Autor de ataque xenofóbico contra família dos Bálcãs é um velho conhecido da polícia

Fátima Lacerda

02 Setembro 2015 | 09h25

Kiezmann.jpg© Björn Kiezmann

Christoph S. (32), protagonista do caso que obteve repercussão midiática em âmbito nacional e internacional tem vasta ficha policial, já respondeu por mais de 20 processos e já esteve preso diversas vezes, entre outros por posse ilegal de armas, uso ilícito de drogas, agressão física, incitação de manifestações de cunho nazista e uso de emblemas de associações ilícitas.

O ocorrido

Por volta das 22 horas do sábado, 22.08. Christoph S. entrou no vagão do S-Bahn, o trem que viaja pela superfície na estação “Landsberger Alle”, leste da cidade, se aproximou de uma família composta de mãe e dois filhos respectivamente de 5 e 15 anos. Por não apresentarem “claros sinais de origem alemã”, ele começou o xingamento, primeiramente usando a frase: “Porcaria de engodo de refugiados”, partindo da premissa de quem não tem aparência alema, é automaticamente um refugiado. Na sequência, enrijecendo o braço direito até um pouco acima do ombro, executou a saudação hitleriana (proibida por lei), gritando “Heil Hitler, seus judeus” e ainda acrescentou: “Nós somos a raça superior e vocês não são arianos“, assim os dados colhidos em depoimentos das testemunhas presentes no vagão.

Depois dos xingamentos, Christoph S. abriu o zíper de sua calça jeans, botou pra fora suas genitais e urinou nas crianças, membros da família supostamente proveniente da região dos Bálcãs, ato que, segundo fontes da imprensa, teria levado o Robert S. seu acompanhante na noite de sábado, ao delírio.

Apesar de vários apelos dos agentes da polícia, via mídia, para que a família se manifeste em qualquer delegacia para prestar depoimentos, esse apelo continua,12 dias depois do ocorrido, sem o resultado desejado. Certamente a família teme igualmente uma exposição pública, acompanhada de constrangimento, especialmente para as crianças que depois serão confrontadas pelos colegas no pátio da escola, como também represálias da cena neonazista que, ao contrário de outrora, não é mais restrita ao lado ocidental da cidade. Instigar o medo o ostracismo das vítimas são algumas das motivações desse criminosos de plantão que se declaram representantes da “causa alemã”.

Berlim, com sua tradição esquerdista, berço de revoluções que mudaram o mundo e também como resposta aos 12 anos do nacional-socialismo de Hitler, Berlim é de tradição “vermelha”, revolucionária. Esse caso específico de urinar em crianças, porém, mostra uma nova dimensão da xenofobia devido ao ato que expressa de forma mais nítida um o total repúdio, motivado pela xenofobia.

SpiegelTV3163020234774569highResmaxh480maxw480pisser-001.jpg©SpiegelTV

Vasta ficha policial

Spiegel TV, o programa de jornalismo investigativo, líder de audiência nesse segmento e exibido nas noites de domingo, conseguiu encontrar o suposto autor dos crimes no bairro de Neukölln, sul de Berlim, parte oeste da cidade. Com um celular no ouvido, duas garrafas de cerveja na mão e em frente a estação de metrô, “Hermannstr.”, Christoph S. foi surpreendido pela câmera e pela rapidez do repórter, que logo identificou e indagou o porque da atitude com a família. “O que você quer? Vai embora, panaca!“, hostilizou. O amigo de Christoph, que na reportagem aparece visivelmente transtornado, chega perto do repórter e ameaça atirar uma garrafa de cerveja nele. Perguntado pelo se ele estava junto na hora do crime, ele precisa de 3 vezes da pergunta repetida para declarar que “estava com a namorada” na hora do ocorrido.

Gracas a ligação dos passageiros para a polícia, na noite do crime, Christoph S. e seu amigo Robert S., foram presos saindo do metrô algumas estações depois.

A liberação dos dois acusados depois de prestarem depoimento no Departamento Regional de Investigações (LKA, na sigla em alemão) causou repúdio e críticas por parte de políticos, na mídia e nas redes sociais. Em entrevista ao Abendschau, noticiário local da TV berlinense, Thomas Neuendorf, porta-voz da polícia, alegou: “Já que os dois acusados tem residência fixa, não se faz necessária a prisão preventiva”, argumento que comparado com a notícia da falta de moradia fixa de Christoph S. , vinculada pelo jornal local, Berliner KURIER, não deixa fechar a conta, além de deixar bastante espaço para questionamento, porque um elemento com vasta ficha policial e que, visivelmente, expressa um perigo para a sociedade, pode ficar solto por ai. Em outubro, ele. será julgado pelo crime de roubo de 4 garrafas de vodca num supermercado.

Origem

Christoph S. nasceu em Sömmerda, cidade localizada na região da Turíngia (leste do país). Segundo fontes do Berliner KURIER, apesar de estar registrado como residente na cidade de Zwickau, região da Saxônia* ele não tem residência fixa e pernoita de favor na casa de amigos. No bairro de Neukölln, ele goza de grande fama nos bares de esquina e na cena neonazista consta como o que o jargão denomina de “Mitläufer“, aquele que não atua como cabeça pensante, mas entra de gaiato no navio, procurando a legitimidade e anonimidade na dinâmica de grupo.

Já em discurso de final de ano, Angela Merkel alertou para esse tipo de perigo. O texto que foi mencionado no discurso, foi repetido pela chanceler na coletiva à imprensa na segunda-feira (31) : “Eu repito para aqueles que participam dessas passeatas. Não siga os que convocam para essas passeatas. Na maioria as vezes, sua motivação é o preconceito, frieza e até mesmo ódio em seus corações. Se afastem!” Pela dinâmica alcançada pelo clima de ódio frente aos refugiados, pode-se constatar que o apelo de Merkel, até agora, não trouxe o resultado desejado.

A equipe do programa Spiegel TV também descobriu que Christoph S. é um constante membro das passeadas da Bäergida, a  “filial” berlinense, do movimento  “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente” que tem seu berço na cidade de Dresden, leste do país e que aterrorizou a Alemanha no final de 2014 e início de 2015, levando recorde de pessoas para as passeatas todas as segundas-feiras.

Ainda segundo KURIER,o ato de motivação xenofóbica tornou Christoph S. um herói na cena neonazista, já presente de forma abrangente e representativa na parte ocidental de Berlim.

*Na Alemanha existe a obrigatoriedade para todo o morador no país, de se registrar na polícia com dados de sua residência fixa. O fato do endereço concedido, não bater com o endereço de fato, é uma exceção e ção é de acordo com a lei.