“Antes o tempo não acabava” é selecionado para a mostra paralela da Berlinale

Fátima Lacerda

21 Janeiro 2016 | 15h26

A participação dos filmes brasileiros na edição 2016 da Berlinale irá brilhar pela escassez em algumas mostras e ausência total noutras.

Para jornalistas que residem na capital, o festival já iniciou com cabines das diferentes seções: “Panorama”, “Forum”, “Generation”, “Perspectiva do Cinema Alemão“.

A informação que se tem dos atuantes no processo de seleção é que, nesse ano, ” Foi muito difícil achar filmes do Brasil” que combinassem com a trilha temática da mostra x e y”.

De um jeito ou de outro, a conta não fecha. Achar um filme brasileiro neste ano na Berlinale é como procurar agulha num palheiro.

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Uma bem-vinda exceção nesse oásis do cinema brasileiro é o filme “Antes o tempo não acabava“, dirigido pelo amazonense Sérgio Andrade (esquerda) e codirigido por Fábio Baldo (dir.), residente em SP. A dupla já trabalhou em conjunto no filme “A Floresta de Jonathas”, filme que despertou o interesse da distribuidora alemã Bildkraft e foi exibido 2014 em algumas cidades da Alemanha no circuito alternativo de salas com foco no cinema mundial autoral.

Antes o tempo não acabava” será exibido na segunda mostra mais importante do festival, a “Panorama”, tradicionalmente principal plataforma do cinema brasileiro em Berlim.

Na última edição, o cinema nacional foi devidamente prestigiado: “Sangue Azul“, dirigido por Sérgio Lirio foi escolhido para ser o filme de abertura da segunda mostra mais importante do festival.

“Que horas ela volta?”, foi o filme que, além de lever o cobiçado prêmio de público em 2015, bateu todos os recordes de salas lotadas com as inúmeras projeções da obra-prima da diretora e roteirista Anna Muylaert que retorna à mostra Panorama, desta vez com o filme “Mãe só há uma“. Juntamente com “Curumim”, documentário do diretor Marcos Prado, são somente 3 filmes brasileiros que estão na mostra “Panorama”. 

Ao contrário do divulgado no portal da Revista Época na coluna de Bruno Astuto, nem o filme de Anna Muylaert e nem qualquer outro filme brasileiro foi selecionado para a mostra competitiva na corrida pelos Ursos de Ouro e Prata.

O filme “Zona Norte” da diretora Monika Treut foi filmado totalmente na capital carioca, mas é uma produção alemã.

Rio-Manaus-Berlim

Thiago-Almeida.jpgRita-Carelli-Anderson-Tikuna.jpg©Yure Cesar

Filmado na comunidade Tikuna do bairro Cidade de Deus, zona norte de Manaus, conta a história do personagem fictício Anderson, um jovem indígena, com 20 anos de idade, que entra em choque com tradições arcaicas e acaba deixando a comunidade onde mora e seguindo para o centro de Manaus.

Ao receber a notícia, o diretor Sérgio Andrade publicou eufórico no perfil do seu Facebook: “O Anderson já está começando a ganhar o mundo!” O co-diretor Fábio Baldo expressou a sua euforia da seguinte maneira: “Eita que felicidade maluca saber que o filminho novo fará sua estreia mundial nesse lugar absurdo de maravilhoso!!“.

A coprodução Brasil-Alemanha tem a Rio Tarumã Filmes e a 3 Moinhos do lado brasileiro e a Autentika Filmes, do lado alemão. Como selo de qualidade, depois de apresentar à comissão de seleção uma versão rough-cut, o filme foi selecionado pela iniciativa World Cinema Fund (WCF), ligada ao festival de Berlim. Em parceria com o Ministério Alemão das Relações Exteriores e o Instituto Goethe o WCF, criado em 2004, tem oferecido suporte financeiro para produção, pós-produção e distribuição de projetos de baixo orçamento do cinema autoral mundial. Ser selecionado para o WCF é um selo de qualidade de ante mão, e, na maioria das vezes, encurta o caminho para um lugarzinho ao sol no olimpo do cinema autoral em solos europeus.

Antes o tempo não acabava” foi contemplado também pelo Fundo Setorial do Audiovisual da Agência Nacional do Cinema (FSA/Ancine).

Paulo de Carvalho, um dos fundadores da Mostra Brasil CineMundi em Belo Horizonte (MG), é proprietário da produtora Autentika Filmes. Radicado na Alemanha há mais de 2 décadas, o paulista já foi várias vezes premiado e está sempre presente com coproduções como „Filmefobia“, „Dias de Santiago“ “Post Mortem” „Girimunho“, „Workers“, „N.N“ em festivais de prestigio no velho continente Depois do anúncio da seleção do filme, vinculado hoje (21) pela comissão do festival, Paulo, já com o pé no avião para ir a Mostra de Cinema Tiradentes, conversou com o Blog:

Numa edição em que o cinema brasileiro está pouquíssimo representado na Berlinale, qual é a importância da seleção desse filme?

PC: É importante porque é um filme que vem da região do Amazonas, uma região que tem uma cinematografia em desenvolvimento. Importante também estar na segunda mostra mais importante da Berlinale. Eu acho que o filme encaixa, pelo formato e pela sua temática que vejo muito bem acolhido na mostra “Panorama Special”. Tem também o aspecto que o Sérgio é um cineasta muito expressivo no Amazonas, o que mostra que as iniciativas de fomento cultural estão funcionando bem no Brasil.

O que te instigou decidir entrar na coprodução desse filme?

PC: Primeiro de tudo, eu conheço o trabalho do Sérgio. Segundo eu acho que ele trata de um tema importante, do jovem indígena que está entre as tradições da comunidade e da cidade grande. O filme tem questões políticas, sociais, pessoais e sexuais, porém sem cair em clichés, esses muitas vezes esperado pelo Europeu em sua percepção dos índios do Brasil. O Sérgio aborda a questão indígena sem oferecer respostas imediatas, exigindo muito do expectador.

A programação completa do festival que vai de 11- 21/02 estará disponível, na intégra, a partir do dia 02/02, logo depois da coletiva de imprensa no site berlinale.de

Para acompanhar o festival (entrevistas, coletivas, fotos, vídeos) acesse a conta no Twitter: CinemaBerlin