berlim há muito tempo já nota a diferença no âmbito urbano muito mais do que todos os aos anteriores. Porém, quem sabe onde tem seus pés fincados, sabe que o resultado de um política de imigração errônea e para inglês ver, não representa uma ameaça e muito menos perda das características “tipicamente alemães”, como de assistir o seriado de suspense “Tatort” nas noites de domingo, de deixar de festejar os feriados e muito menos abdicar do vasto ritual natalino, do dia de São Nicolau, do de S. Martin ou dos deliciosos rituais em volta do feriadão da Páscoa.

A cultura alemã só está ameaçada para quem realmente não sabe onde e como lidar com ela e isso vale para nascidos e chegados.

Que a Cultura de Boas-Vindas iniciada por Merkel lhe coloca frente ao maior desafio de sua carreira política, isso não há dúvidas. A chanceler terá que cortar uma dobrado para conceber a estratégia de campanha para as eleições de setembro de 2017.

As eleições regionais em Berlim, em setembro próximo, podem ser o primeiro termômetro para a política de Merkel já que votações regionais sempre são um termômetro (na melhor das hipóteses, uma bússola) uma bússola para a ida ás urnas em âmbito nacional, especialmente porque Merkel, mais do que quaisquer convicções, foca na politica como um “empresariado de crises” com o intuito de se manter no poder e faze-lo de forma meticulosa e bem assessorada, instrumentos que faltaram na percepção da ex-presidente Dilma, que notoriamente dormiu no ponto.

No caso Merkel, não há alternativa. Desta mesma forma percebe  o “The Economist” que ainda foi mais longe, desejando “mais um período de governo” para a chanceler.