“Apelo ao Bom Senso”: Discurso de Thomas Mann na Berlim de 1930 exibe assustadora contemporaneidade

Fátima Lacerda

26 de outubro de 2018 | 16h14

 

Já mencionei em artigo recente que, meu primo, neoliberal, simpatizante com o Dória em São Paulo e que votará no canditado número 17 em âmbito nacional, me acha sem legitimação para opinar sobre a situação politica nas crises em vários âmbitos (moral, político e cultural) que o Brasil atravessa e sobre a ida às urnas mais importante da história recente. E não é “só” o meu primo, outras pessoas, até agora muito queridas, também pensam da mesma forma (em diferentes intensidades). Elas decidiram votar pelo candidato que ”vai botar ordem no Brasil”. Não sou e nunca fui a favor de terminar amizades por causa de politica e me nego a fazer barraco no Facebook ou discutir virtualmente. Desta vez, a imensa dramaticidade das eleiçoes presidenciais, está muito difícil conciliar, dialogar em tempos de cegueira coletiva. Nesse argumento, me desqualificando, tem um ranço de um ditado muito usado durante a Ditadura Militar: “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. Na mente e no perceber de muitas pessoas, quem deixou o Brasil, não o ama e (também) por isso, não tem legitimidade para dar pitaco em assuntos políticos. É um despatriado.

Mesmo há décadas residente em Berlim, eu ainda tenho um passaporte brasileiro, tenho amigos e parentes, colegas tenho família. A minha brasilidade não sucumbiu. Aliás, ela não sucumbe nunca. Pode tomar outras formas, outras nuances. Apagar, nunca.

Me lembro das aulas de Moral e Cívica, me lembro da Creuzette ouvindo baixinho as musicas do Jardes Macalé, esse que depois de muitos anos, em Berlim vim conhecê-lo pessoalmente, ao entrevistá-lo no contexto do Festival de Cinema “Première Brasil”. Jardes contou sobre seus conspirativos encontros com Glauber Rocha. O diretor genial pegava no seu braço com seu sotaque baiano e evitando maiores delongas, dizia”: “Não quero que seu nome seja associado ao da minha pessoa” com medo que Macalé sofresse represálias dos militares no auge da Ditadura e no auge da repressão.

Origens

O meu Jardim de infância era  na Vila Militar, em Deodoro no Rio de Janeiro. As excursões de domingo eram no Campo dos Afonsos, meu tio fazia uniforme para militares. Quando eu ia a Marechal Hermes (vinda da Tijuca), visitar os meus avós, da loja de balas ao lado da loja de loteria do meu avô, eu via os milicos subindo as escadas do sobrado no bairro de Marechal Hermes para contratar os serviços de alfaiataria. Meu irmão foi Tenente da Marinha, o orgulho da família. Meu tio, Tenente da Aeronáutica e hoje, na reserva e efervescente cabo eleitoral do candidato do PSL e um dos motivos pelo qual, eu deixei o grupo do Whats App da família. Estava ficando insuportável.

Ser de uma família de militares injetou em mim uma aversão intrínseca e inegociável a qualquer exercício de poder cego, do poder por hierarquias por vaidades puerís em detrimento a valores consistentes. Por minha sorte, eu tive uma mãe obcecada por música, teatro e artes. Eu cresci nos teatros, nos cinemas. Podia ficar acordada para ver a transmissão dos festivais da canção e uma Baby do Brasil, cantando “Você pode fumar baseado, baseado em que você pode fazer quase tudo”. Na turma das meninas tijucanas, eu era a única que tinha uma mãe tão vanguarda. Isso era exótico e um tanto “suspeito” para as donas de casa tijucanas.

Memórias de tortura e silêncio mórbido

Quando estudei Letras, me lembro de um relato da então professora de literatura Brasilia. Vera era uma mulher sisuda, de ternura comedida, quase não sorria e nunca se permitia brincadeiras. Certa vez, falando da ditadura militar, ela contou como seu marido, professor de história, guardava sequelas da tortura que sofrera e tinha pesadelos a noite em que revivia os choques elétricos que recebera saltando da cama em horizontal como o reflexo dos impactos. O silêncio que se instalou na sala me causa arrepio até hoje assim como o olhar de quem tem conciência do tempo perdido. Do tempo que nunca mais volta. 

Essas lembranças são antigas e inesquecíveis. Nesse momento, em que o Brasil se encontra, numa escolha de Sofia entre a volta do militarismo e a validade da Constituição e do Estado de Direito de uma democracia jovem, equivocada e cheia de defeitos, o meu coração se encontra devastado, uma agonia no peito por ver, sucessivamente, um engano fatal de que um político irá consertar o que foi feito de errado em décadas e como o Brasil mergulhou num imenso abismo. uma mistura de campo de batalha, delegacia, motim e cantos de, ao mesmo tempo, regozijo e desespero frente a um cenário que, na reta final das campanhas, me parece inevitável.

Também os alemães esperaram um Salvador da Pátria para livrar o país de todos os males.

Ficar longe (mais do que a geografia já exige) de pessoas que eu amo, me coloca frente a um grande desafio. Como continuar a me relacionar e manter amizade com pessoas que apoiam um candidato imprevisível, racista e despreparado ao mesmo tempo que rodeado de capangas para executar seu servico sujo? Ao mesmo tempo, constato (independente do nível de escolaridade) grande analfabetismo político, erros históricos e desonestidade intelectual, mas também vejo a vontade de muitas pessoas em ver o Brasil, um país sério e com oportunidades para todos e mesmo assim, porém escolhendo com a emoção, com o ódio, movido pelo preconceito não pela razão movidos por ávida procura de um bode espiatório. A história está cheia de exemplos dessa dinâmica e o resultado é e só pode ser a segrezação e todos os desdobramentos que isso implica.

Agora é hora de um apelo ao bom senso, a razão e não ao ódio e longe da neutralidade que não pode existir quando tantos valores e conquistas estão em jogo. Pessoas que fazem parte da minha vida ao mesmo tempo que, politicamente, estão a milhares de léguas distantes, se mostram convencidas, irredutíveis de que candidato do PSL irá “dar um jeito” no Brasil. Me lembro da campanha eleitoral do Moreira Franco, então candidato ao governo do Rio de Janeiro. Ele prometia “acabar com a violência em 6 meses”. Ainda muito garota, mas sempre assistindo o horário eleitoral, eu achava aquilo uma proposta ousada, tinha dúvidas se aquele lema era factível. Creuzette votou nele, com essa esperança, ela que era centro-direita e meu Pai era simpatizante de Lionel Brizola. Meu avô era comunista e sofreu represálias em local de trabalho até perder o emprego. Meu Pai cresceu com esse cuidado sobre o que falar e, acima de tudo, onde e quem. Esse futuro eu não quero. Nem pra mim, nem pras pessoas que eu amo e nem pro país que é a minha Terra Natal e onde, em grande parte, fui socializada.

Promessas e Lemas

A ascensão do fascismo na Alemanha e o momento que o Brasil atravessa, exibe varias similaridades com o período da República de Weimar (1918-1933) na Alemanha e sua fragilidade democrática perante a muitas crises de como a republica deveria ser. Os esquerdistas estavam divididos e os nacionalistas de viam a época pós-guerra como “”um momento bolchevista e anarquista”. E quando a Alemanha se negou a pagar o volume de dinheiro especificado no Tratado de Versalles, a erosão da jovem e frágil democracia, somada à miséria social resultante da I Guerra Mundial, foi adubo fértil para a ideologia do NSDAP de Hitler.

Aproveitando a fragilidade, Hitler, juntamente com a corja do NSDAP (Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães) tentou um golpe em 1923 em Munique, querendo pegar carona na “Marcha de Roma” realizada por Mussolini, na Itália e realizar a “Marcha para Berlim”. Já no dia seguinte o golpe foi sufocado e seus participantes, presos. Entre eles, Adolf Hitler.

Nos meses de prisão, ele escreveu a primeira parte do livro “Minha luta” (Mein Kampf), no qual ele descreve, claramente, as suas propostas. O erro crasso dos alemães, na época numa sociedade divida como atualmente o Brasil, subestimou o ditador. De paciência esgotada com os partidos estabelecidos, sofrendo fome, miséria e hiperinflacão, Hitler seria o “Führer” que traria progresso, oportunidades de ascensão social e, ingenua- e irresponsavelmente, ignoravam suas declarações.

A ex-namoradinha do Brasil, Regina Duarte, está convencida que o discurso homofóbico do candidato do PSL “é da boca pra fora”.

O apresentador Luciano Huck se mostra cheio de esperança: “As pessoas podem amadurecer”.

Ao invés dos Quilombolas, dos afrodescendentes e dos membros da comunidade LGBT e os imigrantes venezuelanos no Brasil, os inimigos mortais do NSDAP nos anos ’30 eram os judeus e a “esquerda bolchevista”.

Assim como o ditador alemão, o candidato à presidência do Brasil, de uma extrema-direita com claros sinais e prática de ideologia fascista, über-nacionalista, não faz segredo de seus planos. As cartas estão na mesa.

A responsabilidade da Arte

O escritor alemão Thomas Mann, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1929 se expressou contra Hitler muito antes da tomada do poder pelo austríaco em janeiro de 1933. Os sucesso do NSDAP, nas eleições de Setembro de 1930 com 18,3% e avançando para o lugar da segunda bancada mais forte depois no parlamento, depois dos socialdemocratas, foi motivo para o discurso do escritor feito em Berlim no dia 17 de Outubro no Salão Beethoven: “Apelo ao Bom Senso”, (Appell an die Vernunft), texto que não perdeu em nada em contemporaneidade em 2018. Thomas Mann alertou para “a volta da barbárie”. Em 1933, ele não retornou de uma viagem a Alemanha.

Em 1936, a família perdeu a cidadania alemã. A única opção foi o exílio. Mann nunca mais retornou à Alemanha. Como tantos outros imigrantes durante o Nacional-socialismo de Hitler, Mann continuou a se expressar, por exemplo, em seu tempo de exílio na Suíça, juntamente com o editor Konrad Falke.

Depois disso ele foi vitima, inúmeras vezes, de adeptos do partido fascista. No Brasil, o sucesso do candidato já concedeu a seus eleitores Carta Branca para sair exercendo represália, guerra de nervos, agressão e violência física Isso e só o começo. Em 1933, quando Hitler já havia tomado poder como Chanceler do Reich, Thomas Mann não voltaria para a Alemanha de uma viagem de negócios. Assim também aconteceu com Albert Einstein, outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz e muitos membros da elite artística, da ciência e das artes em geral ou optou a tempo pelo exílio ou morreu. Uma das frases mais recorrentes que ouvia quando garota era: .”O Brasil e o pais do futuro”.

O Brasil de 2018 me faz sentir muitas saudades de um outro Brasil: o Brasil de uma invejável diversidade cultural, de manifestações culturais populares exuberantes e um povo cheio de idiossincrasia, mas um povo que até algum tempo, renegava o discurso do ódio, a premissa da vingança e principalmente a crença na chegada de um Salvador da Pátria”, um Führer.

Que ao Brasil, essa terra linda de democracia jovem e cada vez mais fragilizada, seja poupada de sombrios 4 longos anos e que o passado não venha se repetir. Caso o pior cenário se torne realizada, Sting terá tido razão quando canta: “History, we’ll teach us nothing” (A história não nos ensinará nada).

 

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