Berlim de mãos dadas contra o racismo e a favor da diversidade

Fátima Lacerda

19 Junho 2016 | 08h50

Neste fim de semana e no preâmbulo do Dia Internacional do Refugiados, que será lembrado nesta segunda-feira (20), nas cidades de Leipzig, Hamburgo, Osnabrück, Bochum e Berlim acontecem manifestações contra a xenofobia, o racismo e pela diversidade. “De mãos dadas contra o racismo” é o lema da manifestação que tem como organizadores, entre outros, a Amnesty Internacional, organizações como “Pão para o mundo”, “Pro Asilo”, o conglomerado sindical DGB, Associação de Judeus Progressivos, o Conselho Geral de Muçulmanos na Alemanha e Campac, um “Grupo para o discurso de política progressiva” além de organizações beneficentes e de cunho social.

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Num fim de semana, no qual as manchetes principais estão focadas na suspensão da equipe russa de atletismo para os Jogos Olímpicos, no assassinato de Jo Cox, deputada do Labour Party inglês, o iminente plebiscito se a Inglaterra permanecerá ou não na zona do Euro e os Hooligans ingleses, russos e alemães e ainda do show de Bruce Springsteen no Estádio Olímpico, ainda sobra tempo para uma manifestação política de solidariedade.

Com a política imigratória tipo Zigue-zague tanto do governo alemão quanto da UE, os partidos populistas de direita consseguem o melhor cabo eleitoral possível. A aversão a membros e praticantes da religião muçulmana vem aumentando consideravelmente na sociedade alemã. A questão, se o Islã faz parte da Alemanha ou não, virou uma questão de identidade cultural. Enquanto o ex-presidente Christian Wulff, em discurso feito em 2010 atestou: “O Islã faz parte da Alemanha”, sendo assim coerente com o perfil demográfico do país, outros políticos revidam essa afirmação. Os populistas de direita de plantão permitem o Islã como exercício livre de religião, mas consideram o Islã perigoso “quando é exercido como instrumento político para dominar o mundo”, assim declarou Beatrix von Storch, a vice do partido populista de direita que se autodenominou “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla em alemão).

A cultura do medo

No preâmbulo do referendum #Brexit que será realizado no próximo fim de semana e decidirá sobre a permanência ou não da Inglaterra na Zona do Euro, assim como o assassinato da deputada Jo Cox mostra um cultura do medo, um dos argumentos mais fortes dos grupos a favor é a “enxurrada”, a “invasão” dos turcos que estarão entrando no país. Os contra o #Brexit não conseguiram ou não tiveram coragem de resgatar esse tema e inseri-lo na pauta de discussão com os britânicos, especialmente, os ainda indecisos sobre como votar no próximo domingo. O conservador e polêmico jornal “Daily Express” é protagonista na cultura do medo, publicando todos os dias manchetes do tipo: “Refugiados conseguem empregos entre 3 e 4 semanas” ou “Escândalo do benefício para refugiados”, “Romeno assalta a casa de um homem“, “Muçulmanos disseram a inglês: “Vá pro inferno!“, são algumas das manchetes do jornal que se dobrar, sai sangue.

A estratégia do Daily Express resgata um público alvo de populistas de direita que, devido a “ditadura do politicamente correto” ficaram muito tempo presos dentro do armário, roendo suas ideologias em pequenos círculos. Quando a uma igualmente equivocada e cega política de imigracao começou vir à tona no verão de 2015, os “cidadãos preocupados”, sejam eles leitoras e leitores do Daily Express ou membros do AfD na Alemanha, viram a sua hora chegar, a hora de finalmente sair do armário e vomitar todo o ódio acumulado durante décadas. É também o ódio que causou a morte de Jo Cox, mesmo que nos dois primeiros 2 depois do crime que sofreu, a polícia inglesa se recusava a acoplar e associar o assassinato a um “motivo político”. O usuário inglês James Melville postou em sua conta do Twitter: “De onde vem tanto ódio?”

É também o ódio que vem guiando as forças populistas e as forças de extrema direita na Alemanha, as mesmas que andam de mãos dadas com membros do AfD. James também postou, o que muitos britânicos pensam: Sob a #Hashtag #IWantMyCountryBack, ele mandou: “Eu quero a compaixão, benção, humor, dignidade, tolerância, igualdade, esperança, inclusão, empatia, compreensão, amor”.

Berlim exibe hoje mais um sinal de solidariedade além de dar as mãos contra o racismo. No bairro de Lichtenberg, esse que tem fama de ser o reduto dos neonazistas da cidade, acontece hoje o Bagaasch Cup 2016, um torneio de futebol para refugiados que conta com o apoio da Cruz Vermelha alemã (DRK, na sigla) e é organizado pelo clube de torcedores berlinenses do time 1. FC Kaiserslautern que já teve seus anos de glória na Bundesliga e hoje amarga na segunda divisão. Mesmo assim. A iniciativa que partiu, principalmente, de Axel Adam, um dos membros da diretoria do fã-clube, ratifica que o futebol pode e dever ser muito mais do que um jogo de 90 minutos, mas sinônimo de inclusão social, interação e solidariedade, até mesmo em terreno tão hostil como Lichtenberg, na parte leste da cidade.

O artigo de minha autoria, publicado no Blog inberlin. de sobre o torneio, você confere aqui:

http://blog.inberlin.de/2016/06/fussballturnier-fuer-gefluechtete-setzt-ein-zeichen-im-bezirk-lichtenberg/

Atualização de domingo (20):