Berlim – Coimbra: do frio gélido para a cidade dos livros e do cinema

Fátima Lacerda

22 de novembro de 2018 | 21h26

Quando o termômetro em Berlim exibe a temperatura de dois graus no fim de novembro depois de um verão das Arábias, é hora de partir para terras menos antagônicas e menos hostis em termos climáticos.

O acaso quis que o final de um ano para riscar do calendário fosse numa cidade que é o contrário dos terremotos políticos que vem acontecendo em várias partes do mundo. Nesse mês de Novembro, no qual Berlim é caracterizada pela chamada Tristesse, Coimbra tem, além dos atrativos históricos, sua universidade juntamente com a mundialmente famosa biblioteca Joanina, ela tem um Festival de Cinema que já é parte da retina da cidade há 24 anos.

História e Livros

A Casa da Livraria, digo, a Biblioteca, foi construída entre 1717 e 1728, mas foi receber os primeiros livros depois de 1750. Dom João V tinha muitas similaridades (mesmo que por motivações bem diferentes) com o Frederico Guilherme III, Rei da Prússia: este um homem das Artes que, entendeu a necessidade da cultura ser patrimônio acessível ao povo. A motivação de Dom João V foi, nem tão nobre quanto a de Frederico, e sim exaltar a riqueza com o ouro trazido do Brasil e, com isso, manter seu poder e também exibí-lo. Porém, os resultados em Berlim e em Coimbra são semelhantes. A cultura e a cidadania ganhou. Em Coimbra, com os Livros e na Prússia, com a obsessão de Frederico em tornar Berlim um lugar relevante no quesito das Belas Artes. O que iniciou com a construção de um museu, hoje forma a Ilha dos 5 Museus (em breve 6), desde 1999 patrimônio histórico da UNESCO.

Livros e Morcegos

Na Biblioteca mais famosa do mundo, a colônia de morcegos que lá existe, ajuda na tarefa de Hércules de preservação dos livros juntamente com mundanos instrumentos técnicos para evitar o deterioramento dos mesmos.

Coimbra-Cidade Cinema

Durante dez dias (23.11./01.12), a cidade universitária será capital portuguesa do cinema. “Caminhos” é o festival já na 24a edição e que consegue coexistir, pelo que parece de forma harmônica, com o Doc Lisboa, focado no forma de documentários e o Indie Lisboa, no cinema independente.

O cinema autoral português de qualidade tem sido presença constante nos últimos 7 nos festivais de categoria A e se firmado nesses solos através de uma chuva de prêmios. E olha que no discurso memorável de João Salaviza ao ganhar o Urso pelo Melhor Curta (“Rafa”) na Berlinale em 2102, os tempos eram de vagas magras e de muitas incertezas para o cinema português. Seu apelo foi ouvido pelos determinantes da política cultural. Salaviza também está presente no festival com o filme “Russa” que foi exibido na Mostra dos Curtas/Berlinale Shorts da Berlinale deste ano.

Na safra dos mais expoentes estão, entre muitos outros,  Miguel Gomes (TABU), Salomé Lamás (Coup de Grace) e Leonor Telles (Terra Franca), ainda estreante âmbito das premiações .

João Salaviza, um dos mais expoentes da atualidade, juntamente com sua parceira Renée Nader Messora foi premiado recentemente pelo filme “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos“, no Festival do Rio e no Festival de Mar del Plata na Argentina. O filme foi rodado no Tocantins.

Fui convidada pela organização do Festival para integrar o Júri de Imprensa “CISION. “O Prêmio de Imprensa CISION visa premiar o rigor e a ousadia estética, tanto no plano narrativo, como a nível da imagem cinematográfica. Pretende-se, assim, valorizar a produção nacional numa perspectiva artística, que é uma das suas valências mais expressivas“, assim é explicado o intuito no site do Festival.

Também no júri de imprensa, estão o jornalista Vasco Câmara, Editor do Suplemento Cultural, Ypsilon do jornal Público, um dos melhores jornais do país. Nuno Gonçalves, o terceiro membro do júri trás uma bagagem de conhecimento de mercado e de distribuição, entre outras, Paramount, Universal, Dreamworks e 20th Centurião Fox.

https://www.caminhos.info/juris/jurados-2018/

Júris para todos os gostos

Ao todo (incluindo o CISION) são cinco grupos de júris tem a incumbência de serem multiplicadores das obras a serem vistas, em futuro próximo, por um público mais abrangente.

Caminhos, Seleção Oficial

FICC/IFFS: Mantém viva a tradição e essência cineclubista em tempos de Pós-Moderno e Inteligência Artificial.

Chama Amarela: prêmio de público, medido na intensidade dos aplausos no final da sessão com também de voto de próprio punho em cédulas distribuídas.

Ensaios: focada em “um espaço de diálogo estreito a todos os realizadores, que em Portugal e a nível Internacional, almejam ser os criadores de amanhã, bem como um olhar comparativo entre as culturas e perspectivas cinematográficas. Essa Mostra (Chama Amarela) tem grandes semelhanças com a “Perspectiva do Cinema Alemão” (PDK) na Berlinale. Os acadêmicos prestes a terminar os estudos ou com os mesmos recém-terminados tem nesta mostra uma primeira janela para, na sequência, galgar voos mais ousados.

Analizando o cinema autoral português no momento, essa estratégia tem sido mais do que vitoriosa. O Fomento de jovens diretores e diretoras, sublinhado por uma coerente política de fomento e exigida e cobrada pelos setores de produção, vem mostrando o certeiro do caminho percorrido até aqui.

Cinema Brasileiro em Coimbra

Entre diretoras e diretores brasileiros presentes em Coimbra, está a diretora Lucia Murat com o filme “Praça Paris” concorrendo na Mostra “Seleção Caminhos”

https://www.caminhos.info/2018/seleccao-caminhos-2018/#.W_ctojGNzIU

Nos próximos dias, para os aficionados pela Sétima Arte e para os esfomeados por aventuras visuais e sensorias, todos os caminhos levam  Coimbra e isso será espelhado com matérias sobre o festival que eu estou curiosíssima para conhecer, sobre a cidade e sobre a presença brasileira no festival.

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