Morre o ex-chanceler e socialdemocrata Helmut Schmidt (1918-2015)

Fátima Lacerda

10 de novembro de 2015 | 18h04

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O social democrata, o adepto da filosofia hanseática de que o menos é sempre mais, o notório fumante, o irônico e aquele que depois do fim da carreira ativa se tornou uma instituição no país e temido analista político até há 2 meses atrás, quando foi operado na perna. Depois da operação, decidiu por livre e espontânea vontade, deixar o hospital. A manchete “Schmidt voltou a fumar” se fez necessária. Desconcertando o politicamente correto, Schmidt fumava em simpósios, convenção nacional dos social-democratas (SPD), para o qual era um cobiçado convidado para discursar. Ele. A instância moral e intelectual. Temido analista da política contemporânea. “O perigo da UE de desabar, não é de 0% e eu vejo que muitos políticos não tem consciência disso”, alertou.

Um cara de posicionamento definido. Instigava o diálogo, procurava o diálogo. Schmidt era um autodefinido amigo da China. Diz ter conhecido Mao Tse Tung e ter feitos amizades na China para toda uma vida, amizadoes essas, das quais foi se “despedir” em 2012. Perguntado por jornalistas sobre a crônica falta de direitos humanos na China, Schmidt ousou: “Os direitos humanos são uma invenção do mundo ocidental“. Essa frase lhe gerou ácidas críticas, mas ele a manteve até o fim, acrescentando o eurocentrismo de políticos, “incapazes de entender a cultura chinesa”.

96 anos foram intensamente vividos, 68 ao lado de sua esposa, a bióloga e pedagoga Hanelore, vulgo Loki, que faleceu em 2010.

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Schmidt iniciou sua carreira como Senador para Assuntos internos no senado de Hamburgo, cidade para a qual ele não poderia ter sido melhor cartão de visitas. Durante a época de uma enchente avassaladora em 1962, Schmidt provou ser um bom “empresário de catástrofes”, ganhou fama em todo o país. Em uma entrevista, perguntado de como conseguiu “empresariar a catástrofe da enchente”, ele, mais uma vez, usou de seu formato hanseático: “Por todo lado tinha gente cantando de galo, espalhando histeria. Alguém tinha que fazer o serviço”, declara com um sorriso nada modesto.

Entre 1974-1982, numa das épocas mais conturbadas da sociedade alemã, ele foi o chefe na chancelaria federal, então em Bonn. O chamado “Outono Alemão” (Der deutsche Herbst) foi marcado pelo terror da Fração do Exército Vermelho (RAF, na sigla em alemão), também conhecida como Baader-Meinhof e o sequestro do avião “Landshut” , o voo 181 da Lufthansa e a feliz libertação dos reféns pela unidade de elite antiterror, G9, do exército alemão em Mogadíscio na Somália. Esse episódio foi filmado e exibido em 2008 na TV aberta alemã e conta com a atuação da atriz brasileira, Isabella Parkinson.

Abaixo, o filme em original com legendas em inglês.

https://www.youtube.com/watch?v=DAj_HFPwu64&index=2&list=PLNvYXf2Y1oE9OQr6z4GJByW59MbhksL__

Também a declaração de guerra dos RAF a expoente da elite alemã, marcou a gestão de Helmut Schmidt. A mais expoente foi o sequestro, seguido de morte do industrial Hans-Martin Schleyer, que depois de ficar preso 5 semanas e sem que o governo alemão se deixasse subornar, Schleyer foi assassinado.

Veja aqui o vídeo de um discurso de Schmidt transmitido em rede nacional, logo depois da morte de Schleyer. “A notícia sobre o assassinato de Schleyer me chocou profundamente“, um início de discurso inusitado para um essencialmente pragmático e conhecido por arregaçar as mangas, sem mimimis. Porém nesse momento, Schmidt entendeu o clima que acometia os alemães. Também a crise do petróleo foi um desafio durante o governo do social-democrata.

O posicionamento de Hardliner e de, nenhuma forma, ceder à pressão de terroristas foi uma constante no governo Schmidt, que começou “quase” por acaso. Depois da renúncia de seu antecessor, Willy-Brandt quando descobriu que Günter Guillaume, um dos seus funcionários mais chegados e ligado de forma pessoal à família de Brandt, durante anos foi  espião, especialmente enviado pela polícia secreta da Alemanha Oriental, a STASI. e tendo acesso a importantes documentos do governo.

O então chefe da bancada dos social-democratas no parlamento, o invocado e colérico Herbert Wehner, para o qual todos os interesses pessoais deveriam estar subordinados ao interesse do partido, sugeriu: “Schmidt, por que não você?”. Mesmo depois de inicial relutância, Schmidt comprou a briga do partido. O amor que os alemães dedicaram a Willy Brandt, não lhe foi concedido, mas imenso respeito e reconhecimento de sua contribuição para a Alemanha toda uma vida.

Depois do anúncio da morte de Schmidt, Angela Merkel fez um pequeno pronunciamento à imprensa: “Helmut Schmidt era uma pessoa importante para mim, no âmbito profissional e pessoal. Seus conselhos me eram muito valiosos“, declarou a chanceler.

Desde o final da tarde, horário local, cidadãos da cidade de Hamburgo, depositam flores e velas em frente à residência do ex-chanceler, que para eles é mais do que o ex-senador regional, mais do que o ex-Ministro do Exército e mais do que o ex-chanceler. Helmut Schmidt é compatriota, “O garoto hamburguês”.

Depois de sua carreira ativa, ele se tornou publicitário e redator-chefe do jornal Die Zeit. No melhor formato de autoironia, Schmidt eternizou a frase: “Políticos e jornalistas dividem o triste destino de falar hoje sobre coisas, que só entenderão amanhã“.

http://www.zeit.de/index

Em pronunciamento à imprensa, Schmidt é lembrado como “Um Grande Europeu”, “Um político de verdade”, um que, ao mesmo tempo não se deixava dobrar, mas que mantia portas abertas para o diálogo como uma das suas premissas. Sua proximidade com o então presidente francês Valerie Giscard D’Estaing é tido como importante alicerce do que depois seria a “Casa Europa”.

Os feitos do ex-chanceler, que por nenhum acaso denominou sua biografia “Schmidt, fora do cargo” (Schmidt, Außerdienst) e nela brinca dizendo que, na realidade nunca deixou de ser chanceler, também teve relevante importância política no Brasil. Durante a ditadura militar e em visita oficial e quebrando todo o protocolo e ignorando qualquer conselho de sua equipe sobre um tiro no pé diplomático, ele teimou em visitar o então sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. Lula, por sua vez, declarou em sua visita a Berlim, em 2009, que jamais esqueceu o gesto do ex-chanceler.

Nas redes sociais, usuários tomam posse da memorável ironia schmidtiana ao se despedirem:

O usuário Michael Schötter, anuncia: “Hoje eu vou fumar um cigarro em homenagem a Schmidt“.

Depois de 96 anos, ele provou que fumar mata“, brincou a usuária Andrea Exler

O caricaturista Thomas Plaßmann também não economizou em humor: “Um piloto se vai”.

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Schmidt tinha uma conta no Twitter, na qual raramente postava. Num dos posts de agosto de 2013, ele postou: “Estou prestes a completar 95 anos. Que idade terrível!”, refletiu.

No início da noite (10), horário local, o hashtag #HelmutSchmidt foi o tópico mais usado e o tuíte na Alemanha que ficou fora de área várias vezes.

No que será o último tuíte, hoje, só foi postada uma cruz. https://twitter.com/helmutschmidt

Os 3 políticos alemães que mais admirei foram Willy Brandt, com quem falei pessoalmente durante 3 minutos na noite de 10 de novembro de 1989. O ex-presidente da república e prefeito de Berlim, Richard von Weizsäcker, com quem falei pessoalmente aproximadamente 1 ano e meio antes de sua morte. 3 tentativas de entrevista com Helmut Schmidt foram negadas. Não pelos seus assistentes, mas por ele mesmo, que decidia quem recebia e quem não. O trio não ficou completo, mas a autonomia de Schmidt em não conceder a entrevista é coerente e lógico com o todo o seu estilo de governo. Aquilo que hoje a classe política tem crônica falta: perfil, personalidade e visão.

Hoje, no céu, a placa com os dizeres: “É proibido fumar”, se tornou obsoleta. Schmidt chegando.