As sete vidas de Angela Merkel e o azar dos social-democratas

Fátima Lacerda

11 Maio 2017 | 11h19

© dpa

Já há poucos meses, quando o social-democrata Martin Schulz foi eleito com 100% dos votos para chefe do partido e era coroado candidato a chanceler, a Alemanha vislumbrava, finalmente, um candidato com porte para derrotar aquela que mostra ter sete vidas: Angela Merkel. Ninguém melhor do que ela para ratificar um ditado popular das terras daqui, que prescreve: “Quem é tido como morto, vive mais tempo!”.

Depois da condecoração de Schulz na convenção extraordinária do partido (SPD, na sigla em alemão,), os social-democratas voltaram a ser procurados por uma avalanche de novos membros que queriam entrar para a festa que deveria ser o período de campanha eleitoral. No final de março, o partido social-democrata contabilizava 10.000 novas adesões. Finalmente haveria paixão e temperamento, tudo aquilo que Merkel não simboliza, duranta a campanha. Bastar olhar para os franceses e com que ímpeto eles fizeram campanha para seus candidatos para constatar a discrepância que é com os eleitores alemães que, cada ano que passa, acreditam menos que a política pode mesmo mudar para melhor a vida das pessoas. Esses mesmos eleitores vão cada vez menos às urnas.

Depois de Gerhard Schroeder, (1998-2005) os social-democratas teriam, finalmente, a perspectiva de sair do papel de coadjuvante, sentença natural como parceiro Júnior em uma coligação onde a chefe atende pelo nome de Angela Merkel.

Efeito Schulz”

A imprensa alemã falava sobre o “Efeito Schulz” ou sobre o “SchulzHype” e questionava se o ex-presidente do Parlamento Europeu possui de poderes de “andar sobre a água”. Também as pesquisas de intenção de votos ratificavam o Hype daquele que deixou tudo para trás em Bruxelas para dar ao SPD um Revival, causar um Up e finalmente assumir o papel principal na política em Berlim. “Eu entro nessa parada com o objetivo de me tornar o chanceler da Alemanha”, declarou frente a membros do partido e com um tom de voz que não deixava nenhuma dúvida em sua ambição de pagar pra ver.

Efeito dominó para o SPD

As pesquisas de eleições de votos mostraram, nas primeiras semanas, resultados do “Efeito Schulz”. Pela primeiríssima vez desde o segundo mandato de Merkel, os social-democratas passaram a frente do CDU, partido de Merkel. Que euforia! Finalmente um cara que veio para topar o desafio de desbancar a “Chanceler do Mundo”, como a condecorou a revista “Time”.

O tempo passou, o efeito Schulz foi sucumbindo em ostracismo midiático até que a imprensa começou a questionar: onde estará Schulz? A campanha nao chegou a tomar as dimensoes que a Rede Globo investiou na caça ao cantor Belchior, que levou a reportér a percorrer os pampas uruguaios até chegar a São Gregório de Polanco, mesmo porque, os alemães não são chegados à celeumas.

Onde está Schulz?

Durante a campanha para as eleicoes da região de Schleswig-Holstein (norte do país), Schulz só apareceu uma vez em evento para apoiar o candidato social-democrata, Torsten Albig e que tinha o chamado “bônus do cargo”, mas por essas mazelas de quem se sente muito seguro no poder e esquece de que o voto (numa democracia robusta) é emprestado temporariamente. “Esse pessoal tem que saber que temos a melhor proposta. Eles tem que entender isso!” esbravejou no último comício antes da eleições que ocorreram no dia 07 de maio quando chegou a fatura.

©Bunte

Além desse tom arrogante, Albig, concedeu entrevista à revista “Bunte”, um tipo de prima da revista “Caras” na qual falou sobre sua recente separação. Que a maioria das eleitoras mulheres não iriam votar nele, é um fato resultante lógico e que para saber disso, não se faz necessário marqueteiro algum ainda mais se ele, ainda não estando divorciado da atual mulher e declarando que os afazeres de esposa e mãe da atual mulher já não combinam com a carreira de um político ambicioso. Para jogar tudo no ventilador no momento mais impróprio possível, Albig se deixou fotografar ao lado da nova, onde falava “sobre o amor a ela”. Um caso habitual de políticos, especialmente, do sexo masculino num quadro patológico de perda do senso de realidade juntado à uma vaidade incontida resultante de muito tempo no cargo e a imprensao de ser imbatível. Dejá vù?

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Albig perdeu para o candidato do CDU e presenteou a chanceler com o resultado positivo para seu partido. Mesmo que políticos (especialmente os que saíram derrotados) gostem de afirmar que eleições regionais não tem relevância em âmbito federal, tipo a retórica:uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa, a coisa não é assim tão simples. Além do efeito psicológico midiático (já que Merkel aparece sorridente na coletiva de imprensa depois da reunião semanal da diretoria do partido), é sempre bom dar uma cacetada no adversário e da forma mais merkeliana possível: um sorriso, a tranquilidade espelhada no rosto, enquanto a seu adversário sobrou a lamentação frente às câmeras de TV. O texto “Uma derrota dessas não irá nos desanimar” não convenceu ninguém e exibiu uma fraqueza já na primeira derrota.

Eleições na França e vento favorável

Os franceses pouparam a Europa de mais um cenário apocalíptico na politica mundial, depois do Brexit e da eleição de um imprevisível e de vaidade incontrolada para habitar Casa Branca nos próximos 5 anos.

Me alegro frente a perspectiva de uma relação de confiança com o recém-eleito presidente Emmanuel Macron”, declarou a chanceler em sua habitual retórica de que o menos é mais.

Contra todas as possibilidades, frente à crise com a ditadura que se tornou a Turquia e o gelo das relações transatlânticas, Merkel segue em frente com a tranquilidade, digo, com a vista grossa de sempre. Mas é claro que a vista grossa se faz bem mais agradável quando o vento é favorável.

O próximo barômetro para as tendências Merkel ou Schulz será exibido no próximo fim de semana, com eleições na região da Renânia do Norte-Vestfália, a mais populosa do país (com 13 milhões de eleitores registrados) e ex-polo de minas de carvão, um terreno tradicional social-democrata, como atualmente, com a Ministra-Presidente, Hannelore Kraft, que tempos foi cotada para se a candidata dos social-democratas à chancelaria, mas optou em não entrar nessa briga.